

SRGIO PORTO

As Cariocas


4. edio

Prefcio de JORGE AMADO

EDITORA CIVILIZAO BRASILEIRA S. A.

1975.


Sumrio

O Novelista Srgio Porto
A Gr-Fina de Copacabana
A Noiva do Catete
A Donzela da Televiso
A Currada de Madureira
A Desquitada da Tijuca
A Desinibida do Graja

O Novelista Sergio Porto

JORGE AMADO

Um dos fatos importantes de nossa literatura nos ltimos anos foi o aparecimento e o sucesso do escritor Srgio Porto, talvez mais conhecido por Stanislaw Ponte
Preta (mais do que um pseudnimo, Stan  personagem e autor, e a outra face de Srgio). Realmente importante, pois o escritor carioca se imps de logo como um jovem
mestre de seu oficio. Renovou a crnica, gnero que havia atingido surpreendente altura literria, mas que corria o perigo de estiolar-se na grandeza de um Rubem
Braga, na inveno de um Fernando Sabino, na graa de um Paulo Mendes Campos. Como ir mais adiante quando esses mestres pareciam haver esgotado o territrio da crnica?
Pois Srgio Porto, sob sua assinatura e sob a de Stanislaw, conseguiu igualar-se aos maiores sem com nenhum deles parecer, nem dever influncia a qualquer que fosse.
A criao da figura de Stanislaw  uma grande faanha literria e resultou da necessidade que teve Srgio Porto de um instrumento para aplicar seu alto moralismo,
para atingir mais fundo com sua crtica  sociedade absurda em que vivemos. Projetou-se o moralista num personagem que  ao mesmo tempo a tese e a anttese, um dom
Quixote de nosso tempo e da cidade do Rio de Janeiro, um dom Quixote cem algo de rabelaisiano e muito de Mark Twain na capacidade de humor, inabitual em nossa literatura,
humor que alia  alta qualidade um carter brasileiro inigualvel. Stanislaw cresceu numa famlia cada vez mais numerosa de uma personalidade e de um pitoresco deliciosos:
tia Zulmira, a sbia anci; Mirinho, o calhorda completo; o patriota Bonifcio; Rosamundo, o distrado. Cada um deles concorre com sua fisionomia prpria para o
grande painel da vida carioca que, passo a passo, despretensiosamente, Srgio Porto vem construindo na criao de Stanislaw e de seu mundo de stira, de humor, de
gozao, de riso alegre e franco, de combate sem quartel a toda sujeira, a toda a indecncia, ao vendepatrismo,  reao poltica, numa das obras literrias mais
vlidas dos ltimos dez anos em nossa ptria. A vasta popularidade da famlia Ponte Preta e de seu criador, o enorme pblico nacional que os acompanha nas colunas
dos jornais e nos livros de edies repetidas, so sinais, evidentes de como tem calado fundo no povo a literatura de Srgio Porto, filha de seu tempo e de seu cho,
alimentada pelos acontecimentos dirios, solidria com as vitrias e as lutas do povo, arma de combate nos tristes dias polticos de agora com essa ditadura de meia-sola
e seu entreguismo de sola inteira.
Quero me deter, porm, noutro aspecto da criao dos Ponte Pretas: a revelao de um ficcionista a se conter nos limites jornalsticos da crnica. Como sucede com
Fernando Sabino. Apenas o mineiro no precisava fazer prova de sua vocao ficcional, pois ele veio do romance de sucesso, Encontro Marcado para o sucesso da crnica,
enquanto Srgio Porto estreara como cronista e parecia indiferente aos apelos da fico. Mas que outra coisa So Stanislaw, a tia Zulmira, Altamirando, Rosamundo,
Bonifcio, seno criaes de fabulosos, personagens e quantas vezes a crnica de Stan ultrapassa as fronteiras do gnero menor para ser deliciosa histria, feita
de ao e vida? Sempre esperei, numa ansiedade de leitor cotidiano o desembarque de Srgio Porto no ancoradouro da criao novelstica para onde fatalmente o arrastavam
uma indeclinvel vocao e o amadurecimento literrio.
H um ano talvez Srgio deu-me a ler os originais de uma novela, tendo como tema a vida carioca, escrita quase sob encomenda para ser transformada num filme. Desde
logo confirmaram-se, a leitura das primeiras pginas, a certeza antiga que eu nutria a propsito das qualidades de novelista do autor da familia Ponte Preta. Acontece,
porm, que o cronista que enriquecera a lngua literria do Rio de Janeiro (e a brasileira, conseqentemente) com o uso de uma linguagem viva, solta, livre, sentia-se
como que tolhido no novo territrio da fico onde, naquela primeira experincia, naco obtinha a mesma liberdade de expresso nem sequer a mesma fora de criao,
mantendo-se tmido e por vezes vacilante. Faltava-lhe exerccio, domnio do novo instrumento.
Ora, ao ler nestas vsperas de Natal os originais de As Cariocas, volume no qual Srgio Porto reuniu algumas novelas cariocas, centralizando-as em figuras femininas
mas construindo ao mesmo tempo um quadro, amplo e profundo, da vida carioca dos nossos dias com os seus personagens mais caractersticos, ao ler esse conjunto de
seis novelas, encontro-me com um ficcionista muito distante do tmido de um ano passado. Com que rapidez se apossou ele de seu novo instrumento e como o maneja firme
e seguro! O Rio de Janeiro voltou a produzir um grande novelista a somar-se a famlia que vem de Machado de Assis a Lima Barreto, de Marques Rebelo a Micio Tti.
O recriador da vida carioca de hoje - dono e senhor de sua lngua viva, dos sentimentos, dos dramas, das alegrias, desesperos e tristezas da gente carioca - chama-se
Srgio Porto.
Um quadro dramtico e poderoso, marcado com uma poesia mscula, uma solidariedade humana c uma ternura funda, eis o livro de Srgio. Guarda le uma linha de unidade
na concepo e na realizao, em sua arquitetura simples, onde no h nenhum truque, nenhum artificialismo, nem a busca do dernier cri, to ao gosto de certos jovens
que tentam cobrir com a ltima novidade sua impotncia criadora. Um mundo contraditrio e mltiplo, um tempo de terrveis desolaes mas tambm de certos herosmos
annimos, uma cidade de dot e de solido mas tambm de alegre viver e de calor humano, eis o livro de Srgio Porto. Comovi-me muitas vezes ao ler essas pginas onde
uma gente frgil e triste, agoniada e cheia de nsia de viver atravessa por entre a mais bela das paisagens em busca de uma esperana, de um porto seguro, de uma
paz que parece impossvel.
Penso que novos limites, cada vez mais amplos, aguardam Srgio Porto, pois ainda so estreitas para sua vocao as pginas das novelas. Penso que no tardaremos
a v-lo enfrentando os continentes do romance para nos dar o grande romance carioca dos nossos dias, ainda por escrever. E quem poder faz-lo melhor do que o filho
de D. Dulce, nascido nesse asfalto e nele posto a trabalhar? Creio que s uma coisa falta a Srgio Porto para realizar essa grande e nobre tarefa: tempo, j que
esse escritor excepcional, sendo um bom trabalhador carioca, gasta seu tempo em programas de televiso e outras coisas iguais. Mas no nos enganemos, pois le carrega
consigo a vida do Rio, estuante e lrica, e est destinado a recri-la.

A Gr-Fina de Copacabana

1

SARITA OLHAVA distrada o trnsito colorido que descia pela Avenida N. S. de Copacabana. Aquele rio de carros que corria em direo ao centro da cidade e ali engrossava
depois de receber todos os seus afluentes os carros que vinham do Leblon, via Posto 6, os que vinham de Ipanema, via Lagoa, os que vinham do Bairro Peixoto e das 
muitas ruas transversais. Acendeu um cigarro j impaciente e continuou na janela. Estava no oitavo andar de um edifcio do Lido, onde o eminente Dr. Tedulo de Carvalho 
tinha o seu consultrio e sua clnica; uma clnica muito bem montada para padronizar os narizes de moas ricas que tinham em seus respectivos apndices nasais o 
centro de seus complexos, ou para esticar as pelancas de velhotas ociosas para as quais a velhice era um fantasma constante, muito mais constante durante o dia, 
quando suas rugas eram mais evidentes, do que durante a noite, quando costumam ser mais constantes os fantasmas de um modo geral. Em suma: o Dr. Tedulo de Carvalho 
era um afamado cirurgio plstico que enriquecera e envelhecera explorando a vaidade das gr-finas do caf society tornando-se um desses mdicos que consideram o 
consultrio a coisa mais importante da Medicina.
Seu consultrio era no quarto andar e sua garonnire no oitavo. Sarita estava no oitavo andar, justamente na garonnire do Dr. Tedulo, porque Sarita era amante 
dele e muito mais gente do que ela imaginava - como  comum nesses casos - sabia disso. E Sarita estava impaciente porque To no chegava. Marcaram s 2 hs e ficariam 
apenas uma hora, pois ele desceria s 3, como de hbito, para a primeira consulta. J eram 2 e 15 - confirmou ela olhando o seu reloginho de platina e brilhantes 
- e nada dele chegar.
Foi ai que Sarita viu um carro se destacar no meio dos outros e parar bem em frente ao prdio onde ela se encontrava. Era um modelo Fiat especial de carroceria moderna, 
uma gracinha de carro - ela pensou, porque alm de entender de carros, Sarita era tarada por carros esporte.
Sbito, Sarita estranhou! Mas era ele, o Dr. Tedulo que descia do carro. Retirou os culos escuros para ver melhor e logo seus olhos se fecharam contra- a claridade, 
mas Sarita forou a vista, seus olhos foram se abrindo aos poucos para confirmar no somente a presena de To junto ao carro como tambm a de Zizi, na direo. 
Sarita ficou mais abismada ainda. Zizi - Zilda de Carvalho - era a mulher dele e os dois se falavam e ela sorria. To estava na calada e dizia qualquer coisa  
mulher. Ela respondeu, fez um aceno com a mo, o carro movimentou-se e vagou outra vez pelo caudaloso rio que, logo adiante, pegaria seu ltimo afluente, vindo do 
Leme, e se espremeria dentro dos tneis, fiel ao seu leito - coisa que Sarita jamais fora - para escoar-se como sempre na Esplanada do Castelo.
O Dr. Tedulo virou-se e entrou no prdio. Sarita virou-se e entrou no quarto, colocando os culos escuros sobre um mvel e olhando-se no espelho, onde ajeitou a 
pintura com a ponta do dedo mdio da mo direita. Parou, olhou-se mais atentamente no espelho. Estava linda!
Sentou-se na beira da cama, fuzilando de raiva, para esperar a chegada do amante.
Barulho de chaves na fechadura, a porta abriu-se e o eminente Dr. Tedulo de Carvalho entrou esbaforido:
- Minha querida, desculpe... eu tive um almoo...
- Divertiu-se muito com ela?
- Ela quem? - espantou-se ele, enquanto colocava o palet no espaldar de uma cadeira e comeava a afrouxar o lao da gravata.
- Sua mulher! Voc pensa que eu no vi vocs dois chegando juntos l embaixo?
- Mas Sarita, a Zizi ia ajudar na preparao do ch da ABBR hoje, rio Copa...
- Ora, To... Francamente, voc me deixa plantada aqui horas e quando chega vem todo sorridente com sua mulher. s vezes eu penso que voc preferia trocar...
- Est calor aqui - disse ele, j nu da cintura para cima. Fechou a guilhotina da janela onde estivera Sarita espiando, e ligou a refrigerao.
- ... talvez voc preferisse ser casado comigo e ter a Zizi como amante.
Ele abraou-a pela cintura e tentou desabotoar seu vestido por trs do ousado decote das costas, enquanto falava carinhosamente:
-        Denguinho, deixa de coisa. Ela s me trouxe aqui. Voc sabe que meu carro est na oficina. Ela me trouxe no dela.
Sarita esquivou-se, quando ele falou no carro dela.
-        Carro novo, no ?
-        ... realmente o carro... 
Mas Sarita no o deixou terminar:
-        E voc tinha me prometido um carro, no tinha? Deu pra mim? No, deu pra ela.
--Mas foi ela que comprou!
-        E foi voc que pagou - arrematou ela, em cima do argumento dele.
To estava sentado na beira da cama, tirando os sapatos. Como todo gr-fino que se preza, cuidava-se. Seu corpo era queimado de sol, ele fazia massagem regularmente, 
tomava sauna. Nos seus quarenta e poucos anos, era um homem enxuto. Estava decidido a no brigar:
- Voc est com cimes dela ou do carro - levantou-se e abraou-a outra vez. Segurou-lhe. o queixo e virou-lhe o rosto em direo a seu olhar: - Hem?
- Dos dois - respondeu Sarita, mais calma.
- Dela no precisa ter cimes, Denguinho. Ela  que devia ter cimes de voc. ..
Sarita envolveu o pescoo dele num abrao: -- Mas ela ganhou um carro, n? - sua voz agora era infantil.
To puxou-a para junto da cama, onde sentou-se com ela no colo:
-        Denguinho, aquele carro custa muito caro. No  pelo dinheiro, voc sabe. Mas eu no poderia dar um carro daqueles para voc. Como  que voc explicaria 
a Eduardo?
Enquanto os dois se beijavam longamente, expliquemos que Eduardo era o marido de Sarita, tambm gr-fino, tambm freqentador das mesmas rodas que To freqentava, 
mas. que no era to rico como To. Apenas um dos muitos freqentadores dessas rodas, vivendo de comisses, hoje ganhando muito dinheiro aqui para poder cobrir as 
dvidas ali, num trapzio constante para agentar um padro de vida que no era o seu.
O mdico conseguira afinal desprender o vestido da amante e ela saltou de dentro dele s de calcinhas e soutien, levantando-se do colo de To para entrar no banheiro 
anexo ao quarto. De l falava para ele escutar:
-        E se eu arrumasse um jeito para tapear o Edu, voc me daria um carro igual ao da Zizi?
To levantara-se, colocara o vestido dela esticado sobre um mvel e tirara as calas, ficando apenas com a sunga de nylon. Respondeu evasivamente:
- Mas meu bem, aquele carro no  de srie. Deve ser o nico existente no Brasil.
-  o que voc pensa. - Sarita apareceu na porta do banheiro, enrolada numa toalha estampada. - Eu sei quem tem um igualzinho.
-        Quem?  
- O Cid.
- Que Cid? - intrigou-se To, mas puxando-a para a cama, enquanto ela explicava quem era Cid. Um playboy de So Paulo que agora estava morando no Rio, aquele que 
no aniversrio da Betty tomara o maior pifa e cara na piscina com smoking e tudo.
- Voc se lembra? - e Sarita levantou o busto, fincou o cotovelo na cama e ficou semi-recostada, olhando para To.
Ele fingia estar mais interessado nela do que no tal de Cid. Puxou-a outra vez para junto de si e beijou-a na boca. Terminado o beijo, Sarita voltou  carga:
- A irm do Cid  minha amiga. Tambm est morando no Rio, casou-se com um engenheiro da SURSAN. Ela foi tomar um ch comigo noutro dia. Disse que a famlia do Cid 
est muito preocupada com ele. O pai est querendo cortar a mesada, porque ele  um gastador. Ele  noivo cm So Paulo e vai casar breve. Deve estar precisando de 
dinheiro, no acha?
- Hum-hum - gemeu To.
- Ento!  capaz de vender o carro. A voc compra pra mim e eu dou um jeito de dobrar o Edu, t?
- T.
E To desenrolou a toalha que envolvia Sarita, abraou-a e - nessa tarde - no se falou mais nisso. Nem era assunto para ser debatido enquanto eles faziam o que 
fizeram.
Com franqueza, nenhum assunto cabe, em tais momentos.

2

CID ASSUNO de Almeida orgulhava-se de pouca coisa na vida. Orgulhava-se, por exemplo, de sua famlia ser uma das mais tradicionais de So Paulo, includa entre 
aquelas que se dizem de 400 anos. Era engraado: Cid orgulhava-se do fato, mas no s orgulhava da famlia, que vivia a chate-lo para voltar para So Paulo, casar 
com sua noiva, que tambm era quatrocentona.
- Nosso casamento, pela matemtica, seria de 800 anos - dissera Cid uma vez, irreverentemente, quando sua me, pela milsima vez o catequizava a voltar a morar no 
casaro da Avenida Paulista e trabalhar numa das fbricas do pai, homem abastado e prepotente. Contra a primeira faceta Cid no tinha nada, mas fora a prepotncia 
do pai que o fizera trocar So Paulo pelo Rio.
Sentado numa das mesinhas que contornam a piscina do Copacabana Palace, tomava um biter Campari, enquanto aguardava a chegada de Sarita. Entre as poucas coisas de 
que se orgulhava inclua-se tambm a sua beleza fsica. Considerava-se irresistvel s mulheres e no se surpreendera muito com o telefonema de Sarita.
-        Ela j vinha me dando bola h muito tempo - pensou.
Olhou novamente para a porta de vidro que dava entrada para a prgula do hotel. Ela teria fatalmente de passar por ali, a no ser que entrasse pelo edifcio anexo, 
atravessando o salo verde. Mas no, ela acabava de entrar na prgula, caminhava para o lado da piscina. Cid levantou-se e agitou um brao. Sarita notou logo o aceno, 
sorriu e caminhou at sua mesa.
- Ol! - saudou o rapaz, apertando-lhe a mo e depois fazendo uma reverncia como se fosse beij-la.
-        Ol - respondeu Sarita, sentando-se na cadeira que ele ajeitou para ela.
-        Voc quer tomar alguma coisa?
- No obrigada. Eu no vou demorar.. . Voc deve ter estranhado eu ter telefonado, no?
- Por qu? Por acaso eu no mereo o telefonema de uma mulher bonita?
Sarita sorriu, satisfeita: - Eu, na verdade, queria lhe propor um negcio e. ..
-        T fechado - respondeu Cid de pronto, rindo tambm.
-        ... espera rapaz, que homem nervoso!
- No vai me dizer que sou o primeiro que fica nervoso ao seu lado.
- Oh! Todos ficam nervosssimos! - exclamou Sarita, revirando os olhos, exagerando de propsito. Fez uma pausa e falou no carro: - Trata-se do seu carro.
- Meu carro?
- le mesmo. Voc quer vend-l?
- Bem, cq no tinha pensado nisto. Voc sabe,  um modelo especial. S existem dois aqui no Rio.
- Eu sei. O outro  da Zizi de Carvalho.
- Isto mesmo.  um carro muito caro.
- Eu no perguntei quanto custa, eu perguntei se voc quer vender.
- Talvez! Mas quem lhe disse que eu queria vender?
- Ningum. Ou melhor, Tininha  muito minha amiga, me disse que voc est noivo, que vai casar-se em So Paulo, que seu pai anda meio chateado com a vida que voc 
leva aqui...
- Minha irm, hem? No mnimo ela disse que meu pai botou a Interpol para me seguir.
- Nem tanto. Mas ela tambm acha que voc j est em idade de parar de gastar e comear a produzir.
- E voc?
- Eu no acho nada - respondeu Sarita, dando de ombros.
- No nego que em tudo haja um pouco de verdade: eu estou noivo, devo me casar, devo reassumir a direo de uma das fbricas do velho. ..
- Voc no pretende voltar para So Paulo?
- Sei l! Atualmente eu s vou  So Paulo para arranjar aval para as promissrias..
- Voc no visita nem sua noiva?
- Estou brincando - e Cid sorriu com franqueza: - Claro que visito e claro que preciso mudar de vida. O que eu estou  alongando um pouquinho mais as minhas despedidas 
de solteiro,
- E o carro? - insistiu ela.
- Est a fora. Vamos dar uma volta - e antes que ela respondesse, gritou para um garom que passava: - A minha nota, por favor!
- Voc est louco? - retraiu-se Sarita: - Eu no posso ser vista com voc passeando de automvel.
- Ora, eu suspendo a capota - e Cid levantou-se, deixou dinheiro em cima da mesa: - Isto d para pagar este xarope - depois puxou-a pelo brao e caminhou para a 
porta de vidro da prgula. Sarita deixou-se levar.
- O carro  uma gracinha - pensava ela, enquanto ele, num instante, fechou a capota, abriu a porta e fez sinal para que ela entrasse. Ela obedeceu e o carro saiu 
em disparada pela Avenida Atlntica.
Corria muito o carro de Cid e seu dono ainda corria mais. Nem meia hora havia se passado e quem transitasse pela Avenida Niemeyer e fosse bisbilhoteiro, poderia 
ver o mesmo carro parado numa das ilhas de retorno, com Cid l dentro abraando Sarita, num beijo caprichadssimo. Quando suas bocas se separaram, Sarita deu um 
suspiro e disse baixinho:
-        Voc  de morte!
-        Eu sou  de vida. To vivo que vou perguntar mais uma vez: vamos l?
- Onde?
- Em casa, u!
- Hoje no posso.
- E amanh?
- Voc vende o carro?
- Voc vai? Se eu vender?
- Hum hum. ..
- Ento hum hum tambm - e beijou-a de novo.
-        Que  que voc quer dizer com hum hum? - perguntou Sarita, mal o beijo acabou.
-        Quero dizer que vendo.
- timo - exclamou ela, animando-se. Ajeitou-se no banco, virou o espelhinho do carro em sua direo, endireitando os cabelos. Depois pediu: - Vamos embora, eu no 
posso ficar mais.
- Onde  que voc quer ficar? - perguntou ele, resignado.
- So quase duas. Me deixa no Lido.
-        Okay - e o carro saiu outra vez roncando. 
Enquanto desciam a Avenida Niemeyer de volta, Cid quis saber quem pagaria o carro. Sarita pediu-lhe que no fosse indiscreto, mas como ele ponderasse que, mais cedo 
ou mais tarde, se fizesse o negcio, iria saber, ela contou:
- Mas  lgico que voc vai fazer o negcio. Quem vai comprar o carro  o Edu, entende?
- No. Seu marido no tem dinheiro para comprar um carro destes.
- Escute... Voc vai vender a ele por um preo "X". Eu vou insistir, dizendo que voc est vendendo baratssimo. Digamos uns oito milhes, por a...
- Oito milhes??? Por este carro???
- Calma, homem. Voc vende a ele por oito milhes. Acertam tudo e voc marca para ele ir buscar os papis no dia seguinte. Antes disso To lhe paga a diferena.
- To? O Dr. Tedulo? Mas ele j tem um carro igualzinho.
- Ele no. A mulher. Este ele vai comprar pra mim.
- Quer dizer que... vocs dois. .. bem que tinham me dito.
- No pense no que lhe disseram e sim no que lhe digo. Voc quer vinte milhes pelo carro. Vende ao Edu por oito e antes de entregar os papis a ele o To lhe d 
os doze de diferena. De acordo?
-        De acordo desde que voc entre em acordo comigo. 
E os dois se apertaram as mos rindo. Pouco depois Cid deixava Sarita em frente ao prdio onde o eminente Dr. Tedulo de Carvalho tinha consultrio, tinha clnica 
e tinha garonnire.

3

ENTRE UM beijo e outro Sarita ia tranando a sua rede para pescar o Fiat especial modelo esporte. Portanto, vamos abreviar esta histria para que Sarita no fique 
de lbios inchados de tanto beijar.
Ela saiu do carro de Cid, entrou pela portaria correndo e tomou o elevador, apertando o boto do oitavo andar. Estava atrasada e To j devia estar esperando h 
muito tempo.
Barulho de chave na fechadura, a porta abriu-se e Sarita entrou. To estava sentado na beira da cama, na mesma posio que ela estava na vspera e ento ela lembrou-se 
da briga e correu para ele:
-        Meu Denguinho, desculpe! - e abraou-o, fazendo-o rolar para a cama.
- Mas eu j ia, descer para o consultrio! Sarita no deixou que ele argumentasse e foi logo contando a novidade:
O carro  nosso! (Ela ia dizer "O carro  meu").
-        Que carro?
- O do Cid, meu bem. Eu tive um plano infernal.
- Mas vem c, voc encontrou-se com esse Cid?
- Ora, Denguinho.  bvio que no. Eu j no disse que a irm dele  minha amiga, olha... eu sondei ela e ela acabou me prometendo que Cid me venderia o carro. A, 
sabe?... a, a - Sarita comeou a falar como criana. Coisa engraada isto: toda mulher de mau carter gosta de falar como criana.
- ... a a Tininha me ligou...  a irm do rapaz que tem o carro. Ela me ligou e falou pra sua Denguinha que ele vende o carro. - E voltando  voz normal: -  baratssimo. 
20 milhes s.
- S? - repetiu ele com cara desconsolada.
- S!
- Mas voc enlouqueceu? Como  que voc vai explicar ao Eduardo que comprou um carro de 20 milhes?
- J combinei com Tininha. Ela  minha amiga ntima. Eu converso com o Edu, digo que soube por ela que o irmo quer vender o carro baratssimo, insisto que  uma 
bagatela, coisa de oito milhes... oito milhes o Edu arranja que eu sei... A ele vai procurar o Cid e o Cid j est avisado. Entrega o carro a ele por oito milhes. 
Em seguida voc vai l e cobre a diferena.
O Dr. Tedulo ficou calado e pensativo alguns segundos; depois comeou a rir:
-        O imbecil do seu marido - disse, e continuou a rir.
-        Que , Denguinho?
-        Ele vai pensar que fez um grande negcio, comprar um carro daqueles por oito milhes. O idiota vai se sentir o mais malandro dos homens - e veio-lhe uma 
risada franca.
Sarita riu tambm, embora sem tanta vontade: - No  um plano timo?
To afirmava que sim com a cabea e quando ela perguntou se ele topava, como To ainda risse baixinho, continuou a balanar a cabea, concordando.
- Oh Denguinho, voc  meu, meu, meu - e Sarita espalhava beijinhos pelo rosto do amante, at lhe agarrar a cabea e juntar sua boca  dele, num longo beijo, misto 
de regozijo e agradecimento.
Sarita desprendeu-se do beijo e falou:
- Por favor, meu bem, eu tenho de ir!
- Mas voc est aqui h apenas uma hora - reclamou Cid.
- Pois , meu bem. Mas eu sa s para dar um mergulho. Meu marido vai almoar em casa... - Sarita ia dando as desculpas e se embrulhando no lenol. Quando sentiu 
sua nudez protegida, levantou-se rapidamente e entrou no banheiro. Pela porta entreaberta continuou falando, enquanto ele deixava-se ficar na cama, recostado nos 
travesseiros, depois de acender um cigarro.
- Eu no sabia que seu apartamento era to longe - gritou ela l de dentro.
- Longe? O Flamengo  longe?
- Bem, eu pensei que voc morasse l perto de casa. Ali mesmo em Copacabana. Ou em Ipanema, sei l.
Cid tinha amassado o cigarro num cinzeiro, levantado da cama e punha a cabea pelo vo da porta do banheiro. Sarita deu um gritinho:
-        Mal-educado, chato! - ralhou ela de brincadeira. Sem tirar a cabea do vo da porta, Cid falou baixinho:
- Para vir de Copacabana at aqui e demorar um minuto s, eu concordo que  longe.
- Mas meu bem... voc no entende. Eu sa para dar um mergulho. Disse ao Edu que ia ali mesmo, em frente de casa. Sa, telefonei pra voc e j estou aqui h uma 
hora. E se ele desconfiar? A mesmo  que  pior, eu no vou poder vir mais.
-- Nem eu vou poder vender o carro a ele - ponderou Cid, imitando a voz dela.
- No brinca no - Sarita saiu do banheiro de biquini. O mesmo que ela vestira "para dar um mergulho ali em frente" e dirigiu-se  cmoda onde deixara o chapu de 
praia: -- Voc no vai fazer nenhuma trapalhada, pelo amor de Deus - pediu, enquanto ajeitava o chapu na cabea, diante do espelho: - J sabe. Meu marido vir na 
hora que eu lhe disser depois, pelo telefone. Voc vende o carro a ele por oito e promete entregar os papis no dia seguinte, para sua garantia. Depois o To passa 
aqui para pagar os outros doze. Qualquer pergunta do To, j sabe. Voc mal me conhece. O negcio foi todo combinado com sua irm, t?
- T - concordou Cid: -  a quinta vez que a gente combina isto.
-  para no dar nada errado, benzinho - disse Sarita. Deu-lhe um beijinho rpido e vestiu a sada-de-praia: - Agora me leva. Estou atrasadssima.
Cid, que j estava de calas, enfiou os ps numa sandlia e apanhou uma camisa esporte, dessas de enfiar pela cabea. Enquanto a vestia, quis saber: - E quando  
que voc volta aqui?
-        Com carro vai ser mais fcil. E o Edu, voc sabe, est sempre indo e vindo de So Paulo, a negcios. Tempo  que no vai nos faltar.
Pouco depois os dois corriam pelo asfalto da Rua So Clemente. Sarita olhava as casas de grandes jardins da velha rua de Botafogo:
- Esta rua tem casas lindas, no ? Parece um pouco com a Avenida Paulista.
- L tem mais rico dentro das casas - disse Cid, no justo momento em que o carro furava um pneu: - Merda! - exclamou o rapaz, manobrando e encostando no meio-fio.
- Ah meu deus, mais esta - queixou-se ela.
Mas Cid pensava com rapidez: - Tire o casaco - ordenou.
- Eu?
- Claro: voc. Tire o casaco e fique s de biquni. Eu abro o capo do carro e voc fica de biquini na beira da calada, olhando desconsolada para o pneu, t?
Os dois saram do carro, ela j sem a sada-de-praia. Ele abriu o cap.
- Onde  que voc vai? - perguntou ela,
- Vou ali - e apontou: - tomar uma cerveja naquele boteco. Est muito calor para mudar pneu.
- Mas...
- No se incomode. J j aparece um bonzinho pra mudar.
Cid foi para o bar, sentou-se e pediu uma cerveja. Enquanto bebia, observava. Um senhor cavalheiresco, cumprimentou Sarita e apontou o pneu. Ela mexia com a cabea, 
concordando. O senhor tirou o palet e j o rapaz de um Volkswagen parava e perguntava se ela queria ajuda. Saltou e tirou as ferramentas da mala. Outro Volkswagen 
parou tambm. Eram dois homens. Saram para ajudar. Quando acabou de virar o primeiro copo, Cid contou: agora eram seis homens mudando um pneu s. Parecia um box 
de carro de corrida. Num instante o servio ficou pronto, file no teve tempo nem de acabar a cerveja. Atirou uma nota em cima da mesa e saiu. O senhor que aparecera 
em primeiro lugar, fechava o cap e Sarita vestia de novo o casaco e abria a porta para entrar no carro. Todos os homens em volta sorriam dos agradecimentos dela 
 nem repararam a aproximao de Cid. Ele abriu a porta ao lado do volante e gritou:
-        Obrigado, amigos! - e saiu com o carro em disparada, com Sarita s gargalhadas ao seu lado.
S pararam a um quarteiro do prdio onde ela morava, na Avenida Atlntica:
- Voc  um louco, aqui estamos muito perto de casa.
- Diz logo quando vai voltar l em casa, seno eu entro na garagem do seu edifcio.
- No - ela protestou despreocupada: - Deixa de fazer charme. J disse que o Edu vai a So Paulo ainda esta semana. Antes disso ele compra o carro, depois disso 
ele vai a So Paulo... compreende.
- Compreendo. Tchau... me d um beijo - e sem que ela pudesse se esquivar, Cid prendeu-lhe a boca para mais um beijo.
Sarita descolou a boca dos lbios do marido e botando as mos em seus ombros, esticou os braos e deixou-se pender para trs, seu corpo preso ao dele pelo abrao 
apertado que ele lhe dava na cintura.
-        No  barbadssima! - ela insistiu.
- Pelo preo, claro que . Mas eu duvido muito que aquele imbecil venda um carro daqueles s por oito milhes.
- Mas ele no vende por oito milhes, querido. Ele vende por muito mais se esperar uns dias. A Tininha me falou que ele est abafadssimo. Precisa do dinheiro j, 
por isso  que  barbada. Amanh ele encontra quem d mais. ..
-  - concordou o marido, largando-a e sentando no brao de uma poltrona.
- Por favor, meu Tiquinho (e j voltava a voz infantil que Sarita usava para persuadir os homens)..., por favor. Voc tem os oito milhes. V para a cidade e me 
telefone s 3. Eu vou ligar agora mesmo para Tininha, dizendo para combinar com o irmo. Ele vai ficar esperando voc em casa. Eu garanto. .. digo que voc vai l, 
digamos s 4 horas. Assim a gente no d tempo a ele para pensar.
-        T bom. Se voc acha mesmo que ele vende.. .
-        Oh que maridinho lindo - e Sarita ps-se a beijocar o marido tal como beijocara o Dr. Tedulo, a dizer carinhosamente: Meu, meu, meu...

4

SARITA, na sua nsia de ter o carro, no andou calculando direito os horrios ou talvez no tivesse contado com um atraso qualquer nas transaes iniciais. O certo
 que, por um triz, o Dr. Tedulo de Carvalho encontrava-se com o Sr. Eduardo Dantas na portaria do prdio onde morava o Sr. Cid de Almeida e isto iria complicar 
tudo. Complicar tudo ou no complicar nada, que essas embrulhadas armadas por gente gr-fina terminam sempre de maneira imprevisvel.
Mas foi mesmo espao de um minuto, se tanto. Todos os personagens desta histria estavam muito nervosos, nesse dia, querendo resolver as coisas logo de uma vez, 
por causa do elegante jantar que oferecia Mme. Amlia Caldas, presidente da CAMUDE. Campanha da Mulher Democrata, uma associao que misturava um pouco a distribuio 
de leite-em-p para crianas recm-nascidas, com a confeco de roupinhas para o Natal e a salvao do Pas. Era o cmulo da elegncia pertencer  CAMUDE e colaborar 
nas suas campanhas que iam da organizao de shows com renda total para crianas excepcionais at s manifestaes pblicas de repdio ou aplauso aos atos governamentais.
D. Amlia Caldas, dama de muitas posses e poucos afazeres, criara a associao para se divertir e acabara transformando-a, sem querer, num verdadeiro partido politico, 
intransigente e vigilante, em defesa de tudo aquilo que a boa-f de muitas das senhoras associadas acreditavam ser a Justia Social. As festas de D. Amlia Caldas 
eram - como classificara Sarita na vspera, quando convencia suas amigas a comparecerem - "a coisa mais elegantrrima do mundo".
Sim, o nervosismo que antecedia to importante evento social, deixava todos meio areos com o pensamento voltado apenas para o que aconteceria com cada um, na festa. 
Zizi, esposa do Dr. Tedulo, ia estrear um modelo de Dior exclusivo, modelo que ela trouxera de Paris justamente para uma festa como essa da Amelinha. O marido pagara, 
mas o plano dele era outro; era se mostrar com Sarita, na certa a cortej-lo todo o tempo, depois de ganhar o carro. Para Cid aquele festo era bom para "ver a safra 
disponvel" - para sermos mais verdadeiros e usarmos uma expresso do prprio, -sempre que ia a recepes onde desfilavam pelos sales as senhoras elegantes. Para 
Eduardo aquilo significava bons contatos financeiros e para Sarita... ora, Sarita s queria o carro e se pudesse iria at ao buffet de Mme. Caldas dirigindo o seu 
Fiat especial modelo esporte.
Toda essa expectativa ia quase pondo frente a frente, comprando o mesmo carro, o eminente Dr. Tedulo de Carvalho e o Sr. Eduardo Dantas. Quem tivesse se postado 
em frente ao prdio onde morava Cid teria visto Edu chegar no seu modesto carro nacional e parado bem rente ao meio-fio. Saltara, trancara o carro cuidadosamente 
e entrara. O que aconteceu no apartamento de Cid no saberia,  lgico, embora o que deve ter acontecido foi aquilo que Sarita planejou. Edu deve ter chegado, anunciado 
seu nome, e depois de recebido com cortesia, logo entrado no assunto. Depois, entregado o cheque de oito milhes e prometido voltar mais tarde para apanhar o carro.
Sim, deve ter acontecido isso, pois era o que estava combinado. E depois Edu desceu. No mesmo instante em que saa da sombra da portaria para o sol da calada, encostou 
um luxuoso Mercedes Benz atrs de seu carro. Edu devia estar pensando no excelente negcio que fizera com aquele desconhecido, aquele bbado gr-fino que se encalacrara 
nos bancos e vendia por preo to baixo um carro to alinhado; porque nem reparou no carro que manobrava atrs do seu. O chofer fardado desceu pressuroso e abriu 
a porta, mas To no desceu logo. De cabea baixa apalpou os bolsos do palet para se certificar de que trazia seu talo de cheques. S ento desceu para a calada, 
enquanto Edu engrenava o carro da frente e ganhava velocidade, afastando-se do local.
Por um triz, portanto, como ficou dito.
O Dr. Tedulo disse qualquer coisa ao motorista e este assentiu num movimento de cabea; depois entrou no prdio com um andar muito digno e sumiu. Provavelmente 
foi to bem recebido quanto o fora o seu antecessor. Cid era bastante vivo para no tocar no assunto. Disse, com certeza, que sua irm j lhe explicara do que se 
tratava: uma surpresa para um amigo, naturalmente. O Dr. Tedulo teria sorrido discretamente, enchera o cheque e entregara ao dono da casa. No, Cid por certo no 
teria dito que os dois quase se haviam encontrado ali, na sua sala. Bastava olhar para o seu visitante para perceber que tal encontro no houvera. Recebera o cheque, 
agradecera e pronto, estava tudo liqidado.
Quando o Dr. Tedulo apareceu outra vez na portaria, o chofer solcito saiu novamente do carro, abriu a porta com uma reverncia, fechando-a suavemente aps a passagem 
do patro. Rodeou o Mercedes Benz por trs e tambm embarcou no luxuoso automvel, que logo seguia na mesma direo sul que tomara o carro modesto de Edu.
Quem tivesse se postado em frente ao prdio onde morava Cid teria notado todos esses detalhes e teria imaginado como tudo devia ter acontecido. Isto, naturalmente, 
se esse observador soubesse de tudo, mas s quem sabia era, recapitulando: Sarita,  claro, Cid e To.
Ento, se tudo sara como ficara combinado, se cada um cumpriu o papel que lhe fora designado, at mesmo Eduardo, nico personagem que no conhecia toda a histria, 
por que seria que Sarita no recebeu o carro? , Sarita no recebeu o carro. Chegou na festa da elegante senhora Amlia Caldas mal contendo o seu dio contra Cid 
- o traidor.

5

Os SALES de D. Amlia Caldas - Presidente da CAMUDE - regorgitavam! O cronista mundano mais imbecil do Pas e, por isso mesmo o mais cultivado pelos gr-finos, 
j tinha dado  ilustre anfitri o ttulo de hostess 1 do ano. A "honra" levou Amelinha ao capricho. Era um festo!
Duas orquestras tocavam msica suave, para danar. Uma no salo principal, ao lado da sala de jantar onde se armara o imenso buffet, e outra no jardim, ao lado de 
uma varanda larga e de piso encerado para facilitar o arrasta-p dos danarinos. O fino da sociedade estava salpicado por toda a elegante manso: nos jardins da 
entrada ainda chegava gente em meio ao movimento de carros que manobravam na rua, pela varanda que tomava toda a frente da casa havia grupos conversando, os sales 
estavam apinhados e os que no danavam se movimentavam para o buffet, misturados aos garons atarefados, que passavam bandejas servindo usque escocs e champanha 
francesa; nos jardins, interiores, nas sacadas que davam para esses jardins, o movimento era igual ao longo da imensa rea ornamentada de plantas tropicais e que 
terminava na piscina azul, onde Amelinha mandara colocar mesinhas e cadeiras e mais um bar de emergncia.
Sarita, durante todo o trajeto entre sua casa e a manso dos Caldas no trocara uma palavra com Eduardo. O marido achou prefervel no insistir e somente quando 
saam do carro - aquela droga daquele carro do Edu - e entravam na festa, foi que ele falou mais uma vez, para dizer o que j tinha dito vrias vezes:
-        Eu no tenho culpa de que aquele bbado tenha vendido o carro. Agora v se melhora essa cara que isto no  cara de festa.
Sarita fuzilou-o com um olhar feroz, mas logo viu a presidente da CAMUDE a estender-lhe a mo e abriu um largo sorriso para ela. O casal cumprimentou em volta e 
encaminhou-se para o salo, onde Eduardo deu de cara com um figuro e saiu conversando com ele em direo oposta quela que Sarita tomou, disposta a encontrar Cid 
e saber porque o cretino tinha vendido o carro para outra pessoa, depois de tudo que combinara. Mas foi Sarita descer uma escadinha e sair para os jardins internos 
e logo aparecer To, de copo na mo:
-        Que tal? - ele perguntou, com um sorriso que pensava ser discreto.
Parou na frente dela e ficou aguardando o cumprimento que no veio. Sarita olhava-o com um ar que o deixou apreensivo:
-        O que foi que houve?
-        To, eu sinto muito, mas no estou in the mood para gozaes - e dizendo isto Sarita deu-lhe as costas e continuou a caminhar, sorrindo aqui, sorrindo ali, 
cumprimentando os conhecidos.
O Dr. Tedulo de Carvalho, ilustre cirurgio plstico, que j tinha consertado a cara de tantas damas presentes, no pde evitar para si a cara mais desconsertada. 
Ele no compreendia aquilo. Pois no fora  casa do rapaz, no dera os 12 milhes suplementares para a compra do carro? O que  que Sarita queria mais? Esta resposta 
ele no a teria ali. Era um homem muito prtico, o Dr. Tedulo. Aquele era um problema que s poderia solucionar no dia seguinte e tratou logo de transferi-lo para 
as prximas 24 horas. Estava ainda parado a pensar nisto, quando passou Dodora, jovem, bonita e sapeca, filha do Ministro das Relaes Exteriores.
- Oi - disse Dodora.
- Oi - respondeu Tedulo. E saiu atrs dela.
Sarita, por sua vez, continuava procurando Cid. Ia passando por uma das sacadinhas dos sales que se debruavam para aqueles jardins, quando ouviu-lhe a voz:
-        Ol. Lembra-se de mim?
Sarita olhou para ele e teve at vontade de chorar de dio. Mas conteve-se. Cid segurava uma taa na mo direita e uma garrafa de champanha na outra mo. Comeou 
a encher a taa vagarosamente.
-        Eu preciso falar com o senhor - disse ela.
-        Pois fala, meu bem. Sobe aqui que eu divido o meu champanha com voc.  Veuve Cliquot safra antiga, a nica viva velha que me faz bem.
- Como  que se sobe a? - quis saber Sarita, sem achar a mnima graa no que ele dizia.
-        Tem uma escadinha a do lado - e no momento em que dizia estas palavras, Cid viu um garom se aproximar da sacada com uma bandeja cheia de copos e uma garrafa: 
- Hei... - exclamou: - Vamos fazer uma troca. Fique com esta garrafa vazia e me d essa cheia e mais uma taa aqui para madame - e foi logo trocando as garrafas 
e apanhando uma taa, debruando-se na grade da sacada.
Virou-se para dentro, onde j se encontrava Sarita e pondo-lhe a segunda taa na mo, ordenou, enquanto a servia:
-        Vamos beber juntos o sangue da viva.
Sarita deu um golinho elegante e depositou a taa sobre a mesa onde um conjunto de flores rodeava a vela acesa, ao centro:
-        Voc sempre foi cnico assim? - ela quis saber.
-        Eu, cnico? Eu sou um tmido, minha filha - e Cid bebeu todo o champanha que restava em sua taa.
- Cid - Sarita fez uma pausa: - Como pde voc ser to mesquinho para ter uma aventura comigo?
-        Epa - interrompeu ele: - No estou entendendo patavina. Tome o seu champanha primeiro e me explique.
Ela aceitou o conselho, virou a taa e, enquanto ele a enchia outra vez, perguntou:
- Por que voc vendeu o carro a outra pessoa?
- Eu? - Cid no parava de beber e se intrigar: - Mas eu no vendi para outra. Vendi ao seu marido. Eu no conheo seu marido direito, mas tenho certeza que era ele.
- Para meu marido? Para o Edu?
- Claro, file foi l em casa, disse quem era, pagou o que combinamos e saiu. Quase se encontrou com aquele mdico besta. Depois veio o mdico, pagou o resto e tambm 
saiu. ..
- Mas no  possvel.
- Como que no? Foi seu marido mesmo que marcou a entrega do carro para as seis horas. s seis da tarde ele passou l de novo e levou o carro.
- Cid - Sarita quase gritou o nome dele: - Meu marido chegou em casa dizendo que no fez o negcio.
- Hem?
- Que voc tinha vendido o carro para outra.
- Puxa, espera a - Cid bebeu mais uma taa de champanha, Sarita idem e, de repente ele pulou na cadeira: - Achei!!!
Sarita olhava-o atnita.
-  bvio que achei - e deu uma gargalhada: - Voc no est entendendo? Bem que seu marido me pediu para que a nossa transao fosse secreta, para no complicar 
o Imposto de Renda dele.
- Mas isto no tem nada a ver com a entrega do carro - ponderou ela.
- Sei, mas raciocina, criatura: seu marido me disse essa coisa do imposto. Eu, por mim, achei timo, mesmo porque ainda ia receber mais doze milhes e a Delegacia 
do Imposto de Renda no precisava saber disso. Mas agora  que eu vejo. Ele pediu segredo porque comprou o carro e deu pra outra.
- Que outra?
- Eu sei l? S pode ser a amante dele.
Cid caiu na gargalhada, desta vez com mais vontade. Ria, bebia e explicava:
-        Ora, meu amor... seu marido passou a perna em vocs dois. Deu o carro de presente para a pequena dele e obrigou o amante da mulher a pagar - riu mais, serviu-se 
de mais champanha: - E o pior  que aquele mdico imbecil no vai poder nem chiar - e apontando para Sarita, com lgrimas nos olhos de tanto rir: - Nem voc... voc 
tambm no tem como estrilhar!
Sarita bebeu mais champanha, estava a esttua da sem graa. Piscou muito os olhos e acabou sorrindo tambm.
-  o jeito, meu bem - Cid incentivava: - Agora s resta achar graa.
- Mas ser mesmo? Acho que voc tem razo. O pamonha do Edu tem uma amante. Ele deu o carro pra ela.
- Claro que deu - e rindo perguntou: - Ele disse para quem eu vendi o carro? Ao menos assim voc fica sabendo quem  a amante dele.
- Disse sim... espera a.  uma lambisgia de So Paulo. Mas  lgico. Por isso Edu vai tanto a So Paulo. Nesta altura j deve ter mandado o carro para ela.
- Mas ela quem?
- Ele disse o nome. Espera a... Jandira. Jandira Mendes Prates. Uma que chamam de Jan.
Cid parou de rir: - Jan??? - seu rosto empalideceu.
-        Voc conhece? Deve conhecer. Voc  de l. -- Jan  a minha noiva!
-        O qu??? - Sarita primeiro teve um leve frouxo de riso. Depois riu com mais vontade. Acabou dando a mais sincera gargalhada. Servia-se do champanha e ria.
Cid deixou que ela colocasse mais da bebida em sua taa. Seu riso foi aumentando aos poucos at voltar ao que tinha sido antes.
E os dois ficaram ali uma poro de tempo, rindo, rindo!

A Noiva do Catete

1

Ali ESTAVA a velha Rua do Catete, e estava como sempre fora, to cosmopolita e to carioca, a conservar ainda alguns sobrades de outrora, que resistem hericos 
 fria imobiliria; velhos sobrades sombrios das penses famosas que abrigam tantos estudantes pobres; rapazes vindos do interior sonhando um dia serem mdicos, 
advogados, que chegavam s vsperas do ano letivo sobraando livros e cadernos - uma velha mala, em busca de um quarto e, s vezes, nem isto, mas uma cama na "repblica" 
de estudantes, o quarto grande do fundo do corredor, onde se instalavam os futuros doutores de menores posses, contentados com uma simples vaga; esperanosos talvez 
de# que a promiscuidade se transformasse em calor humano, em espantalho da solido, e as amizades se solidificassem para o bem comum, pois todos chegavam com o travo 
da saudade, a saudade de casa, o carinho, sua cama verdadeira, a comida, certa poltrona, os cheiros domsticos dos lenis, do banho, do feijo, e ento se esforavam 
por fazer do velho sobrado o seu lar - um estranho lar onde s se abrigavam filhos.
Ali estavam os sobrades de outrora, uns poucos, ladeados pelos edifcios altos, onde mora uma gente que no se conhece e quando sai de casa se mistura ao movimento 
da velha Rua do Catete, com seu comrcio imenso onde se acha de um tudo e  s procurar nas mercearias gigantescas ou nas humildes quitandas, ou nas padarias, vidrarias, 
bancos, farmcias, armarinhos, tapearias, colchoarias, decoradoras, sapatarias, alfaiates, confeitarias, barbearias, modistas, a Camisaria Vulco, os aougues que 
se confundem no talho - Ao Talho Nacional, Ao Talho Central - os hotis modestos: Flrida, Imperial, Atlas, Carioca e h muito tempo o elegante Hotel dos Estrangeiros, 
na Praa Jos de Alencar, onde a rua termina e onde terminou Pinheiro Machado, que  porta desse hotel cometeram dois crimes estpidos; primeiro o assassinato de 
eminente poltico, depois o assassinato da belssima rvore que fazia frente ao prdio e que foi com ele, solidria na sua demolio; e mais as tradicionais casas 
de mveis A Sublime, A Vitoriosa, A Mobiliria, A Renascena, A Alvorada, A Bela Aurora, A Belas Artes, A Nova Era, A Bela Vista, A Esttica do Catete, A Felicidade 
do Catete, e os restaurantes e bares de nomes estranhos como Ao Forte Lusitano, Flor do Catete, Flor da Glria, Petisqueira do Catete, Raviolilndia, Primavera de 
Espanha, Bali Hai, Arapongas, Flamenguinho, Petunia, Twist, Ponto Acadmico e o lendrio Lamas cujas portas - diziam - no se cerravam nunca e durante a dcada de 
30 abrigou toda uma estranha fauna de bomios autnticos e tericos, bbados contumazes e bissextos, prostitutas e artistas, estudantes de dinheiro contado para 
a mdia e po-com-manteiga, po canoa, manteiga dupla, torradas de Petrpolis; e gr-finos desgarrados que comiam o mais honesto bife-com-fritas, prato que os garons 
chamavam de "um com elas", gr-finos com quem implicava o ento obscuro jornalista Rubem Braga - hoje o sabi da crnica - que, antes de voltar ao seu quarto na 
penso onde tambm moravam Graciliano Ramos e Lcio Rangel, costumava provocar e, citando Raimundo Correia, criticava o seu alarido de gente rica, berrando-lhes 
o verso "so os fidalgos que voltam da caada"; ali estava a velha Rua do Catete como sempre fora, abrigando os fotgrafos do Largo do Machado, fiis intrpretes 
do suplantado estilo lambe-lambe e que mantm estdios modestos no correr da rua, exibindo na porta, para os transeuntes, as caras de uma freguesia feia e triste, 
se excetuarmos as belas mulatas, freqentadoras do largo e das gafieiras do bairro, que sempre tiraram fotografias de um romantismo gaiato, ora cheirando uma flor 
de haste enorme, ora segurando na altura do peito um corao recheado de paina ou de capim cheiroso e estufado em pungente veludo vermelho; um retrato que depois 
a mulata d ao seu amado, nas noites dessas mesmas gafieiras pelas quais passou com sua bossa de sambista o pianista Sinh, que j se foi mas deixou as mulatas, 
pois o que seria dos estudantes de todos os tempos se no houvesse a domstica do bairro para namorar nos cantinhos escuros da rua que ali estava como sempre fora?
Como sempre fora, comeando no Largo da Glria, atravessando o Largo do Machado e terminando na Praa Jos de Alencar, mas contendo em seu curso dois cinemas - o 
So Lus, que j foi o maior de todos, e o Asteca, que sempre foi o mais feio de todos - um teatro, o Teatro do Rio, uma igreja, a de Santo Antnio Maria Zacarias, 
ladeando o colgio dos padres Barnabitas; a velha Faculdade de Direito por onde passou tanta gente ilustre; contendo at um palcio, o das guias, que  hoje o Museu 
Histrico da Repblica, porm muito menos histrico do que a prpria rua, por onde passaram atrs de estridentes sirenas os carros de tantos presidentes desta Repblica; 
por onde passou pela ltima vez como presidente, tendo ao seu lado o Cardeal, o orgulhoso Washington Luis, depois que reconsiderou a sua disposio de s sair morto 
do Palcio; por onde passou pela ltima vez para o mundo o Getlio Vargas que l morreu.
Sim, ali estava a velha Rua do Catete como sempre fora e, naquela radiosa manh do vero de 1966, as pessoas caminhavam mais lentamente, por causa do calor. Um senhor 
gorducho parou em frente ao edifcio e protegeu-se na sombra da marquise, passando um leno pelo rosto suado. Nesse edifcio, onde se esprimiam 15 apartamentos por 
andar, a inquilina do 514, acordava para o seu dia. Luci Maria Simes. 24 anos. Solteira. Branca. Cabelos e olhos castanhos. Sinais particulares: nenhum. Carioca 
e bonitinha.

2

O RAIO de sol tinha vencido a persiana de tiras plsticas da janela que dava para a rea interna do prdio e viera se deter no cho do apartamento. O vento da manh 
balanou a persiana; o raio sumiu e tornou a aparecer no mesmo lugar, o que despertou a ateno do gato. Era como se a pequena circunferncia de luz que o raio projetava 
no cho, tivesse se mexido. O gato levantou-se atento, caminhou alguns passos devagar, pronto para dar o bote e ficou em seguida parado e quieto, examinando a bola 
de luz. Depois desistiu de caar o que quer que aquilo fosse, deu um miado enfastiado e ps-se a caminhar novamente em direo  cama. Deu um pulo calculado e foi 
cair sobre o lenol amarfanhado que cobria Luci.
A moa despertou devagar, espreguiando-se longamente. Segurou o gato pela barriga, levantou-o no ar e deu-lhe um beijo no focinho. O gato miou novamente, no momento 
justo em que o despertador comeou a tocar. Luci esticou o brao em direo  mesinha de cabeceira e agarrou o relgio, desligando a trava do despertador. Colocou 
o objeto no lugar em que estava antes e como o gato miasse de novo, puxou o lenol e levantou-se:
-        T com fome, neguinho? Eu vou te dar o leite. Vem!
As pernas vergaram-se para enfiar as chinelas japonesas e Luci caminhou at  porta da cozinha. No era preciso dar mais do que trs passos para chegar ali, Luci 
abriu a porta e o gato correu entre suas pernas, entrando na frente, de rabo levantado, contente com a perspectiva de ganhar seu leite. Luci resmungou:
-        Esganado! - e entrou atrs dele no pequeno compartimento, atravancado pelo fogo de duas bocas, uma geladeira grande demais para o local e um armrio de 
pintura desbotada. Por cima duas prateleiras corriam por toda volta da parede, cheias de latas, pacotes e garrafas, em meio aos mais variados objetos: um ferro eltrico, 
um secador de cabelo que estava enguiado, um liquidificador, uma forma de bolo, uma coqueteleira amassada de um lado, um abajur sem lmpada, uma caixa de sapatos 
cheia de pregos, parafusos, um alicate e um martelo.
Luci abriu a geladeira e retirou uma garrafa de leite cheia pela metade, derramou numa tigela at  borda e guardou a garrafa, tornando a fechar a geladeira. O gato, 
satisfeito, ps a lngua cor-de-rosa de fora e comeou a fazer o seu desjejum com estardalhao.
-        Devagar, Pele... leite muito gelado faz mal.
O gato no lhe deu a menor ateno e Luci voltou ao quarto para levantar a persiana, inundando de luz o seu modesto aposento e tornando mais  mostra a sua figura 
grotesca, com aqueles rolos todos no cabelo, o rosto inchado de dormir, marcado ainda pelo travesseiro; um rosto luzidio do creme que ela passava para refrescar 
a pele, todas as noites, antes de se deitar.
Ligou o radiozinho transistor e entrou no banheiro, sem o menor cuidado de fechar a porta. Dizem que esta  a nica vantagem dos solitrios: podem ir ao banheiro 
sem fechar a porta.
Para os homens Luci morava com a tia mas na verdade at j se acostumara  solido. A tia era necessria para sua prpria defesa. Dizia que morava com a tia e assim 
eles sentiam um certo recato, nunca iam procur-la no apartamento. Se algum queria falar com ela que ligasse para o 511, onde morava D. Ernestina, viva de um funcionrio 
dos Correios, uma velha muito boazinha, que tinha telefone e no se incomodava de guardar recado para qualquer morador do quinto andar, onde todos a queriam bem 
e todos lhe puxavam o saco, dando-lhe, de vez em quando, pequenos presentes - um pacote de talharim, frutas, uma lata de conservas e guloseimas diversas, desde bombom 
Sonho de Valsa at marmelada Colombo, que D. Ernestina era gulosa e, no dizer de Luci, "a salvao da lavoura". S ela tinha telefone, no quinto andar.
D. Ernestina no era tia de Luci, mas no se importava de ficar sendo. Luci um dia explicou que, para pessoas de cerimnia que ela sabia incapazes de abusar do telefone 
da vizinha, dava o nmero como se fosse seu e acrescentava: encabulada de dizer que era o telefone de uma vizinha:
- Se eu no estiver, deixe recado com Titia!
Mas na verdade - eu repito - Luci no tinha tia nenhuma. Ou se tinha, nem ela mesmo sabia por onde andava. Luci era sozinha e inventara a tia com certos requintes. 
Tinha at uma fotografia da velha num porta-retratos, em cima da cmoda. Um dia seu Almeida deixara umas revistas estrangeiras para ela folhear. Era um hbito seu: 
sempre que precisava ir embora mais cedo, seu Almeida - talvez apiedado da solido em que a amante vivia - trazia um livro da Coleo de Ouro (Luci gostava muito 
de Perry Mason - o advogado invencvel) ou ento uma dessas revistas de foto-novelas. Naquele dia tinha ganho umas revistas estrangeiras e levara para Luci. E ela 
encontrou sua tia no Post. Apanhara a revista e estava folheando, vendo as caricaturas, as fotografias, porque no falava ingls, e deu com o retrato daquela velhinha 
simptica, na contracapa, fazendo anncio de um aparelho de ar refrigerado. Recortou a fotografia, passou a ferro para ficar bem esticadinha e colocou no porta-retrato.
Durante uns dois ou trs dias meditou sobre os prs e contras que poderia lhe causar aquela parenta, mas a velhinha sorria sempre to alegre para ela que acabou 
resolvendo deix-la ali onde estava, em cima da cmoda.
Tal era a tia de Luci, uma velhinha corada e satisfeita, que ningum desconfiava j ter feito anncio para o Saturday Evening Post, uma revista muito apreciada pelas 
senhoras americanas da classe mdia. Houve um tempo em que a sobrinha brincou de imaginar como era sua tia. Embora j tivesse se chateado dessa brincadeira ficara 
estabelecido que a tia se chamava Elena - o nome de sua falecida me - era muito catlica, viva, gostava muito de jogar biriba baratinho com as amigas, tinha 61 
anos (no comeo teve 64, mas depois Luci diminuiu um pouquinho), era severa mas fazia as suas vontades e poderia chegar a qualquer momento. Quanto  voz de tia Elena, 
era a de D. Ernestina do 511, quando atendia o telefone.

3

Luci SAIU do banheiro e ps uma panela no fogo para fazer caf; voltou da cozinha, entrou outra vez no banheiro e passou um leno sobre os cabelos, dando um n na 
nuca. Escovou os dentes, bochechou com gua e cuspiu na pia. Guardou a escova no armarinho e examinou os dentes escovados no espelho. Cantarolando o bolero que o 
rdio tocava, ensaboou as mos e depois, baixando a cabea, passou a espuma no rosto para limpar os restos da pintura e do creme.
Pouco depois estava na cozinha, coando o caf. O cheiro da bebida espalhou-se pelo apartamento. Luci trouxe o bule at  mesinha da saleta de entrada, apanhou uma 
xcara e derramou o lquido escuro e quente. Voltou  cozinha e tirou a manteigueira da geladeira e trouxe para a saleta, pondo-a em cima da mesa. Deu a volta e 
foi buscar em cima da cmoda uma chave com a qual abriu uma gaveta de onde tirou uma lata de biscoitos.
Sentou-se  mesa e dedicou-se vagarosamente a passar manteiga numa bolacha que tirou da lata. Quando acabou a operao, colocou a ponta da faca sobre a manteigueira, 
para no sujar a toalha, e deu uma dentada, sem vontade, na beira da bolacha. Apanhou a xcara e deu um gole cauteloso, com medo de que o caf estivesse quente demais. 
No estava: deu um gole maior.
O rdio anunciou:
-        E agora passamos ao nosso informativo internacional...
Luci levantou-se e trouxe o rdio para a mesa:
-        ...sob o alto patrocnio do Banco...
Luci virou o boto. Uma valsa. Achou, que servia e deixou nessa estao. Olhou para a bolacha, deu mais uma dentadinha e tomou novo gole de caf; outra dentadinha, 
outro gole.
Acabou o caf, mas no acabou a bolacha. Jogou-a no prato e levantou-se. Olhou em volta e viu o mao de cigarros na mesinha de cabeceira. Foi at l e acendeu um. 
Sumiu depois pela porta da cozinha. Voltou com uma bandeja. Botou tudo que estava em cima da mesa dentro da bandeja, menos o rdio. Na passagem para a cozinha, depositou 
 lata com as bolachas em cima da cmoda. Foi lavar a loua, que deixou emborcada sobre a pia e retornou ao quarto. Apanhou a caixa de fsforos e foi pro banheiro. 
Acendeu o gs do aquecedor e abriu a bica do chuveiro, enfiando a mo pela cortina de plstico. Tirou a camisa transparente do baby-doll Com todo o cuidado, para 
no prender uma ala nos bobs do cabelo e, botando uma touca impermevel por cima do leno que trazia preso na cabea, tirou a calcinha e abrindo a cortina entrou 
na banheira, para debaixo do chuveiro.
Saiu do banheiro enrolada numa toalha. J estava enxuta e vinha em busca de outro cigarro, que tirou do mao e botou na bca. Lembrou-se que a caixa de fsforos 
ficara no banheiro e retornou para apanh-la. J no quarto, debruou-se na janela e olhou para cima, em busca da nesga de cu que lhe fornecia diariamente a previso 
do tempo. No confiava nas informaes do Servio de Meteorologia transmitidas pelo rdio. Preferia conferir pessoalmente. O pedao de cu estava azul, o tempo devia 
estar firme.
Mais uma vez no banheiro, retirou o leno da cabea e comeou a retirar os bobs, fazendo caretas no espelho, sempre que um deles ficava preso aos cabelos e era obrigada 
a pux-lo. Quando os cabelos ficaram totalmente livres daqueles incmodos canudos, abriu a porta do armrio e tirou uma escova para alisar a cabeleira.
Quinze minutos depois abriu a porta do guarda-roupa, escolheu um vestido e atirou-o sobre a cama. O gato pulou para cima da cama tambm e pisou no vestido. Luci 
espantou-o com uma recomendao taxativa:
- No enche, t?
Virou-se e ficou nua. Jogou a toalha em cima de uma cadeira e apanhou soutien e calcinha, dentro do guarda-roupa. Vestiu as duas peas e enfiou as pernas dentro 
do vestido, abotoando-o de costas para o espelho, para verificar se no pulava um boto. No pulou.
Quem pulou foi o gato, outra vez para cima da cama. Mas ela no se incomodou. Foi ao banheiro, estendeu a toalha e pegando o batom na cmoda, pintou os lbios cuidadosamente, 
em frente ao espelho do guarda-roupa. Depois fechou a porta, arrumou a cama, colocou alguns objetos nos seus devidos lugares, inclusive o rdio que continuava tocando 
- agora era um samba - na mesinha ao lado da poltrona, onde se sentou e olhou para o relgio na mesinha de cabeceira: eram 10 e meia.
Ouviu msica, aproveitou para lixar uma unha que estava querendo lascar, olhou pro teto duas vezes e para o relgio umas cinco ou seis.
s 11 horas e 45 minutos a campainha tocou.

4

OL! - SAUDOU o rapaz, postado em frente  porta que Luci escancarou, depois de verificar pelo olho mgico quem apertara a campainha.
-        Ol! - respondeu ela.
O rapaz esticou o pescoo e fingiu que examinava o interior do apartamento:
-        Tia  vista?
-        Tia apagada temporariamente - respondeu Luci, sorrindo e puxando o rapaz pelo brao, para que entrasse.
Ele entrou, fechou a porta atrs de si e enlaando Luci pela cintura,,beijou-a longamente na boca.
-        Bom?
-        Hum-hum!
Sua murmurada resposta foi selada com outro beijo, mais violento.
Era um rapaz robusto, bem vestido, de uns 30 anos aparentes. Pelo olhar que deu em torno, fazendo um reconhecimento do local, via-se que nunca estivera antes no 
apartamento de Luci. Pela cerimnia com que tirou o palet, perguntando antes se podia, notava-se que era a primeira vez que os dois se entregavam a intimidades 
amorosas.
Ela ofereceu-lhe a nica poltrona do apartamento e ele sentou-se pesadamente, afrouxando o colarinho e o lao da gravata. Depois puxou-a para o colo e tornou a beij-la. 
Luci enfiou os dedos pelos seus cabelos e ps-se a brincar com eles, com gestos sensuais. O rapaz encostou seu rosto ao dela e esfregava o nariz em sua orelha; e 
assim ficaram algum tempo, at que ele perguntou:
-        Quem  esse cara?
Luci no parou de afagar-lhe os cabelos e com voz sussurrante, perguntou:
-        Que cara?
-        Esse que est me olhando ali do tapete, com cara de mau.  seu namorado?
-        No tenho namorado. Esse a  o meu gato.
O rapaz comeou a desabotoar as costas do vestido, devagar, mas com mos firmes, enquanto ela tomava a iniciativa de um novo beijo. Quando j no havia mais botes 
para desabotoar, mesmo de boca colada na dela, alisou-lhe as costas e forou o vestido a cair, resvalando no ombro; a mo correu em sentido contrrio e o vestido 
desprendeu-se do outro ombro, caindo sobre os seios que Luci apertava contra o peito dele. Ela afastou-se um pouco, livrou os braos de entre as alas e ficou somente 
de soutien, da cintura para cima.
- Com pressa? - perguntou, dando um beijinho no nariz do rapaz.
-        No - e aproveitou que ela deitava a cabea em seu ombro, para fazer ccegas em sua nuca. Ela mexeu o pescoo numa sensao de volpia, enquanto o rapaz 
queixava-se:
-        Por que  que naquele dia voc no quis?
- No sei. No estava com vontade... eu acho.
- Pois eu estava!
- Eu tambm talvez estivesse - e esfregou seu nariz no dele.
- Ento pra que perdemos tanto tempo?
- Sei l... era a primeira vez que eu te via.
- Voc no  do tipo "o que ele vai pensar de mim".
- Graas a Deus... - e entregou-se  tarefa de dar pequenos beijos nos olhos do rapaz, ora num, ora noutro, deixando que ele a libertasse do soutien. 
- Vrias vezes ele tentou desabotoar com uma das mos e sem jeito para conseguir seu intento, apertou-a mais contra si e desprendeu o soutien com a ajuda da outra 
mo.
Vagarosamente, como acontecera com o vestido, o soutien resvalou pelos ombros macios e torneados de Luci, caindo-lhe sobre o colo. Trocaram outro beijo longo e ele 
disse baixinho, como se estivesse segredando:
- Quando recebi seu telefonema ontem me espantei. Pensei que voc j nem se lembrasse mais de mim.
- Fiz mal em ligar?
- Claro que no. Eu no esperava, s isso. Eu liguei duas ou trs vezes para voc, deixei recado com sua tia e voc nem me deu bola.
- Mas agora me deu vontade - e cruzando violentamente os braos em volta do pescoo dele, beijou-o mais uma vez.
Depois ela levantou-se e o vestido caiu-lhe aos ps, mas o soutien ela fez voltar aos seios e ficou sustentando com a mo esquerda espalmada sobre ele, num recato 
que excitou o rapaz.
Luci apanhou o vestido no cho, sacudiu-o e estendeu numa cadeira, enquanto ele parecia tomar uma deciso repentina. Levantou-se e pediu:
- Puxa! Eu estive na cidade desde cedo. Fazia um calor infernal. Ser que eu no podia tomar uma chuveirada?
- Claro que pode. Deixa eu apanhar uma toalha.
E, enquanto ela abria o armrio e tirava uma toalha, ele acabava de tirar a gravata e comeava a tirar a camisa. Luci jogou-lhe a toalha e o rapaz colocou-a sobre 
os ombros, acabando de se livrar da camisa. Depois dirigiu-se para a porta da cozinha.
- A outra porta, meu bem - e Luci caminhou atrs dele, para abrir a porta, que ele transps dando-lhe um beijo roubado, na passagem.
- Basta puxar a alavanca grande, o bico de gs est aceso.
- Eu quero  um banho frio.
Luci deixou-o no banheiro e caminhou at  janela, puxando a persiana e deixando o quarto/envolto na penumbra. Tirou os sapatos e deitou-se na cama, fechou os olhos 
e fingiu cochilar. Antes, pegou o gato, botou na cozinha e trancou.
Pouco depois o rapaz retornava do banheiro. Parou no meio do quarto enrolado na toalha. Gotas de gua rolavam entre os cabelos de seu peito. Era um belo animal, 
sadio e forte. Notava-se que era bem educado e bem tratado. Seus dentes brancos apareceram, quando sorriu ao notar que a moa estava de olhos fechados, estirada 
na cama, apenas de calcinhas. Caminhou rpido para a cama, deitou-se e abraou-a praticamente num mesmo movimento.
-        Ai! - gemeu Luci abrindo os olhos. - Voc est frio.
- E voc est na chamada temperatura ideal - beijou-a.
- Ideal pra qu?
- Pra tudo.
- Bobo.
- Vamos fazer uma troca, t?
- Qual?
- Eu te dou esta toalha e voc me d sua calcinha de presente, hem?
- Tem certeza que no sai perdendo?
- Juro! - e dizendo isto desvencilhou-se da toalha, enquanto Luci levantava as pernas e puxava as calcinhas para cima, at a altura dos joelhos. No pde continuar. 
Ele j atirava a toalha longe e puxava-lhe as calas com fora, deixando-a completamente nua. Fincou o cotovelo esquerdo na cama e debruou-se sobre Luci.

5

Os DOIS FICARAM ali deitados, o rapaz com um brao sobre o ombro dela, durante um tempo indefinido para ambos. Quando o rapaz falou, Luci estava de olhos fechados, 
inteiramente ausente, pensando nas coisas que teria de fazer, quando se levantasse da cama; fazer umas compras, telefonar para o noivo, saber se ele estava melhor, 
pagar a conta de luz e gs...
- Meu bem, eu tenho de ir.
Luci mexeu-se na cama, o rapaz apanhou a toalha, levantou-se e enrolou-a na cintura. Voltou a sentar-se na beira da cama:
- Tenho uma poro de coisas para fazer.
-        Eu tambm - disse ela. Enrolou-se num lenol e correu para o banheiro: - J, j eu saio.
O rapaz tambm caminhou para a porta: - Por que no juntos?
-        Demora mais - respondeu Luci. Passou a mo pelo rosto dele e trancou a porta, deixando-o meio sem jeito.
Quando os dois j estavam vestidos, notava-se que a pressa dele em deix-la era maior do que a dela em livrar-se dele. O rapaz gaguejou umas desculpas, atraso de 
hora, fez ela prometer que telefonaria noutro dia e saiu. Luci. rodeou o olhar em volta, procurando alguma coisa para fazer. Lembrou-se do gato, abriu a porta da 
cozinha e ele entrou miando no quarto. Ela seguiu-o e comeou a arrumar a cama.
De repente ficou parada, com um travesseiro nos braos e um sorriso nos lbios. Ele era um belo rapaz. Conhecera-o no Museu de Arte Moderna, durante uma exposio. 
Cismara com ele. Luci pensou de novo, como a examinar seu pensamento anterior. Era isso mesmo: cismara com ele. Conversaram um pouco, trocaram-se os respectivos 
nmeros de telefone. Fora h uma semana. Ligou ontem, marcou o encontro. Sorriu de novo; no telefonaria mais para ele, nem atenderia seus telefonemas. Era melhor 
assim.
Abriu uma bolsa, examinou para se certificar se o dinheiro estava dentro. Contou a importncia por alto e desceu para as compras. Mal saiu do edifcio foi envolvida 
pelo burburinho e o movimento da Rua do Catete.
Caminhou meia quadra e parou para olhar as bugigangas que um camel expunha num tabuleiro: pentes de fabricao ordinria, porta-retratos, saca-rolhas, correias 
de relgio. O homem olhou com solicitude para ela:
- Alguma coisa, madama?
Luci apontou para um monte de armadores de plstico para colarinho. Havia vrios pequenos feixes, envoltos em elstico. O camel apanhou trs, mas ela s queria 
um montinho, que pagou e enfiou na bolsa. Continuou a caminhar, contente com a sua compra. No gostava que Carlinhos - seu noivo - tivesse um ar de desleixado. No 
que o rapaz relaxasse. Pelo contrrio: Carlinhos vestia-se de forma a tornar agradvel sua aparncia. No era desses homens fteis que s se preocupam com a roupa, 
mas tambm no era nenhuma mondrongo o que, de resto, no lhe cairia bem. Um corretor de seguros no deve ser displicente e sim impressionar favoravelmente queles 
com quem trata de negcios. Luci gostava de Carlinhos do jeito que ele era, amava-o com toda a sinceridade que uma mulher do seu feitio pode reunir; tinha por ele 
um carinho quase maternal, pois Carlinhos era o seu futuro e se considerava o futuro dele.
Apertava na mo a bolsa com as pequenas hastes de matria plstica e lembrava-se da vspera, quando ela o repreendera pelo seu colarinho mal posto e ele se queixar 
de que sempre se esquecia de retirar os armadores, quando mandava as camisas para a lavadeira.
Caminhou at ao fim da quadra e entrou num botequim, onde um homem gordo e luzidio, por trs do balco, saudou-a com simpatia:
-        Bom dia, freguesa!
Ela respondeu  saudao e encaminhou-se para o canto onde estava o telefone pblico. O homem j sabia o que ela queria e entregou-lhe um mao de cigarros e uma 
ficha de telefone, enquanto ela se atrapalhava para abrir a bolsa ao mesmo tempo que segurava o fone.
Ligou para a penso da Rua das Laranjeiras, onde morava Carlinhos:
- Al, D. Romilda?  Luci... O Carlinhos j chegou para o almoo? Como?
A dona da penso dizia que o Carlinhos chegara e estava na cama. Era melhor que no viesse atender. Estava muito gripado e com febre alta.
-        Mas como  que foi acontecer isso? - preocupava-se Luci, exigindo detalhes, na sua aflio.
Carlinhos tinha despertado rouco, com dor-de-garganta e muito indisposto. Saiu assim mesmo, andando de um escritrio para outro, secando o suor na refrigerao de 
cada um desses escritrios. Voltou com aquele febro. D. Romilda exagerava. Achava que ele estava com ameaa de pneumonia.
-        A senhora no devia ter deixado ele sair.
Sim, no devia. D. Romilda concordava do lado de l da linha. Mas Luci sabia como o Carlinhos era teimoso. Ela aconselhara, mas ele insistira, dizendo que tinha 
umas corretagens importantes para fazer. Enfim, agora estava deitado com o coipo todo dolorido, principalmente a cabea e a garganta. Era melhor levar l um mdico. 
Aquela febre...
Luci desligou, pediu outra ficha e imediatamente ligou para o Dr. Mauricio. Era um mdico muito bom, seu amigo, H um ano atrs tivera um caso com ele; dormiram 
juntos duas ou trs vezes e depois Luci explicou que sua "tia" ia voltar para casa. Deu as desculpas de sempre e afastara-se dele. Contudo, sempre que necessrio, 
recorria aos seus servios profissionais. O Dr. Mauricio mexeu com ela, tentou um encontro para jantar, mas notando sua aflio, ouviu seu diagnstico sobre o Carlinhos 
e receitou-lhe os remdios.
Ela agradeceu, desligou o telefone e saiu do botequim apressada; atravessou a rua e entrou numa drogaria, quase em frente. Comprou os remdios e com o embrulho deles 
na mo, parou na calada, indecisa entre seguir imediatamente para a penso da Rua das Laranjeiras ou fazer antes as compras para o jantar com seu Almeida. Logo 
decidiu: Carlinhos precisava ser medicado; faria as compras depois.
Mandou parar um txi e seguiu para as Laranjeiras.

6

QUANTO? - PERGUNTOU D. Romilda, enquanto Luci examinava o termmetro e Carlinhos, deitado na cama e de olhos semi-cerrados pela febre, tambm se interessava pelo 
resultado do exame que Luci fazia.
-        39,9. Voc est com quase 40 graus - informou a moa, mordendo o lbio inferior, sem esconder sua preocupao.
D. Romilda tirou-lhe o termmetro da mo e guardou na caixinha de metal. Depois avisou que ia trazer a sopa.
-        Eu no quero sopa nenhuma, D. Romilda - gemeu Carlinhos.
A senhora no lhe deu ateno e retirou-se do quarto, enquanto Luci o repreendia:
-        Vai tomar a sopa sim, meu bem. Voc tomou um monte de remdios. Se ficar de estmago vazio vai enjoar na certa.
Carlinhos soltou um murmrio misto de reprovao e assentimento, enquanto ela arrumava as cobertas. Vendo-o sossegar, encostou a palma da mo na testa escaldante
com inteno de aliviar-lhe o calor. Baixou o rosto sobre o do noivo e deu-lhe um beijo no nariz.
- Que tal? - perguntou Carlinhos.
- A testa est quente, mas o focinho est mais ou menos.
- Mais ou menos como?
- Bem... eu j beijei narizes mais frios.
- De quem? - intrigou-se Carlinhos, abrindo um olho em atitude gaiata.
- De Pel. Meu gato.
E Luci abaixou-se para beij-lo outra vez, mas Carlinhos afastou o rosto:
-        Fique quieta, meu bem. Voc no sabe que o que eu tenho pega? V sentar na cadeira...
D. Romilda entrou com a sopa e Luci explodiu quase alegre:
- Deixa que eu dou.
- Eu no estou invlido - protestou o rapaz, mas em vo.
Luci deu-lhe a sopa e ficou ao seu lado mais de duas horas. Somente quando notou que o torpor da gripe prostara Carlinhos num sono pesado, decidiu-se a sair. Tirou
suavemente a mo de baixo da dele e tomou-lhe outra vez a temperatura da testa. A febre parecia ter cedido um pouco. Levantou-se e olhou mais uma vez para ele. Em
seguida deu um longo suspiro e saiu do quarto procurando fazer o menor barulho possvel.
Na sala emprenhou os ouvidos de D. Romilda com mil recomendaes, que no deixasse Carlinhos sair do quarto a no ser para ir ao banheiro, que verificasse se estava
calado antes de pisar no ladrilho, que tal remdio devia ser dado de novo s tantas horas, e mais isto e mais aquilo, de tal forma que a velha senhora, de natural
bonachona e paciente, acabou por dizer-lhe que sua experincia haveria de ajud-la a cuidar do doente melhor do que Luci.
Esta caiu em si, sorriu para a dona da penso para recaptar-lhe as simpatias e concordou que assim era. D. Romilda saberia cuidar melhor do noivo do que ela. Por
isso iria tranqila.
Mas rfao foi. Luci tinha pelo rapaz mais do que amor; uma esperana para o futuro. Sabia que o enganava, mas disto tinha um remorso vago e sofreria tanto quanto
ele, se Carlinhos um dia descobrisse suas ligaes com seu Almeida e tudo o mais. Dizia-se modelo profissional - e de fato era, mas muito esporadicamente - com isso
justificando o dinheiro razovel que seu Almeida lhe dava. Carlinhos, entretanto, era a sua razo de viver ou, mais precisamente, em Carlinhos concentrava os dias
do porvir, seu desejo de ter um filho, de constituir uma familia e de viver honestamente o resto de seus dias. Luci no colocaria a mo no fogo por si mesma, mas
era sincera em seus planos. Seu noivo estava doente e isto a preocupava.
Foi descendo a p a Rua das Laranjeiras pois era esta a teraputica que usava para dissipar suas preocupaes: cansar-se com longas caminhadas. Andava por andar,
integrada no burburinho das ruas e voltava para o seu minsculo apartamento sentindo-se mais aliviada.
Luci, no final da rua, decidiu-se por tomar a esquerda, ao invs de seguir pelo Largo do Machado, caminho natural para voltar  Rua do Catete. Queria estar um pouco
sob as rvores do Parque Guinle, outra de suas manias, porque tinha para si a certeza de que contemplar rvores frondosas e ver crianas a correr sobre o gramado
enganavam a sua solido. Por muito tempo caminhou devagar pelas alamedas do parque, deixando que sua ateno vagasse entre o admirar o vo de um pssaro ou a imponncia
de uma rvore.
Depois sentou-se num banco vazio, de pernas cruzadas, cotovelo fincado na coxa, apoiando o queixo contra a mo, para olhar a brincadeira das crianas que freqentam
o parque. Sorria dos tombos dos menorezinhos, da graa das meninas e to absorta estava que no notou a aproximao de um garotinho louro. Ele estava ao seu lado,
olhando para ela, quando Luci se deu conta de sua presena:
-        Ol! - exclamou ela, fingindo uma intimidade de velhos amigos.
-        Ol! - o menininho respondeu. Para logo emendar: Vamos tomar um sorvete?
-        tima idia. Voc tem um sorvete ai, para ns tomarmos?
O garoto ficou indeciso. No esperava a pergunta. Mas logo se refez e insinuou:
- Eu sei donde que tem:
- Onde? - indagou Luci olhando em volta.
- Ali - mostrou o garoto, apontando para um sorveteiro, com um dedinho gordo e decidido.
- Pois ento vamos l arranjar um sorvete para cada um de ns.
- Eu quero de caixinha - disse o menino, que docilmente lhe deu a mo. E mal Luci depositou-lhe a caixinha entre os dedos, o menino agradeceu e disse "at logo"
- Mas ns no vamos tomar o sorvete juntos?
- No posso. T na hora deu ir - e saiu correndo em direo a um grupo de companheiros, l longe.
Luci veio caminhando de volta para os portes do parque, tomando o seu sorvete e sorrindo do episdio. Saiu pela direita, atravessou todo o Largo do Machado pelo
lado esquerdo e entrou outra vez na velha Rua do Catete, para fazer as compras do jantar. Lembrou-se que ainda no tinha almoado:
-        "No faz mal. Em casa eu tomo caf com leite e biscoitos" - pensou, enquanto entrava numa mercearia e dirigia-se ao balco das verduras.

7

LUCI ABRIU a porta com dificuldade e empurrou-a com o p. Entrou sobraando as compras e fechou-a com a bunda e logo ps-se a ralhar com o gato que veio se roar
pelas suas pernas. Colocou os embrulhos em cima da mesa e foi ao banheiro. Saiu dali enxugando as mos num avental que em seguida amarrou na cintura e levou os embrulhos
para a cozinha. Abriu o bule com o caf da manh, pensou em esquent-lo, mas logo deu de ombros. Teria com quem jantar e sabia que ento comeria direito. Este 
um problema dos que vivem solitrios: a hora das refeies, quando comer sozinho faz mais cruel, a solido.
Luci em pouco mais de meia hora j dera as sobras de carne para o gato, j fizera uma nova arrumao no apartamento, j colocara as panelas no fogo e arranjara a
mesa para dois. Depois recostou-se na cama e leu algumas revistas com fotonovelas, enquanto vigiava  distncia as panelas. O jantar j estava pronto e ela se encontrava
outra vez no banheiro retocando a pintura, quando seu Almeida entrou e bateu palmas discretamente  entrada.
Ele tinha a chave do apartamento, sempre entrava sem avisar, mas gostava de fingir que era discreto, batendo aquelas palminhas chochas como a insinuar que no queria
surpreend-la em situao embaraosa.
-        Oi! - exclamou Luci, do banheiro: - Entra, meu bem.
Seu Almeida era um homem de uns cinqenta e poucos anos, gordo sem ser balofo, saudvel e conservando os traos de quem fora um rapaz bonito. Vestia-se com indisfarvel
esmero e tinha um ar de prosperidade. Era o tpico cavalheiro "que deve ter uma amante":
Luci saiu do banheiro e deu-lhe uma bochecha a beijar o que ele fez num gesto de rotina, sem muito entusiasmo. Depois atirou-se na poltrona e reclamou o seu cansao.
-        Trabalho demais, meu bem?
- O de sempre. Eu trouxe a gua-de-colnia que voc me pediu.
- Obrigada - e Luci foi at  cozinha, verificar as panelas. De l prosseguiu no dilogo: - Tudo bem em casa?
- Bem.
- E o garoto?
- Ah... j est bom.
Luci voltou e sentou-se nas pernas de seu Almeida. Tirou-lhe o palet e atirou-o para cima de uma cadeira. Ps-se a afrouxar sua gravata, enquanto ele brincava com
os seus cabelos. Puxou-a para si e deu-lhe um beijo na boca.
-        Ficou todo borrado de batom - avisou Luci, rindo.
-        Espera, eu vou ao banheiro - disse ele, interrompendo o gesto dela, que ia limpar-lhe o batom com a ponta do polegar.
Luci levantou-se e disse que ia at o apartamento de D. Ernestina, saber se havia algum recado para ela. Seu Almeida entrou no banheiro e fechou a porta. Luci saiu
para telefonar para a penso a ver se Carlinhos melhorara. Voltou pouco depois, contente por saber que a febre passara e - segundo D. Romilda - ele estava com fome
outra vez.
Entrou discretamente e notou, que seu Almeida se incumbira de deixar o quarto em penumbra. E l estava ele deitado na cama, com uma toalha enrolada na grossa cintura.
Fingia cochilar. Luci tirou os sapatos para deitar-se ao seu lado. Antes pegou o gato, botou na cozinha e trancou.
- Ai! Voc est frio - disse, ao abra-lo.
- Pois voc est quentinha - disse seu Almeida, com a voz rouca do desejo.
Luci sentou-se, tirou o vestido:
-        Eu sou sempre quentinha, bem. No sabia? - e mordeu-lhe o lbulo da orelha.
Seu Almeida encolheu-se de prazer.
- Vamos fazer uma troca? Props ela.
- Qual? - indagou ele, sem nenhuma sensualidade na voz. Esperando um pedido dela.
- Voc me d esta toalha e eu te dou minha calcinha, t?
Seu Almeida adorou a brincadeirinha e logo apoiou-se nas espduas para que Luci retirasse a toalha. Depois foi puxando a calcinha dela, devagar.
-        Deixa que eu tiro, bem.
Luci acabou de descer a calcinha pelas pernas e atirou-a longe, ficando completamente nua. Fincou o cotovelo esquerdo na cama e debruou-se sobre o encantado seu
Almeida.

J fazia uns quinze minutos que seu Almeida estava ali quieto, olhando para o teto, a pensar nos seus complicados negcios.
Luci, com um brao estendido sobre o seu peito cabeludo, cochilava tranqilamente, quando foi despertada pelo seu pedido:
- Vamos jantar - disse ele e mexeu-se na cama, com a inteno de levantar-se. Ela retirou o brao e passou a mo sobre o rosto. Cobriu-se com o lenol enquanto ele
apanhava a toalha, enrolava-se nela e trancava-se no banheiro.
O jantar transcorreu quase em silncio. Luci, preocupada com Carlinhos, pouco falava. Seu Almeida  que - depois de servir-se novamente de uma fatia de carne (Luci
cozinhava realmente bem) - informou:
-        J depositei sua mesada. Pode retirar quando quiser: Bebeu um gole de gua mineral, olhou para o copo:
-        Estive com meu mdico domingo, no Jquei. Ele me disse que uma cervejinha ou outra, de vez em quando, eu j posso tomar.
Terminou de comer e recostou-se na cadeira:
-        Tem algum programa bom na televiso?
No tinha, mas mesmo assim seu Almeida ligou o aparelho e sentou-se na poltrona para ver qualquer coisa. Luci trouxe-lhe o caf e mais tarde veio aninhar-se entre
ele e o brao da poltrona. Era um programa humorstico de uma graa circense e batida, mas seu Almeida assistiu-o com um sorriso nos lbios. Gostava daquelas coisas
"para descansar o esprito" como costumava dizer, todas as noites.
De repente empurrou Luci delicadamente para fora da poltrona e falou:
-- Tenho de ir. Hoje estou sem desculpa em casa.
Vestiu o palet com a ajuda dela, que o levou at  porta e entregou-lhe a mesma bochecha, perdo, minto... entregou-lhe a outra bochecha para um beijo chocho.
Depois que ele saiu Luci desligou a televiso e foi para a cozinha lavar a loua, seno d barata. Tudo lavado e posto a escorrer sobre a pia da cozinha, voltou
ao quarto, tirou o vestido e meteu-se no baby-doll, tirou os sapatos e enfiou nos ps a sandlia japonesa e foi para o banheiro mais uma vez.
Escovou os dentes, tirou a pintura, botou um a um, todos aqueles bobs enrolados nos cabelos e terminou a toilette passando no rosto o mesmo creme de sempre.
Apagou a luz do banheiro, caminhou at  cama, sentou-se nela e deu corda no despertador, colocando-o de novo nc mesmo lugar. Deu um longo bocejo, deitou-se, cobriu-se
e apagou a luz.
Antes de dormir chorou um pouco.



A Donzela da Televiso

1

PELO CORREDOR passou um padre e a bailarina que vinha em sentido contrrio deu um gritinho quando, ao cruzar com ele, levou um belisco na coxa. Os dois seguiram
seus caminhos rindo e, mal o padre sumiu na curva do corredor, apareceram do lado de l um mosqueteiro e um soldado, desses estilizados, de calo curtinho e botas
altas. O mosqueteiro agarrou o soldado pela cintura e deu-lhe um beijo na boca:
-        Tchau, querida - disse o mosqueteiro.
-        Tchau - respondeu o soldado e encaminhou-se para a porta do guarda-roupa feminino.
O mosqueteiro ainda ficou um instante indeciso sobre que rumo tomar e j outro soldado, vestido igual ao primeiro, passou pelo corredor. O mosqueteiro ficou olhando
firme para ele, mas nada fez ou disse, deixou o soldado passar, simplesmente, pois sabia que nem uma piadinha podia soltar para Zelinda - ela era a pequena do diretor.
Zelinda seguiu pelo corredor, desviou-se de um astronauta que vinha distrado, de script na mo, decorando o seu texto, e entrou no Bar da Fofoca.
O Bar da Fofoca era chamado assim tacitamente, pelos artistas da televiso, porque era ali que os casais se formavam e se separavam, era ali que uns falavam mal
dos outros, enfim, toda a vida social dos artistas, uma vida social de grande comunicabilidade, se desenrolava ali. De um modo geral os artistas so afveis uns
com os outros, mas essa afabilidade pode crescer exageradamente, dando margem a comentrios maliciosos, e pode se romper pelos motivos mais fteis, causados ora
por rivalidade profissional, ora por simples mal-entendidos. Naquele canto enfumaado e cheirando a gordura, cantoras e bailarinos, atrizes e comediantes, tcnicos
e diretores, toda a fauna que movimentava os estdios da televiso, se reunia desordenadamente, para refeies ligeiras e conversas rpidas.
Quando Zelinda entrou, sua me - D. Jupira - conversava com Pastinha, que era o encarregado de atender aos fregueses que sentavam nos tamboretes do balco. Pastinha
- mulato, magrinho e veado - acabara de anotar num caderno a despesa das duas mocinhas que haviam se levantado para sair:
- Sabias que contrataram o Carlos Celso? - uma das mocinhas havia perguntado  outra.
- Claro. J estive com ele l embaixo, quando fui apanhar meu cach.
- Faa o favor de no se assanhar muito, queridinha, que esse eu vi primeiro.
As duas deram uma risadinha assanhada e uma delas disse para o garom, enquanto se levantavam dos respectivos tamboretes:
-        Pastinha, anota a nossa despesa, meu boneco!
Elas se afastaram e Pastinha, passando um pano mido pelo balco, fez um olhar de desprezo em direo a elas e murmurou:
-        Afogueadas!
Dito o que, tornou  conversa com D. Jupira:
-        A senhora faz muito bem em acompanhar a sua filha sempre. Aqui dentro s d disso - e apontou com o lbio inferior as duas moas que j iam longe: - Se
a senhora no olha pela sua filha, no  essa gente daqui que vai tomar conta dela.
D. Jupira, muito digna, muito esticada, sentada no tamborete, balanava a cabea, aprovando as palavras do pederasta. Acabou de tomar o seu cafezinho, empurrou a
xcara mais para o meio do balco e falou:
- Eu  que sei o quanto me custou educar Zelinda, No nego que ela, trabalhando na televiso, me ajuda muito, mas uma coisa eu garanto: no dia em que eu no puder
acompanh-la aqui dentro, ela no vai trabalhar mais.
- Pastinha, me d um sanduche misto e um suco de laranja! - pediu um ator que se aboletara trs tamboretes adiante, com a cara pintada de um p avermelhado e os
olhos maquilados de maneira a dar-lhe ao rosto um ar mefistoflico.
- L vem ela - disse Pastinha, vendo Zelinda entrar no bar. E se afastou para atender ao ator.
- Est cansada, minha filha?
- No - respondeu Zelinda, sentando-se ao lado da me.
- Tome um copo de leite.
- No quero.
- Que no quer o que, minha filha. Voc precisa se alimentar para manter a forma.
- Mas Mame...
- V, tome - insistiu D. Jupira, colocando a mo sobre a mo da filha, acariciando-a.
- T bem, mame - e pediu contrariada, alteando a voz: - Pastinha, um cop de leite gelado.
- Falou com seu Ribas?
- Hum? - Zelinda no prestava ateno  pergunta de me.
-        Falou com seu Ribas? Foi  sala dele?
- Ora, mame, a senhora queria que eu fosse  sala do diretor nestes trajes?
- Que  que tem? - estranhou D. Jupira. E pondo certa malcia na voz: - Garanto que le vendo suas pernas no vai ficar nada contrariado.
- Mas lgico que eu no fui. Vou mudar de roupa primeiro. O ensaio foi de amargar.
Pastinha colocou um copo de leite diante de Zelinda e afastou-se outra vez. Enquanto a filha bebia, a me aproveitou a ausncia do garom e insistiu:
-        Eu, se fosse voc, ia assim mesmo.
Mas Zelinda no percebeu a insinuao materna. Deixou quase metade do leite no copo e respondeu:
-        Nada disso. Vou trocar de roupa primeiro.

2

ZELINDA TINHA 22 anos e era de uma beleza saudvel. Cabelos castanhos, um rosto redondo e alegre, tinha um porte que impressionava agradavelmente. Suas pernas eram 
longas e bem feitas, seus seios eram redondos e firmes, sua cintura elegante e fina. Sua inteligncia no era to longa como as pernas, nem to firme como os seios, 
nem to fina como sua cintura, mas isso no quer dizer que ela fosse burra. Era uma mocinha pouco experiente, ainda virgem, manobrada pela me e que tinha um curso 
inacabado de bal e um jeito gracioso para dizer textos de televiso.
Ribas abriu a porta de sua sala e disse, sorrindo: - Entra, neguinha!
Zelinda, com o rosto vermelho do esforo de ainda h pouco, no ensaio do programa, obedeceu e passou por ele, transpondo a porta. Seu vestido era leve e rodado, 
com um decote atrs que ia at  cintura e Ribas, ao fechar a porta, no se furtou a um olhar de admirao pela beleza de seus ombros. Caminhou atrs dela e foi 
sentar-se  sua mesa, enquanto ela atirava-se displicentemente numa poltrona, deixando as saias um palmo acima dos joelhos, ao cruzar as pernas para tomar uma posio 
que a Ribas pareceu das mais provocadoras, mas que Zelinda assumia to simplesmente que ele mesmo estava em dvida se fora por acaso.
-        Que  que voc manda, meu bem?
- Eu no mando nada - ela respoudeu: - Quem manda  voc e por isso  que eu estou aqui.
- Olha que eu mando mesmo e depois voc se arrepende.
Os dois. riram da insinuao contida nas palavras dele, mas Zelinda logo tornou-se sria e dando  voz um tom mais infantil, disse:
-        Ribas,  o meu contrato, meu bem. A mame acha que j era tempo de ser melhorado.
-        Sua me, hem?
- Mas ela tem razo, Ribinha. Para fazer o que eu fazia aqui no comeo, eu concordo que o meu ordenado era legal, mas agora eu j tenho feito muita coisa mais importante.
Tenho entrado em quase todos os programas do horrio nobre.
- U.. . mas no foi voc mesma quem me pediu para ser escalada com mais freqncia?
- Bom, foi idia de mame. Mas justamente por isso, para que eu depois pudesse pedir aumento. E eu tenho me sado bem. Voc leu o que saiu de mim na Revista do Rdio?
- No, mas calculo. Saiu sua fotografia de short, fritando ovos na cozinha de sua casa, com o ttulo: "Estrelinha da TV  uma grande cozinheira".
- Uai... se voc no leu, como  que voc sabe?
-        Adivinhei - respondeu Ribas, tomando um jeito misterioso.
- Pois , eu j no sou uma figurante e ainda ganho ordenado de figurante.
- Ganhava - afirmou Ribas, levantando-se e rodeando a mesa, para dar por encerrada a entrevista: - J no ganha mais. Voc pode procurar o Serafim na secretaria
amanh, que ele tem um novo contrato para voc assinar. Seis meses, 200 mil.
- Verdade? - seu rosto se iluminou. Pulou da cadeira e abraou Ribas no seu contentamento.
Ele deixou-se abraar, passou os braos em torno de seus ombros e depois deu-lhe um beijo na testa. Segurou seu queixo carinhosamente e pediu:
-        Agora deixa o seu amigo trabalhar que eu tenho coisas em penca para fazer.
Estava dizendo isso quando a porta abriu e uma pessoa ia entrando. Era Cardoso, Jos Maria Cardoso - diretor comercial da empresa, que se limitou a dizer: - Perdo
- e ia fechar a porta outra vez.
-        Um momento, Cardoso - disse Ribas. - Pode entrar. A moa j ia saindo.
Zelinda saiu de cabea baixa e Cardoso encaminhou-se para a mesma poltrona onde ela estivera sentada, cantarolando e revirando os olhos, para gozar o amigo. Ribas
sentou-se outra vez  sua mesa, tirou um cigarro do mao que estava sobre ela e acendeu:
- No precisa ficar com essa cara de quem acabou de assistir a uma bacanal romana.
- Eu no falei nada - protestou Cardoso, mantendo o sorriso irnico.
- No falou, mas pensou. E se pensou est enganado. Ela s me abraou de alegria, pelo contrato novo. Alis, essa pequena  muito infantil.
- Muito...  to infantil que ainda no desmamou.
- Se voc est querendo se referir ao fato da me dela estar sempre ao seu lado, isto s prova que ela  uma menina direita.
- Calma, Ribinha... calma. Eu at simpatizo muito com essa menina, e at aqui achei que voc estivesse de olhos abertos.
Ribas irritou-se: - O que  que voc quer dizer com esse "at aqui?"
-        Esse "at aqui" quer dizer que eu pensava que voc percebesse o jogo da me dela. Voc  um homem bastante vivo para perceber que essa velha quer lhe impingir
a filha para algum proveito.
Ribas fez um gesto de impacincia, mas Cardoso impediu que ele lhe cortasse a palavra:
-        Voc  um homem casado, rapaz! O mximo que a velha poder fazer contra voc  uma pequena chantagem, vai querer dinheiro, vai querer que voc promova a
filha dela, sei l... Isto  bvio para qualquer um. Todos aqui tm essa Zelinda como sua pequena, como um caso seu, E ningum se engana sobre os planos da me dela.
Mas se voc est querendo se enganar,  problema seu. Voc  malandro bastante para saber disso tudo.
Ribas sentiu-se mais confortado com o conceito do amigo:
- Claro! - concordou: - A velha pode ter l seus planos, mas a pequena  realmente muito boazinha. E ela tem valor, pode vir a ser um grande nome da televiso.
- Talvez - disse Cardoso, tentando botar um ponto final na discusso.
Entregou Uns papis a Ribas para assinar. Ribas assinou em silncio e Cardoso saiu da sala, quando o telefone tocou:
-        Seu Ribas?
- Sim.
A voz de D. Jupira, era macia: - eu quero agradecer a ateno que o senhor teve para com a Zelinda, seu Ribas.
-        Ora, D. Jupira...
-        O senhor no imagina como ela ficou contente com o novo contrato. O senhor poderia nos dar o prazer de comemorar isso conosco.
- Bem eu...
- Por que no vem jantar em nosso apartamento?  casa de pobre, mas honrada.
- Hoje  impossvel - adiantou Ribas, esquivando-se.
- Ento amanh. A Zelinda amanh no est escalada na tabela. O senhor nos d o prazer?
- Amanh talvez eu possa.
-        Ela telefona ao senhor  tarde, para confirmar. Ribas fez um murmrio aprovativo e D. Jupira desligou, acrescentando antes: - E, mais uma vez, muito obrigada!

3

ERA A PRIMEIRA vez que Ribas jantava na casa de Zelinda. Os reiterados convites de D. Jupira foram delicadamente recusados at que, na vspera, com aquela histria
de comemorar o novo contrato da filha, ela conseguira um motivo que o levara  capitulao.
Estava ali sentado, numa salinha agradvel, num sof macio, tendo ao seu lado Zelinda e j tomara dois martinis preparados por D. Jupira. E l vinha ela para servir
o terceiro:
- Aceita mais um, seu Ribas? - e no esperou a resposta, enchendo-lhe o clice: - Est um pouco de calor.
Por que no tira o palet. Fique  vontade. A Zelinda  que  feliz, com essas bermudas.
Zelinda estava recostada num canto do sof, com as pernas encolhidas e nuas. As bermudas apertadas realavam a curva dos seus quadris de maneira perturbadora. De
vez em quando ela dava um golinho pequeno no seu martini e quem falava era sua me:
-        Geralmente eu no deixo Zelinda beber, mas hoje estamos festejando, afinal de contas. Ela estava to nervosa, com medo que o seu querido diretor no viesse.
-        Ora, Mame! - e Zelinda baixou os olhos.
-        No sabia o que vestir, a bobinha. Eu mesma sugeri que pusesse as bermudas. Com este calor, no  mesmo? Me d seu palet que eu penduro l dentro, para
no amarrotar - a velha apanhou o palet das mos de Ribas e encaminhou-se para o interior do apartamento: - Quando quiserem jantar  s pedir.
Ribas ficou ali sentado, olhando para aquela mocinha de uma beleza amena e de fsico estonteante. Deu mais um gole no seu martini:
- Como  que saiu o programa de ontem?
- Show das 91 Voc no viu?
-        No. Na hora eu estava conversando com o patrocinador da novela. le quer que o ltimo captulo seja transmitido do Maracanzinho.
-        Aquela droga daquela novela? - estranhou Zelinda.
-        Na televiso s  droga aquilo que no tem audincia. Se o pblico gosta da novela, para ns  um bom negcio, meu amor - e colocando a mo sobre o joelho
nu de Zelinda, concluiu: - Eu, inclusive, estive pensando em usar voc no elenco da prxima novela: Paixo de uma condenada.
-        Puxa! Seria timo! - exclamou ela animada, sem reagir contra a presso que Ribas fazia com os dedos sobre o seu joelho, diante do que, ele se ps a acariciar-lhe
a perna, com o polegar.
Zelinda sorriu e colocou a mo sobre a dele, num gesto de afeto que levou-o a pensar naquilo que Cardoso dissera na vspera. O outro tinha razo; D. Jupira j tivera
tempo bastante para pendurar uns cinqenta palets, mas continuava l dentro, deixando os dois ali na sala.
- Voc acha que eu posso trabalhar em novela? Eu nunca fiz.
-        No sei. Mas a gente ensaia para ver. Eu estou desconfiado que voc  muito mais atriz do que parece - e Ribas fitou Zelinda bem dentro dos olhos, para
ver se notava alguma reao s suas palavras.
Os olhos dela s deixavam transparecer a alegria que lhe causara a idia de poder trabalhar numa novela.
D. Jupira teve o cuidado de gritar do quarto, antes de entrar na sala: - Como , vocs no esto com fome no?
Ribas tirou a mo da perna da filha ao ouvir a voz da me:
- Acho melhor ns comermos sim, seno eu acabo de pilequinho - e mostrou a Zelinda o seu clice vazio pela terceira vez.
- O Ribas est com fome sim, Mame.
D. Jupira surgiu na porta e passou por eles sem olhar para o sof, afirmando que no fosse por isso, pois ia tirar o jantar em seguida.
- Eu lhe ajudo, Mame - props a moa, fazendo um movimento para se levantar, mas a me atravessou a porta da cozinha dizendo que no, que no queria ajuda nenhuma.
Ela que ficasse onde estava, fazendo companhia  visita.
- Coitada da Mame. Quando a gente est sem empregada ela se mata - observou Zelinda, com ar desajeitado porque, na verdade, as duas h muitos anos no tinham empregada.
Durante o jantar Zelinda contou a D. Jupira o plano de Ribas, de aproveit-la no elenco da prxima novela. Estava animada e falava muito - efeito da bebida que tomara
insuflada pela me. O sonho de todas as suas companheiras no estdio era trabalhar nas novelas, por causa da repercusso. Quase todo mundo, v novela. Por duas ou
trs vezes D. Jupira interrompeu a filha para dizer que ela devia ser grata  seu Ribas. Ele  que estava fazendo tudo aquilo. E Zelinda s encabulou e parou de
falar, quando sua me, num dos insistentes elogios ao diretor, virou-se para ele e disse:
-        Eu no devia revelar isto ao senhor.. Eu sou suspeita para realar os bons sentimentos de minha filha. Mas ela me confessou que adora o senhor.
Para ele o jantar correu todo com aquelas bruscas sensaes to diversas, que as duas mulheres conseguiram lhe causar: ora sentindo um constrangimento quase insuportvel
que lhe vinha da bajulao de D. Jupira, ora sentindo que o encanto de Zelinda era uma conquista que deixaria qualquer homem orgulhoso. A ele, inclusive.
Estavam acabando de tomar o caf quando D. Jupira atirou a derradeira seta de um Cupido que esgotara sua munio:
-        O senhor veio de carro, seu Ribas?
- Vim, sim senhora - respondeu Ribas, sem atinar com o por qu da pergunta.
-        Ento por que no vo dar uma volta? Est to abafado aqui.
- Estou s suas ordens, minha senhora.
- No. Eu no vou. Prefiro lavar estes pratos antes de dormir. V o senhor com Zelinda.
- Boa idia - concordou a moa, levantando-se: - Vou botar um vestido.
- V assim mesmo, minha filha. Est calor e vocs no vo sair do carro.
- Que idia, Mame - e Zelinda foi trocar as bermudas pelo vestido, enquanto Ribas tomava o devido cuidado para que a senhora no visse o suspiro de alvio que deu
por no ter que sair com ela naqueles trajes.

4

SENTADO EM SUA sala particular, nos escritrios da televiso, Ribas - num de seus raros momentos de folga - recordava a noite da vspera. Deixara Zelinda em casa
s 4 da manh. Forara a barra - como ele mesmo se propusera, para saber depois qual a reao de D. Jupira. Sorriu  idia de que, na verdade, a sua inteno era
dupla: saber qual a reao da me e qual a reao da filha.
Sair com a moa no carro e deram uma volta pelas praias de Ipanema e Leblon, no comeo, um pouco embaraados, mas logo com Zelinda abraada a ele, depois que pedira
a ela que lhe acendesse um cigarro, Zelinda colocou o cigarro em sua boca e ele aproveitou o movimento que ela fizera para mant-la junto a si. Trocaram o primeiro
beijo ainda com o carro rolando mansamente pelo asfalto do Leblon e depois ele manobrara em direo  Barra da Tijuca. Encostara o carro num lugar discreto e ali
ficaram quase duas horas.
-        "Houve um momento em que eu quase consegui que ela ficasse nua" - pensou.
A secretria entrou na sala e informou:
-        Seu Cardoso no interno.
Ribas atendeu: - Fala, Cardoso!
A voz se ouviu, fanhosa: - Tens uma folguinha a? Precisamos discutir os horrios para os textos do novo programa.
-        Pode vir - e desligou, mas logo a secretria reapareceu na porta:
-        Mr. Morrison na extenso.
-        Est bem - disse Ribas, com um suspiro de contrariedade: - passe a me chamar pelo telespeack que seu Cardoso vem ai conferenciar comigo.
-        Sim senhor.
Ribas livrava-se da presena da secretria porque tinha inteno de discutir com Cardoso as ocorrncias da vspera. Pegou outro telefone, entre os vrios que tinha
num canto de sua mesa e atendeu:
- Mr. Morrison?
- Como vai, Sr. Ribas? - o sotaque era de americano.
- Eu o chamei por causa dos filmes, Mr. Morrison.
- No esto okay!
Cardoso apareceu  porta e Ribas fez-lhe um sinal para entrar e sentar, enquanto continuava a falar:
-        Eles no tm legenda em portugus, assim eu no posso exibir na televiso. A embaixada no ter outros, com legenda?
-        Sim, temos. Eu vou providenciar, Sr. Ribas.
-        Obrigado, Mr. Morrison. Vou mandar devolver ainda hoje os que esto aqui. At amanh.
-        At amanh.
Ribas desligou o telefone e virou-se para Cardoso:
- O que  que h com os textos?
- J esto prontos e aprovados. S falta horrio.
-        So todos de trinta segundos. Dois por dia, no ?
Ribas apanhou um grande mapa em cima da mesa e apontou com o lpis: - Botamos um aqui antes do programa infantil, o outro pode ir antes do Jornal.
O telespeak tocou e Ribas apertou o boto. A voz da secretria informava:
-        Sua senhora no 04.
Ribas atendeu o telefone com a voz mais doce que encontrou:
-        Que  que h, querida?
Em primeiro lugar eu quero avisar que o dinheiro acabou - a dona da voz no estava fazendo a menor questo de no parecer furiosa: - E em segundo lugar, eu quero
dizer que, se no voltar para casa  mesma hora de ontem, eu quero que se danem todas as reunies de produtores que o senhor inventar, mas aqui o senhor no entra.
Ouviu-se o estalido seco do telefone que desliga e Ribas s teve o trabalho de colocar o fone no gancho.
- Que reunio foi essa, que eu no soube de nada? - perguntou Cardoso irnico, prevendo outra das encrencas que o amigo armava com rara regularidade.
- Voc ouviu, hem? - murmurou Ribas, piscando os olhos, preocupado. - Eu sa com a Zelinda ontem. Cheguei em casa s 4 e meia. Deu a maior bronca.
-        No?!
-        Espera - interrompeu Ribas: - Eu ia at discutir o assunto com voc.
Contou tudo que se passara na vspera e chegou a detalhes do seu encontro com a moa, no carro:
-        Mas quando eu insisti para irmos para o apartamento, ela deu pra trs.
-        Claro. Est no papel dela.
- Mas ela  quase uma ingnua - insistiu Ribas: -  difcil acreditar que possa estar combinada com a me para uma chantagem.
- Mas pode no estar, ora essa - Cardoso no se deixava impressionar: - Pode perfeitamente no estar: - repetiu: - A velha pode estar, inclusive, usando a ingenuidade
da filha para embrulhar voc.
- Embrulhar como, Cardoso? Ela sabe que eu sou. casado; tudo que pode acontecer  eu me aproveitar da garota e depois dar o fora. No h lei que me obrigue a mais
nada.
- Quanto voc pagaria para no haver um escndalo?
- Eu??? Eu... - Ribas no sabia o que responder: - Ela no faria isso, porque a filha perderia o emprego. Ontem eu j deixei Zelinda l bem tarde para ver qual a
reao dela. Pois bem: voc sabe qual foi a reao? Nenhuma.
Nesse instante o telespeak voltou a tocar. Ribas apertou o boto:
- Seu Luiz - disse a secretria.
- Mande-o entrar - e Ribas disse ainda para Cardoso: - E eu duvido muito que a me dela se meta comigo.
A pessoa anunciada entrou na sala. Era o assistente do programa que estrearia naquela noite:
- Trouxe a relao do elenco para o senhor aprovar - disse.
Ribas passou os olhos e estranhou a ausncia do nome de Zelinda na relao: - Por que voc esqueceu de relacionar Zelinda Melo?
-        U, a me dela telefonou pra mim dizendo que ela no ia entrar mais, porque passou a noite em claro. Falou que o senhor mesmo  que tinha mandado ela me
dar o recado.
Ribas assinou o papel sem olhar para o Cardoso. Depois ordenou:
-        Mande avisar a D. Zelinda que ela est escalada no programa e que, infelizmente, no podemos prescindir dela.
O assistente saiu para cumprir a ordem e Cardoso saiu atrs dele. Antes de fechar a porta, virou-se para o amigo:
-        Quando a velha assumir o seu cargo, eu prometo pedir minha demisso solidrio a voc.

5

O AUDITRIO da televiso estava lotado. O programa que naquele momento se exibia, tinha sido anunciado exaustivamente em todos os intervalos de anncios da emissora, 
durante quase um ms. Toda a publicidade fora dirigida para chamar a ateno do pblico e agora um elenco com o qual os patrocinadores do programa gastaram milhes 
de cruzeiros, passava diante das cmaras, cantando, danando, representando, tal como acontece sempre nos espetculos musicais de grande montagem.
O nervosismo de uma estria contamina a todos; artistas e tcnicos, o pessoal dos bastidores e at mesmo o pblico, gente pessoalmente convidada para assistir essa 
estria do auditrio, todos sentiam no ambiente o cheiro de novidade. Nos corredores os artistas corriam de um lado para o outro, atentos s suas entradas e sadas, 
enquanto os contra-regras e iluminadores gritavam ordens uns para os outros, aumentando a barafunda.
Nessas ocasies Ribas preferia misturar-se aos atores do que ficar na cabina refrigerada, com os diretores da empresa e os financiadores do programa, e ali estava 
ele, quando o programa j ia a meio. Sabia que a participao de Zelinda terminava no quadro que ora finalizava e no se espantou quando ela, irradiando beleza, 
surgiu na coxia e se encaminhou para ele, sorrindo e enxugando o rosto numa toalha:
- Como  que est indo, meu bem?
- timo - respondeu Ribas.
- Voc depois me leva em casa?
- Acho que no vou poder, neguinha. Sua me no est ai?
- Est no auditrio. Mas v se d um jeitinho de nos levar, t?
- T - respondeu Ribas, enquanto ela se dirigia para os camarins e a orquestra atacava outro nmero, o que chamou a ateno dele.
Sabia que Zelinda teria de voltar ao palco para o final. Fez sinal para um contnuo e, depois de examinar o relgio e calcular o tempo que teria, pediu-lhe que fosse 
at ao auditrio chamar D. Jupira:
-        Diga a ela para ir at  minha sala, l em cima, agora.
Ainda esteve ali nos corredores, vendo uma coisa ou outra, pediu ao diretor de cena que no deixasse atrasar o nmero final e subiu para a sua sala, onde j encontrou 
D. Jupira muito interessada numas fotografias que havia sobre sua mesa.
- Boa-noite, seu Ribas.
- Boa-noite. Faa o obsquio de sentar-se.
D. Jupira obedeceu e foi quem falou primeiro, entrando direta no assunto:
-        O senhor est zangado comigo, seu Ribas?
-        Zangado no  bem o termo, D. Jupira. Eu estou  surpreso, por ter sabido que a senhora tentou criar um problema de indisciplina para sua filha. E logo 
ela, que  uma das artistas mais disciplinadas da casa.
A senhora no pareceu se intimidar com o que lhe foi dito. Ao contrrio. Sorriu e ponderou:
- E se lhe dissesse que provoquei essa situao, para que tivssemos esta entrevista, Sr. Ribas?
- No estou lhe entendendo, minha senhora.
- No est entendendo porque no quer. O senhor no esquea que ontem saiu com minha filha e s a trouxe de volta para casa quando j passavam das 4 horas.
Ribas sorriu, contrafeito:
- Espero que a senhora tambm no esquea que foi a senhora mesma que nos forou essa sada.
- De acordo. O senhor est chegando onde eu quero. Eu praticamente obriguei o senhor a sair com minha filha. Mas trazer minha filha para casa quela hora foi uma 
atitude que o senhor tomou por conta prpria. E isso me deixou muito satisfeita.
- Como?
- Sim... isso me fez ter certeza de que o senhor no  indiferente aos encantos de Zelinda.
Ribas resolveu endurecer a voz:
-        Senhora, faa-me o favor de dizer onde quer chegar. E no esquea que eu sou homem casado e pai de vrios filhos.
D. Jupira estava acendendo um cigarro e no respondeu logo. Preferiu puxar uma longa tragada e expelir a fumaa demoradamente:
-        Pai de vrios filhos - ela repetiu: - So trs ao todo, no? Um menino e duas meninas. Poder cri-los nos melhores colgios e lhes dar uma tima educao 
sem muito esforo, no  mesmo?
Ribas balanou a cabea, como que concordando com ela.
-        Mas eu no, Sr. Ribas - prosseguiu D. Jupira: - S Deus sabe o que me custou fazer de Zelinda o que . Depois que o pai morreu a minha vida foi um inferno. 
Eu fiz tudo por ela e chegou a vez dela fazer alguma coisa por mim. Creia que no foi fcil transform-la no que ela : uma linda moa, de bons modos, dotes artsticos 
razoveis e muito disciplinada, conforme o senhor mesmo ressaltou ainda h pouco. Ela  linda e  donzela. O senhor sabia que Zelinda  virgem?
- Sim, ela me deu a entender isto ontem. Alis, eu j calculava.
- Eu tambm fiz meus clculos - afirmou D. Jupira, calando-se em seguida. Ela parecia no ter muita pressa em terminar aquele dilogo.
Ribas, por sua vez, no tinha nada a dizer e aguardava.
-        Pelo que sei o senhor no vive bem com sua mulher. Basta reparar na vida que o senhor leva para se perceber isso. O senhor j teve dezenas de casos com 
essas vagabundas da televiso. Mas minha filha no  uma vagabunda e o senhor j teve ocasio de constatar que no. Portanto, a coisa  simples...
-        A coisa?
- Digamos assim, para facilitar. Eu no estou disposta a ter uma velhice sofrida. O senhor gosta de Zelinda, ela  uma excelente pessoa e sei que  melhor filha. 
Zelinda no me deixaria ao desamparo se pudesse me ajudar.
- E a senhora quer que eu ajude Zelinda para que ela um dia possa lhe ajudar, no  isto?
- O senhor tem sido bom para ela, o que colaborou para que eu tomasse esta deciso. Pode ficar com ela. Zelinda ser sua se o senhor der a ela um apartamento prprio 
e mais, digamos, um carro e um bom contrato.
Ribas olhava fixo para aquela odienta senhora:
- Zelinda sabe desse seu plano? Desse seu plano abjeto?
- Se o senhor tivesse passado o que eu passei no o achava to abjeto.
-        Zelinda sabe? - insistiu Ribas.
-        Posso lhe garantir que no. E, dependendo do senhor, no precisar saber nunca.




6

PASSARAM-SE VRIOS dias, um ms talvez, depois daquela noite em que D. Jupira fizera sua cnica proposta a Ribas. Durante esse tempo ele procurara evitar Zelinda, 
embora isto lhe custasse um pouco, pois no negava a si mesmo que tinha um certo encanto pela pequena. Mas isto ele fora incapaz de reconhecer diante de Cardoso 
quando - logo ao dia seguinte de sua conversa com D. Jupira, contara tudo ao amigo.
Os ares de profeta que Cardoso tomou aos poucos, enquanto ele ia lhe relatando detalhes da conversa, irritaram Ribas e chegaram a ter uma discusso desagradvel, 
quando o outro acusou Zelinda de estar a par de tudo e ser cmplice da me no plano desta. Isto, de maneira nenhuma. Nos encontros posteriores com a moa, Ribas 
notou que ela ignorava completamente sua conversa com a me, a ponto de tornar-se cada vez mais triste com o afastamento que ele forou e acabou conseguindo. Mas 
Cardoso tinha razo noutros pontos, principalmente naquele da chantagem. Quem poderia garantir que' aquele no era apenas o incio dos planos de D. Jupira? Concordasse 
ele com o que ela exigia e, no demoraria muito, outros favores seriam exigidos.
Isto era bvio, como bvio se tornara para Ribas que Zelinda estava inteiramente ignorante dos planos maternos. Sentiu-se um pouco surpresa quando ele deu as primeiras 
desculpas para no encontr-la. E numa noite, quando j era quase nenhum o movimento na ala do edifcio onde se localizavam os escritrios da televiso, ela aproveitou 
o fato dele ter ido  sua sala apanhar uma pasta, para segui-lo, entrar na sala atrs dele, trancar a porta e cair numa poltrona chorando.
-        Mas o que  isso, Zelinda? Vamos... - foi tudo que conseguiu dizer para anim-la.
A moa, quando conseguiu se refazer dos soluos, virou para ele uns olhos comovedoramente rasos de gua e jurou que no compreendia porque sua atitude mudara tanto 
para com ela. E, num rasgo de sinceridade, desabafou:
-        Naquela noite eu disse a voc que era virgem, mas que isso no tinha a menor importncia - soluou mais um pouco e desabafou o resto, aos prantos: - Agora 
eu me arrependo do que disse, ouviu? Agora eu me arrependo porque vejo que voc s queria uma coisa, e como no podia conseguir naquela hora, tratou de me deixar 
de lado.
 sim, Ribas teve muitas contrariedades desde aquela proposta de D. Jupira, mas as contrariedades maiores foram com Zelinda. Estava absolutamente convencido de que 
a moa no sabia o que a me lhe propusera, mas nada podia fazer. No se sentia com direito de contar a Zelinda que espcie de me ela tinha. Isto s iria causar 
maiores dissabores  moa. E era precavido o bastante para no tentar levar avante um complicado romance que seria fatalmente interrompido com as chantagens de D. 
Jupira.
Convencido de que somente o tempo colocaria as coisas nos seus devidos lugares, amainava a conscincia enviando
Zelinda, sempre que podia, para fazer programas em So Paulo. Assim forava sua ausncia e proporcionava-lhe salrios extras. E os acontecimentos estavam neste tom, 
quando aconteceu de Zelinda ter de ir ao mdico.
O destino gosta de se fazer irnico com certas pessoas e se o foi com D. Jupira, no se pode negar que ela merecia. Estava Ribas uma tarde, em sua sala, quando a 
secretria abriu a porta e anunciou:
-        Est aqui a me da Zelinda Melo. Diz que precisa muito falar com o senhor.
Ribas teve vontade de sair pela janela. S olhar para aquela senhora, era-lhe um sacrifcio. Mas no receb-la talvez fosse pior:
-        Mande-a entrar - disse.
A secretria abriu mais a porta, fz um sinal para que D. Jupira passasse e deixou os dois sozinhos na sala. A velha caminhou alguns passos com a lentido dos condenados 
a caminho do cadafalso. Deixou-se escorregar numa poltrona e, muito plida, falou:
-        Eu vim lhe pedir encarecidamente que passe uma noite com minha filha.

7

CLARO EST que aquela cena pareceu a Ribas muito mais pattica do que grotesca, mas isto vai por conta de sua ignorncia sobre o que ocorrera dias antes. Deu-se 
que Zelinda comeou a desconfiar que estava grvida e, como pouco entendesse do assunto, colocou D. Jupira a par de suas suspeitas.
- Sua idiota! - berrou a velha, mal a filha relatou alguns sintomas que lhe trouxeram as suspeitas: - Mas  claro que voc est grvida!
- Mas mame, como posso eu estar grvida assim... sem... sem... assim sem nada?
- Sem nada coisa nenhuma. Voc traiu minha confiana, isto sim. Voc deve ter ido para um apartamento com aquele Barba Azul da televiso.
- Eu??? - e Zelinda arregalava os olhos, enquanto espalmava a mo direita sobre o peito.
- No minta, menina. No minta que  pior - bufava a me, contendo a vontade de avanar para a filha e cobri-la de bofetes.
- Mas mame, eu juro... - e no pde completar a frase. O pranto afogou seus argumentos e Zelinda caiu sobre o sof, escondendo o rosto entre as almofadas.
D. Jupira respirou fundo e resolveu mudar de ttica. Ainda com dureza na voz, mas procurando falar mais pausadamente, sentou-se ao lado da moa e perguntou:
- Zelinda, escuta... No adianta voc mentir para mim! Voc tem certeza que no foi ao apartamento desse Ribas ou algo assim? No tiveram relaes no escritrio 
dele, talvez?
- Eu juro; eu juro por Deus - insistia Zelinda com a voz abafada pelas almofadas e cortada pelos soluos.
- Bem... eu ouvi dizer que essas coisas acontecem, so rarssimas, mas acontecem. E no adianta ficarmos discutindo o caso antes de termos a certeza. Vista-se.
- Onde  que ns vamos? - quis saber Zelinda, levantando o rosto molhado pelas lgrimas.
- Vamos a um mdico. Ele examinar para saber se voc continua virgem e mandar fazer um exame de urina, para saber se voc est mesmo grvida.
Zelinda teve de tomar dois calmantes, antes de sair e D. Jupira, mesmo com seus modos duros, tomou um. Seguiram praticamente sem se falar at ao consultrio mdico 
e aguardaram a chamada com evidente nervosismo, numa sala de espera quente e diminuta, onde os olhares neutros dos outros clientes aumentavam a irritao da espera.
O mdico que examinou Zelinda era ainda jovem e isto embaraou a moa ao mximo, mas ela estava disposta a provar  sua me que no fizera nada demais com Ribas. 
D. Jupira esperou inquieta numa saleta ao lado e quando o mdico retornou ali, retirando as luvas de borracha, foi logo avisando:
- Sua filha no mentiu quando disse que conservava a virgindade. O exame provou isto, minha senhora.
- Mas... e a gravidez?
- Bem, pode acontecer dela continuar virgem e estar grvida, mas isto ns s saberemos depois do exame de laboratrio.
- Aquele exame do sapo?
- Sapo? - estranhou o mdico.
- Sim. Eu ouvi dizer que se injeta a urina a ser examinada num sapo e...
O mdico ps-se a rir e interrompeu-a: - Sim, o processo  mais ou menos este. Amanh teremos o resultado.
- E, doutor. . . - a senhora falava com certa cautela, embora j estivesse informada com segurana de que o mdico faria o aborto - ...em caso de gravidez o senhor 
se encarregar do caso, no?
- Mas ela no quer ter a criana?
- Lgico que no - bradou D. Jupira: - Ela simplesmente no pode ter essa criana.
O mdico pensou um momento. Notava que tinha aquelas duas senhoras presas a uma deciso sua; Zelinda era mesmo uma graa de moa; ele no teria maiores escrpulos 
em fazer o aborto mas... por que no? Sim, ele tentaria insinuar-se para salvar a situao a seu modo.
-        Ns estamos diante de um problema grave, minha senhora.
- Qual?
- A senhora, naturalmente, no quer que este segredo ultrapasse as paredes deste consultrio.
- Mas isto nunca, doutor - apressou-se a dizer D. Jupira.
- Ento no vejo outra maneira. Eu terei de fazer tudo - o mdico atirou estas palavras de encontro a ela e ficou aguardando o efeito.
- Tudo como? No  o senhor que opera?
- Sim, sou eu, e sem qualquer auxiliar. J fiz isto outras vezes e no haver o menor perigo. Segundo sua filha, seria uma gravidez muito em princpio.
-        Um ms, no mximo!
-        Portanto, fcil. O que eu quero que a senhora entenda  que, sendo ela virgem, as coisas podem se complicar - o mdico parou de falar um instante, para 
que a sua farsa no fosse trada pela insegurana na voz. Pigarreou e prosseguiu : -  preciso que ela antes sacrifique essa virgindade.
D. Jupira estava com o olhar parado em sua direo e assim permaneceu algum tempo. Ele, com receio de que ela percebesse que aquela insinuao jamais fora problema 
de ordem cirrgica, apalpou os bolsos por baixo do avental, procurando o mao de cigarros.
- Mas neste caso - falou D. Jupira - precisaramos de algum para... para ir com Zelinda?
- Isto mesmo. Desde o momento em que ela deixe de ser virgem, a operao torna-se faclima. Mas, para isto, teramos mais uma pessoa ciente do segredo que a senhora, 
muito justamente, quer preservar.
-        Sendo assim!
-        A senhora no esquea que eu, com o devido respeito que sua filha merece, no sou apenas um homem, sou tambm o seu mdico.
-        Compreendo. O senhor se oferece para...
-        Justamente. Creio que  a melhor maneira de termos preservada a honra de sua filha.
-        O senhor diz que o exame do sapo  para amanh. O resultado teremos amanh.
- Pois amanh resolveremos isto. O senhor compreende. Eu preciso preparar o esprito de Zelinda para a - digamos assim - primeira operao.
- Claro. No h tanta pressa - e o mdico se levantou satisfeito, do brao da cadeira de ferro, onde se recostara.
Minutos depois Zelinda e D. Jupira saam do consultrio.

8

SENHORA no achou conveniente debater com a filha a proposta do mdico. O assunto era delicado e no valia a pena entrar nele enquanto no viesse o resultado do 
exame do sapo (pela cabea de D. Jupira no passou nem uma vez a lembrana de que o exame era de laboratrio: ela s pensava no "exame do sapo"). Se desse positivo, 
ela teria a conversa com a filha. E, meu Deus, se fosse negativo seria to bom, tudo terminaria. Sua filhinha no passaria pelo horrvel vexame. D. Jupira no queria 
nem pensar!
Mas no outro dia, antes mesmo da hora do almoo, o telefone tocou. A preocupada senhora atendeu e sentiu uma sensao desagradvel ao reconhecer a voz do mdico:
- D. Jupira? -  o Dr. Rgo!
- Bom dia, doutor. O senhor tem o resultado?
- Tenho sim senhora. Deu positivo, D. Jupira. Sua filha est grvida - fez uma pausa, mas como D. Jupira permanecesse em comovente silncio, prosseguiu: - A senhora 
acha que ainda vai precisar dos meus servios?
- Hum? - D. Jupira divagava - Ah sim... mas claro, doutor. Tudo ser como combinamos, no?
- Perfeitamente, minha senhora. Poderamos marcar a primeira operao para hoje  noite, aqui mesmo, no meu consultrio.
- Hoje  noite?
-        A senhora compreende.  noite o movimento aqui no prdio onde eu tenho o consultrio  quase nenhum e...
- Mas vai ser no consultrio, doutor?
- A senhora no acha que assim damos uma aparncia mais ginecolgica a esta primeira operao?
- Acho. Mas acho tambm que o senhor est se mostrando muito precipitado em operar minha filha - falou D. Jupira chateada.
O Dr. Rgo sentiu um leve tom de suspeita na voz de D. Jupira e desmanchou-se logo em explicaes:
- A senhora no me interprete mal, por favor. Eu j lhe expliquei que um aborto  sempre mais fcil, se feito nos primeiros dias da gravidez.
- O senhor pretende fazer as duas coisas hoje?
- No, minha senhora. Sua filha ter de esperar uns trs ou quatro dias entre uma operao e outra. Por isso  que eu quero resolver a primeira o mais rapidamente 
possvel.
D. Jupira sabia que ia ser duro convencer Zelinda de se entregar ao mdico, mesmo com o argumento de que devia enfrentar aquilo como uma medicao. E tratou de ganhar 
tempo.
- Zelinda hoje amanheceu muito indisposta, doutor. O senhor v inconveniente em marcarmos a primeira operao para amanh  noite?
- Claro que no. Fica a critrio das senhoras. De qualquer maneira, a senhora tem meu telefone e eu estarei aqui no consultrio at s 6 horas. Passe bem, minha 
senhora, e recomende-me  sua filha - muito polido o doutor, nas suas despedidas, mas sem esconder uma certa decepo pela transferncia da primeira operao, detalhe 
que no escapou a D. Jupira e que lhe causou certo rancor.
Ela desligou o telefone e ficou pensativa durante alguns segundos, depois suspirou profundamente e levantou-se decidida. Era fcil perceber-se que D. Jupira estava 
disposta a resolver toda a questo nos prximos minutos. Entrou no quarto no mesmo instante em que Zelinda saa do banheiro, enrolada numa toalha.
-        Ouviu o telefone? Era o Dr. Rgo. O exame no sapo deu positivo. Voc est grvida, minha filha.
- Oh, Mame - exclamou Zelinda, num desnimo total, caindo sentada na cama.
- Olha minha filha. Eu pensei muito e isto no  um bicho de sete cabeas. O Dr. Rgo vai tomar todas as providncias. At fazer voc voltar a ser virgem ele consegue.
- Virgem outra vez? - Zelinda passava do desnimo  estupefao.
-        Bem... isto se voc quiser.
- Mas eu sou virgem, Mame. A senhora mesma no disse que o doutor me examinou e...
- Sim, sim... eu sei - interrompeu a velha, contendo-se, para manter um clima propcio  sua proposta: - Mas fazendo o aborto voc deixar de ser virgem, minha filha. 
Ou voc ignora isto?
Zelinda calou, como quem consente.
-        ... Alis, voc est numa situao em que a virgindade s lhe atrapalha.
-        Como?
- Para lhe operar sem haver complicaes, o Dr. Rgo ter de, antes, livrar voc da virgindade.
- De que maneira, Mame? - os olhos de Zelinda estavam esbugalhados.
D. Jupira atrapalhou-se um pouco: - Creio que, bom... eu... Creio que ele usar o mtodo tradicional.
-        Oh no!!! - Zelinda voltou a enfiar-se entre os travesseiros, numa atitude semelhante  que tomara quando, no sof da saa, enfiou o rosto entre as almofadas, 
para chorar sua desdita. - Isto nunca, NUNCA! - e sua voz j se misturava aos soluos.
- Mas querida,  necessrio!
- No interessa, ouviu? Eu prefiro ter o filho a me entregar quele... quele. .. - Ela levantou o rosto e olhou para a me: - A senhora no v? Fazer a operao 
j vai ser o fim e ainda por cima eu vou ter de me deitar com aquele homem horrvel? No fao. No fao operao nenhuma.
- Mas voc tem de fazer, Zelinda. O sapo deu positivo.
- Dane-se o sapo. Sapo  aquele mdico horroroso! - e foi taxativa: - No fao! - dito o que, enfiou outra vez o rosto nos travesseiros e ps-se a chorar alto.
Contudo, D. Jupira era uma senhora de certa experincia: vivera, amara, casara, sofrera, enviuvara. Alm disso, conhecia muito a sua filha. Deixou que Zelinda chorasse 
ainda um pouco e perguntou:
-        O mdico no precisa necessariamente fazer as duas operaes. Se ele fizesse somente o aborto e esse tal de Ribas se encarregasse da... se encarregasse 
da primeira parte, digamos assim, voc concordaria em se operar?
O choro de Zelinda foi diminuindo de volume aos poucos, o som foi baixando, baixando e a ela fez um leve movimento com os ombros. Depois sua cabea foi subindo 
devagar, ao mesmo tempo que virava o rosto para D. Jupira, um rosto ensopado de lgrimas.
E ento ela fez que sim com a cabea.



9

Eu VIM lhe pedir encarecidamente que passe uma noite com minha filha!
As palavras de D. Jupira apanharam Ribas desprevenido, foram como um soco num boxeador que deixara a guarda aberta. Ribas cambaleou pelo ringue meio grogue e foi 
se refazer no seu canto. No caso um bloco de papel, onde rabiscou um desenho de tendncia abstracionista, mantendo nos lbios um sorriso que tentava ser irnico, 
mas que somente, traduzia estupefao, enquanto se preparava para tomar flego.
- A senhora est me pedindo para dormir com sua filha? - perguntou, por fim.
- Justamente!
- A troco de qu?
- A troco de nada, Sr. Ribas - e D. Jupira tratou de entrar logo no assunto: - Zelinda est grvida por sua culpa.
Ribas rebateu imediatamente:       
- Culpa minha???
-        Um momento. Eu sei que o senhor tratou de respeitar os limites. Ela foi examinada e constatou-se que continua virgem.
Da por diante D. Jupira explicou todo o drama que a filha vivia, desde o dia em que comeou a sentir sintomas de gravidez. Suspenso das regras, enjos injustificados, 
etc., at a ida ao mdico e a constatao de que ela, realmente, ainda era virgem, mas estava grvida.
-        Mas como pode ser isso? - quis saber Ribas,
D. Jupira deu de ombros: - O senhor respeitou os limites, mas nem por isso deixou de ser imprudente. Estas coisas acontecem.
Nesse momento Cardoso bateu discretamente na porta, abriu-a e ia entrando. Ao dar com D. Jupira na poltrona, estacou, indeciso:
-        Um momento, Cardoso - pediu Ribas: - Eu lhe atendo j.
Cardoso fez meia volta e saiu, fechando a porta atrs de si. Quando ia passando pela mesa da secretria, ouviu a voz de Ribas no telespeak, dizendo:
-        D. Graa, no estou podendo atender ningum agora. Se for chamada telefnica diga que estou em reunio.
Cardoso parou, apontou para a porta e disse  secretria:
-        Reunio com a sogra.  espeto!
Ambos riram, enquanto, dentro da sala, D. Jupira dava as ltimas explicaes a Ribas:
- E quando o mdico exigiu que a operao s fosse feita depois que ela perdesse a virgindade, eja recusou-se a tirar o filho, a no ser que o senhor... colaborasse...
para essa perda.
- Minha senhora - Ribas comeou a falar pausadamente, medindo as palavras: - A senhora pensa que eu vou acreditar mesmo nesta histria?
-         a pura verdade. O senhor desconfia de mim porque no soube compreender o apelo que lhe fiz h tempos. Mas eu lhe dou a minha palavra de honra que  verdade.
Ribas no conteve um sorriso, desta vez com todas as nuanas da ironia:
- Se o senhor no acredita em mim, deve ao menos confiar em quem lhe quer bem. Por que no pergunta a Zelinda?
- Seria um dilogo um pouco penoso para ns dois.
- Porm necessrio, Sr. Ribas - e D. Jupira deu  entrevista por encerrada, embora sua incerteza sobre a atitude que Ribas iria tomar. Ficou em p, no meio da sala,
como a esperar que ele dissesse qualquer coisa.
- Eu vou pensar no seu pedido - disse ele.
- Quando terei uma resposta?
-        Amanh mesmo, depois que eu falar com Zelinda. D. Jupira agradeceu com um cerimonioso baixar de cabea e dirigia-se para a porta, quando ele falou:
- Ah sim... e as despesas da operao de Zelinda correro por minha conta, no?
- Seria mais um favor - respondeu ela, virando-se indignada e batendo a porta.
Ribas deu tempo para que ela tivesse sado da ante-sala e foi at  porta. Vendo que a secretria estava sozinha, copiando um relatrio na mquina de escrever, pediu:
-        Pergunte ao seu Cardoso se ele pode vir aqui, agora. Num instante Cardoso apareceu, olhos arregalados, farejando novidades. Mal fechara a porta, j perguntava:
- Que que houve?
- Se eu contar voc no acredita.
- Pode contar - rebateu Cardoso, enquanto sentava-se, ultimamente eu dei para acreditar em tudo.
- A velha quer que eu coma a filha.
- De graa? - estranhou Cardoso.
- De certa forma, sim.
-        A loja est em liquidao - disse Cardoso rindo.
Ribas chateou-se com a irreverncia do outro e Cardoso desculpou-se:
-        Sinto muito, velhinho. Mas essa D. Jupira s levando na galhofa.
- Em sntese, a histria que ela me contou  esta: Zelinda est grvida, mas continua virgem.
- Isto acontece nas melhores famlias.
- J fez todos os exames e est realmente grvida.
- Um momento - Cardoso interrompeu: - Voc acha vivel que possa ser culpado da gravidez?
- Bom... esses casos so rarssimos, mas se  assim, bem pode ser que eu.. . De qualquer maneira eu acredito que Zelinda no teve caso com ningum.
- Quanto a isto eu concordo. Cansei de observar a pequena desde que voc deu o fora. Ela parece, de fato, gostar de voc e nem ao menos teve a idia imbecil de arrumar
um outro para causar cimes.
-  verdade. Ela nunca soube dos planos da me e agora deu mais uma prova de que gosta de mim.
- Engravidando?
- No... voc no me deixou terminar. Segundo a me, o mdico constatou que ela est grvida, mas permanece virgem e, para fazer o aborto, exige que ela no seja
mais virgem.
- Mas por qu? Que besteira  essa?
- Eu tambm desconfiei dessa exigncia do mdico e perguntei a D. Jupira se ele se props tambm a tirar a virgindade dela. Ela disse que sim.
- Ora, Ribas! Isso  safadeza desse mdico. No v logo? Onde j se viu a medicina estacar diante de um cabao?
- Lgico - atalhou Ribas impaciente: - mas a velha no percebeu isso, por ignorncia, talvez. Eu percebi logo, como percebi que esta  a minha oportunidade. Quando
Zelinda soube que o mdico se propunha s duas coisas, disse que preferia ter a criana a ter qualquer contato sexual com ele...
- Mas com voc ela topa?
- Foi o que a velha disse. O que  que voc acha?
- Acho que pode ser verdade. Conforme eu disse: eu dei para acreditar em tudo, mas meu anjo-da-guarda me ensinou a no acreditar em nada. Meu anjo  ateu, voc sabia?
- Fale srio, Cardoso.
- Estou falando: para mim tanto pode ser um novo golpe da velha, bem mais inteligente desta vez, no resta dvida; como pode ser verdade e a voc no tem nada a
perder. Pelo contrrio: levando-se em conta que a pequena  um estouro, eu, se fosse voc, faria esse favor a ela.

10

R.IBAS TEVE uma longa conversa com Zelinda, da qual saiu convencido de que, desta vez, no havia qualquer artimanha de D. Jupira, tudo se passara como a velha narrara.
Trocaram um longo beijo e marcaram um encontro no apartamento que ele mantinha, de sociedade com Cardoso, para encontros amorosos. Agora os dois estavam ali. Um
pouco encabulados a principio, mas j num ritmo que agradava a ambos. Recostado nos travesseiros, semi-deitado na cama, sem camisa e sem sapatos, Ribas puxou Zelinda
mais uma vez contra seu peito e deu-lhe outro beijo:
- Tadinha da futura mezinha - disse ele. E ela sorriu e beijou-o outra vez.
No seu consultrio, o Dr. Rgo examinava umas fichas, quando deu com uma que tinha escrito  mquina, na parte de cima: Zelinda Melo. Ps-se a ler distraidamente,
pensando na moa e na chateao que sentira, quando a me dela telefonara, dizendo que Zelinda apresentar-se-ia em seu consultrio "apenas" para fazer o aborto.
Ribas passou os braos em torno de Zelinda e comeou a desabotoar as costas do seu vestido:
- Voc sabia que sua me queria que ns tivssemos este encontro?
- Mame sempre gostou muito de voc. Mas a filha gosta mais - respondeu Zelinda, ajudando-o na difcil tarefa de desabotoar o vestido e permanecerem abraados ao
mesmo tempo.

O mdico arregalou os olhos ao pass-los pela ficha de Zelinda Melo. No podia ser. Estava escrito, em vermelho, a palavra "negativo". Ento como foi que ele...
Pegou sua agenda e correu o dedo at o dia em que Zelinda estivera no consultrio, para o exame. Feito isto, abriu um pequeno fichrio e retirou todas as fichas
de exames do dia. Eram quase todos com resultados positivos. Apenas dois negativos e um deles era o de Zelinda.

Zelinda apoiou-se nas mos e levantou o corpo, para que Ribas lhe tirasse o vestido. Depois esticou as pernas e ele puxou as saias, atirando tudo sobre uma cadeira.
Apenas de calcinhas e soutien atirou-se outra vez com os braos envolvendo Ribas, encostou o rosto no dele e mordeu-lhe o ombro.
- Ai, bichinha! No morde.
- Mordo - ela repetiu.
- Ajuda seu irmo, v - e Ribas desabotoou as prprias calas para que Zelinda puxasse por baixo. Ela obedeceu e puxou. Os dois seminus comearam a rolar pela cama,
dando mordidinhas um no outro.
O mdico coava a cabea e perguntava-se como pudera cometer um engano assim. Talvez fosse a vontade de apanhar a pequena que o levara a trocar as fichas, quando
elas vieram do iaboratrio. Tinha de avisar a me dela. Seria uma indignidade fingir um aborto numa virgem para encobrir um simples engano. Pegou um caderno com
os endereos dos clientes e procurou o nmero de D. Jupira.
Ribas - por sua vez - conseguira prender Zelinda debaixo de seu corpo:
- Voc sabe que  a coisinha mais linda?
- Meu amor! - disse ela, sria.
Ribas conseguiu arrancar o soutien e puxou-o com a conivncia dela, que inclinou o corpo, para ajudar. Agora ele corria as mos pela sua cintura, enfiava um dedo
no elstico da calcinha e comeava a puxar lentamente.

Quando atenderam do outro lado, o mdico falou:
-        D. Jupira?  o Dr. Rgo.
- Ah... pois no, doutor.
-        Tenho uma boa notcia para a senhora. Houve uma troca de fichas. O exame de sua filha deu negativo.
- Como?
-        Sim, minha senhora... Trocaram no laboratrio - mentiu o mdico.
-        Trocaram os sapos?
- Sim, isto... houve uma troca. O exame de sua filha deu negativo. Que sorte, no?
- Sorte? - berrou a senhora: - Desligue o telefone imediatamente, eu preciso falar - e ps-se a bater nervosamente no gancho.
O mdico olhou para o fone, estranhando a atitude dela e desligou.
Ribas afagava os cabelos de Zelinda, deitada ao seu lado:
- Doeu muito? - ele perguntou.
- Eu te amo -- ela repetiu, e abraaram-se outra vez.
Foi a que o telefone tocou. Ribas estranhou. Pouqussimas pessoas sabiam da existncia daquele telefone e at mesmo daquele apartamento, mas Zelinda tranqilizou-o
com a observao:
-        Deve ser Mame. Eu deixei o telefone com ela. Na hora em que sa, ela estava mais nervosa do que eu.
Ribas atendeu: - Al!
- Seu Ribas,  Jupira.
- Pois no, D. Jupira.
- Seu Ribas... trocaram os sapos.
-        O qu?
- Os sapos, seu Ribas -- D. Jupira estava nervosssima - no laboratrio, fizeram confuso com os exames. Zelinda no est grvida. Tinha dado negativo.
- Sei, sei...
- O senhor entende? Temos de suspender a combinao.
- Mas aqui no tem ningum de combinao.
- Sr. Ribas, a nossa combinao... Zelinda deve continuar como era.
S ento Ribas compreendeu realmente o que ela queria dizer. Ia estourar numa gargalhada, mas preferiu conter-se e dizer com voz consternada:
- Agora  tarde, D. Jupira.
- Ins  morta? - perguntou ela com voz muito mais consternada ainda.
- Ins  morta! - confirmou Ribas, desligando o telefone e abraando-se  Zelinda.

A Currada de Madureira

1

O BALDE de gua fria explodiu contra o rosto inchado do negro Mixaim. Ele fez uma careta de dor e comeou a se mexer, voltando a si, depois de ter perdido as foras 
mais uma vez. Mal abriu os olhos foi surpreendido pelo bofeto na cara que um dos investigadores  sua volta lhe deu. Deu e falou, com voz autoritria:
- Como  seu crioulo vagabundo, vai ou no dizer quem  que estava contigo?
O negro Mixaim tinha sido preso num boteco da Rua Carolina Machado, depois de tomar um porre e tentar dar no portugus do balco por causa de uma discusso sobre 
futebol. A eterna desavena entre lusitanos e pretos do Rio, numa rivalidade que suplanta mesmo as coisas de amor e deixa a mulata em segundo plano: a raiva de um 
crioulo quando v um vascano menosprezando o Flamengo, o dio de um portugus quando v um rubro-negro gozando o Vasco. Mixaim agarrara uma garrafa de cerveja e 
pulara o balco para acertar o portugus e este j o esperava com a tranca de ferro de fechar as pesadas portas corredias do botequim. Um carro da Radiopatrulha, 
sempre atento naquela zona, salvara Mixaim de uma surra, levando-o preso.
Alis, salvara-o no  bem o caso, pois Mixaim j tinha desmaiado duas vezes de tanto apanhar. Era suspeito de ter participado de uma curra onde perdera a vida uma 
pobre mulher - Lucimar Barroso - num crime que abalava naquele momento a opinio pblica, com a crnica policial dos jornais fazendo presso sobre o Chefe de Polcia, 
acusando-o de relapso, pois era evidente que a Polcia estava relaxando as diligncias s porque havia gente do bicheiro Generoso metido na coisa. Mixaim deu com 
a lngua nos dentes durante um ensaio da Escola de Samba Imprio Serrano e um alcagete do detetive Boco dera o servio, isto , contara tudo ao temido homem da 
Lei e da delinqncia, porque Boco era desses policiais, to comprometidos com marginais, que se tornara - como tantos outros - um misto de policial e delinqente. 
Fora ele que avisara o pessoal da Vigilncia:
-        Se apanharem o Mixaim levem direto para a Subseo de Madureira e me chamem.
Agora era o prprio Boco quem dirigia o massacre  guisa de interrogatrio. Outro investigador dera um soco no estmago de Mixaim e insistia para que ele dissesse 
quais eram os que estavam com le, no dia em que curraram Lucimar. Mixaim sem poder falar, apenas balanava a cabea, insistindo em declarar que estava sozinho.
Boco perdeu a pacincia e encostou o cigarro aceso nos peitos de Mixaim:
-        Fala logo, moleque safado. Vomita logo o nome dos outros.
Mixaim soltou um urro de dor e comeou a chorar, pedindo pelo amor de Deus que parassem com aquilo. Os policiais se entreolharam e Boco sorriu:
- Vai falar ou no vai?
- Vou sim - concordou afinal Mixaim, num gemido - mas antes me d um pouco de gua, Boco.
- Boco no, seu cretino. Martins. Meu nome  Martins.
- Sim senhor, seu Martins - tornou a gemer Mixaim: Mas me d um pouco de gua.
-        D gua pra ele, Olegrio - ordenou Boco.
Um dos investigadores apanhou o balde e derramou-o mais uma vez de contra o rosto do preto, que lambeu os beios intumescidos das pancadas que levara na boca.
- Eu quero gua para beber.
- Depois. Primeiro conta a histria toda.
Fora na noite do dia 18. O banqueiro Generoso estava com tanto dio da moa que levara os trs pessoalmente, no seu carro, at  viela onde ficava a casa de Lucimar. 
Parou na esquina e ordenou a Mixaim, que estava no banco da frente, ao lado do motorista:
-        Voc vai na frente e faa como eu disse. Chegue l e diga quela vagabunda que Betinho fugiu da priso e est escondido no matagal l do outro lado. Faa 
o servio direito Mixaim, para que ela acredite em voc e v at l.
Mixaim saltou do carro enquanto Generoso dizia para Abel e para o "turco" Farah:
-        Vocs dois esperem escondidos no mato. Quando Mixaim chegar com ela, j sabem. No deixem aquela vaca gritar. Tirem a roupa dela, faam o servio e depois 
marquem a cara dela de navalha.
Os dois j iam saltando, quando Generoso segurou Abel pelo ombro e recomendou:
-        Depois que sangrar, no esquea de dizer que foi um presente de seu Generoso, que  pra essa puta nunca mais se meter com meus homens.
Abel saltou e ladeou-se a Farah. Os dois correram cautelosamente, colados aos muros irregulares da viela, em direo ao matagal que ficava ao fundo e que ia dar 
na linha frrea. Mixaim - antes mesmo que eles alcanassem o mato, j desaparecera pelo portozinho da casa de Lucimar.
Ela estava deitada, semi-adormecida - como dormir direito com aquele calor? - e despertou num sobressalto, ao ver a cara do negro na janela, sorrindo e olhando para 
suas coxas.

2

LUCIMAR DORMIA naquele quarto desde que se casara com Betinho. Depois do casamento estiveram uns dias em Paquet, gozando a lua-de-mel por conta do banqueiro Generoso.
Mas isto Lucimar s veio a saber muito tempo depois. Naquela poca acreditava em tudo que Betinho lhe dizia e o que Betinho lhe contou foi que conseguira frias 
com o patro:
- Ele  um cara legal. Gatinha. E ainda me deu um ordenado adiantado pra gente poder vir pra este hotel.
No comeo Betinho s chamava Lucimar de Gatinha, carinhosamente. No dia em que se viram pela primeira vez ele a chamou assim. Lucimar servia caf num bar da Praa 
Mau, quando Betinho e Abel entraram, compraram ficha na caixa e colocaram sobre o balco, esperando serem servidos.
Lucimar reparou logo em Betinho, achou-o simptico, com aquele sorriso limpo de dentes muito brancos. No bar st entravam homens feios, mal vestidos, alguns bbados, 
outros suarentos e gordos, carregando pastas. Naquele vaivm de todas as horas, Lucimar se habituara a nem olhar para os fregueses. Chegava perto com o bule fumegante, 
recolhia a ficha e esperava que o fregus se servisse do aucareiro. Ento enchia a xcara de caf e passava a fazer a mesma operao com o fregus ao lado. Era 
um servio inglrio, cacete e mal remunerado, mas Lucimar precisava dele, Desde que lhe morrera a tia velha, com quem vivera no Rio desde oz 12 anos, no tinha mais 
nenhum parente ou amigo certo. Aprendera a se defender dando duro no trabalho e, naquela ocasio, estava lutando para melhorar, muitas vezes sacrificando uma refeio 
para juntar dinheiro e pagar o curso de datilografia que fazia  noitinha, depois que deixava o trabalho no balco.
Lucimar reparou que Betinho tambm se interessara por ela. Quando virou-se para servir os fregueses ao longo do balco, notou que le cutucara Abel com o cotovelo. 
Aquilo a perturbou um pouco, mas procurou no dar a perceber, segurando o bule com mais firmeza e procurando se concentrar na tarefa de encher as xcaras.
- Nada de bancar o tremendo com as mulheres, velho. O tira vai passar agora na esquina e o homem recomendou que a gente estivesse junto - dissera Abel.
- Manera, compadre. Que  que h? Voc no pode fazer o carreto do pacote sozinho? (Betinho dizia isso em voz baixa, para somente Abel ouvir, enquanto seguia Lucimar 
com os olhos at que seus olhares se encontraram e ele deu uma piscadinha para ela.)
- Tu "sabe" que no, Betinho. Tu "sabe" que o homem confia na gente e desconfia ao mesmo tempo.
- Nunca dei folga a ele pra desconfiar de mim - e Betinho animou-se ao entrever no jeito da moa que ela no ficara contrariada com o seu piscar de olhos.
- Mas ele sabe o que faz. Se ele manda sempre dois pra entregar o cala-boca pro tira  "por causa de que" dois  mais difcil de passar ele pra trs. Um toma conta 
do outro.
Tinham acabado de tomar o caf e Abel impaciente puxava Betinho pelo brao. Este deixou-se levar e, ao passar por Lucimar, falou baixinho:
-        Eu volto daqui a pouco, Gatinha.
Ela fingiu que no ouviu e caminhou para o outro canto do bar, para tornar a encher o bule. Betinho e Abel saram para a rua e pararam na esquina, onde fingiram 
estar conversando mas, na verdade, atentos ao movimento dos carros.
No havia passado dois minutos e um carro sedan preto encostou ao meio-fio, quase na esquina onde os dois estavam. O motorista fez um sinal jovial e exclamou:
- Ol!
Os dois se aproximaram e fingiram uma conversa amistosa com o comissrio Agostini, que dirigia o carro. Agostini, sempre sorridente, para manter as aparncias, apontou 
para a banca de jornais e pediu que um deles fosse lhe comprar um jornal. Fez meno de que ia tirar o dinheiro do bolso, mas Betinho barrou-lhe essa inteno com 
um gesto e afastou-se do carro para comprar o jornal.
A manobra foi rpida e eficiente. Para que algum a notasse era preciso que estivesse muito atento ao movimento dos dois que se encontravam fora do carro e, mesmo 
assim, talvez no a percebesse. Betinho pagou o jornal e veio caminhando devagar, interessado nas manchetes. Ao chegar perto do carro parou de ler e, com o jornal 
semi-aberto chegou bem perto de Abel. Este, sub-repticiamente, jogou o pacote de dinheiro dentro do jornal que Betinho fechou e entregou ao comissrio. Agostini 
colocou-o sobre o banco do carro, despreocupado e manteve ainda por coisa de um minuto o dilogo com eles. Depois agradeceu a Betinho a compra do jornal e, maciamente, 
o sedan afastou-se do meio-fio e misturou-se ao trfego que descia a Avenida Rio Branco da Praa Mau, no sentido da Avenida Presidente Vargas.
Os dois tambm se afastaram da esquina procurando andar com a maior naturalidade possvel. O pacote que acabavam de deixar em poder do comissrio era a gorda propina 
que o banqueiro Generoso ofertava semanalmente  Polcia para no ser incomodado com estouros em suas fortalezas do bicho, na zona de Madureira.
Em frente ao bar Betinho parou:
- L vai o derrubador de mulheres.
Betinho sorriu, olhou para o interior do bar e viu Lucimar na faina de encher as xcaras:
- O servio est feito, Abel. Agora deixa eu paquerar essa gatinha. Avisa ao chefe que s 4 estou l, pra corretagem.
Disse isso e deixou que Abel se afastasse contrariado. Depois entrou no bar para comprar nova ficha na caixa.

3

SUOR FRIO do medo engrossava as gotas de gua que ficaram no rosto de Mixaim. Boco aproximou-se mais uma vez, empunhando o alicate:
-Nooo! - berrou Mixaim, e seu berro foi contido pelas paredes da sala de interrogatrio.
- Foi ele sim - insistia Boco, aproximando-se mais e fazendo o alicate tornar-se ameaador ante os olhos apavorados do crioulo.
- Confessa logo que foi Betinho que mandou voc dar curra naquela vaca - ordenou um dos investigadores, cujo rosto mal iluminado pelo abajur pendente do teto, no 
deixava perceber seu ar de desprezo.
Mixaim virou-se em direo ao investigador, temendo outro ataque:
- Mas no foi ele. Eu juro que no foi ele.
- Escuta, seu merda. Eu te arranco os dedos com este alicate, se voc no explicar tudo direitinho - e Boco encostou o alicate no nariz de Mixaim enquanto os dois 
investigadores agarravam a mo direita dele e a imobilizavam. Boco segurou o dedo mindinho com o alicate e comeou a apertar. O negro gemia e Boco no dava ateno, 
insistindo em saber:
- Quando voc chegou na janela do quarto, o que foi que viu?

Ao abrir os olhos e dar com Mixaim na janela, Lucimar tomou um susto e sufocou um grito com as prprias mos.
-        Sou eu, D. Lucimar.
Ela puxou os lenis at ao pescoo, cobrindo a sua semi-nudez e perguntou, tentando controlar a voz:
- O que  que voc est fazendo aqui, Mixaim?
- Foi Betinho que me mandou.
- Ele foi solto?
- No senhora. Ele fugiu. A Polcia t querendo "apanha" ele. Ele vai se esconder, mas antes quer falar com a senhora.
- Onde ele est?
- T no matagal a atrs da vila. Pediu pra senhora ir l depressa, antes que a Polcia chegue. Mandou eu vir buscar a senhora.
- Est bem. Espera na porta dos fundos que eu j vou.
Mixaim desapareceu da janela e Lucimar, instintivamente pulou da cama e a fechou, depois, s de soutien e calcinha caminhou at uma cadeira onde um vestido estava 
estendido. Vestiu-o apressadamente e nem sequer sentou-se para calar os sapatos. Enfiou-os nos ps e levantou a perna esquerda para passar a ala por trs do calcanhar. 
Encostou-se  tosca mesinha de cabeceira para fazer a mesma coisa com o sapato do p direito.
L fora o negro Mixaim viu qualquer coisa brilhar no meio do matagal. Apurou a vista e pde ver o "turco" Farah examinando a navalha. Fez um sinal irritado para 
que o outro se escondesse e continuou aguardando, na porta dos fundos. Encostou o ouvido  madeira para verificar se Lucimar se apressava. O silncio dentro da casa 
era total e Mixaim comeou a se enervar.
Lucimar, ao encostar-se  mesinha vira sobre ela os brincos que Betinho tinha comprado logo depois da lua-de-mel, quando voltaram de Paquet. Falou mais alto a vaidade 
feminina e ela, antes de sair, apanhou os brincos e foi para diante do espelho rachado coloc-los.
Enquanto ajeitava os cabelos pensava como tudo mudara desde aquele tempo. Betinho fora atencioso e galante. Vivia inventando maneiras de faz-la sorrir.
-        Gosto de te ver assanhada, Gatinha - e abraava-se a ela para longos beijos.
Nas primeiras semanas ela nem se preocupara em perguntar qual a espcie de trabalho do marido. Fora tudo to rpido! Na verdade nem ficaram noivos. Ademais, de que 
maneira? Ela no tinha ningum a quem Betinho fosse pedir sua mo em casamento e le tambm no tinha parentes a quem valesse a pena apresent-la como noiva. Pelo 
que lhe contara, tinha alguns parentes distantes no interior de Minas e uma irm casada em So Paulo, com a qual no s dava porque ela queria governar sua vida.
J na primeira vez que saram juntos, Betinho convidou-a para ir dormir com ele num hotel. Lucimar recusara e demonstrara at um certo medo dele, mas Betinho sentiu 
sua precipitao e desconversou. Depois do terceiro ou quarto encontro porm, tornou-se to insistente que ela achou melhor no se encontrarem mais. Longe de se 
aborrecer, Betinho dera uma gargalhada e propusera:
-        Bem... j que tu s durona, por que  que a gente no casa?
No, Lucimar j sofrera bastante para ter veleidades de enganar a si mesma. Quando ela descobrira tudo, Betinho j no era como antes mas ainda no chegara ao ponto 
em que chegou. A verdade  que, at ali, Lucimar ainda no pensara no erro que cometera, casando-se com ele. Foi depois da noite em que le chegou nervoso e irritado. 
Nem ao menos se dera ao trabalho de esconder que tivera complicaes com a Polcia. Estava to fora de si que ela achou melhor no perguntar mais nada. Na manh 
seguinte, quando pendurava a roupa no armrio  que encontrou as listas de bicho. Betinho no lhe deu tempo nem de raciocinar. Estava a observ-la, e quando ela 
apanhou as listas e viu do que se tratava, levantou-se e arrancou os papis de sua mo, a gritar:
-        Sou bicheiro sim. E da?
Deu-lhe um bofeto to violento que ela foi contra o espelho, rachando-o.
-        Agora vai me denunciar  polcia, sua besta - e saiu do quarto como uma fera..
Que injustia aquilo. Sua nica reao fora chorar e nem de longe lhe passou pela cabea a idia de denunci-lo. Naquela manh Lucimar acusava a si mesma e no a 
ele.
Mas depois foi diferente. O espelho rachado refletiu o rosto angustiado de Lucimar, enquanto ela ouvia as unhas do negro Mixaim arranhando a porta dos fundos, tentando 
abri-la.
Correu para l gritando:
-        No, Mixaim, no. Betinho quer me matar...

4

BETINHO COMPROU a ficha na caixa mas no se dirigiu imediatamente ao balco. Esperou que o bar estivesse momentaneamente vazio e s ento dirigiu-se para o lugar 
onde Lucimar descansara o bule, aguardando novos fregueses. Ela colocou uma xcara sobre o balco e Betinho puxou conversa:
- Voc sabe, Gatinha, caf me bota nervoso. Este  o segundo caf que eu vou tomar em menos de dez minutos. Assim eu acabo neurastnico.
Lucimar achou graa no pretexto que ele arranjou para falar com ela, mas ficou calada; puxou o aucareiro e colocou perto dele, para que se servisse.
-        Por que voc no mexe o meu caf com o seu dedinho? Garanto que vai ficar mais doce que todo esse aucareiro.
- O senhor prefere sem acar?
- Eu vou ter de tomar este caf?
- O senhor comprou a ficha, no foi?
-        Mas foi pra falar contigo. Gatinha. 
- Pra falar comigo no precisa ficha.
-        timo. J fiz uma economia. Quando eu sair devolvo a ficha na caixa. .. Olha, a que horas voc pula este balco para o lado de c?
Lucimar riu e Betinho no perdeu tempo:
- Diz, camaradagem... a que horas voc deixa o servio? Se voc no disser eu vou ficar aqui tomando caf at voc sair. E ai eu j estou to nervoso que a gente 
vai direto pro hospcio.
- U... eu tambm?
- Claro. Daqui por diante voc s vai onde eu for.
- Ah ? E eu posso saber onde o senhor vai?
- O senhor no. Voc... Meu nome  Alberto. Mas como voc j est passeando de baby doll na intimidade do meu corao, pode me chamar de Betinho.
E, antes que Lucimar fizesse qualquer observao:
- O meu plano  muito simples. Voc me diz a que horas se livra desse conta-gotas (e apontou para o bule). Ai eu venho te buscar e a gente foge.
- Foge? Foge pra onde?
- Pra um lugar que s eu sei... deserto, que s vendo. Mas vamos s ns quatro: eu, minha cantada, voc e sua boa vontade, t?
Betinho tanto insistiu com Lucimar que ela concedeu em dizer a hora em que deixava o trabalho. Ela recordava-se bem desse dia porque resolvera no ir  aula de datilografia. 
No juntara o dinheiro suficiente para pagar a quinzena, ficara com vergonha s de pensar. Se a secretria do curso viesse cobrar e ela tivesse de dar uma desculpa...
Lucimar sempre fora assim. Foi a sua maneira de ser, a sua intransigncia contra tudo que no obedecesse a uma perfeita retido de honestidade que a levara a denunciar 
Betinho  Polcia. E dessa vez, talvez mais do que nunca, estava agindo certa de sua honestidade. Sua inteno era regenerar Betinho, era fazer dele um pai digno 
de seu filho. A vida irregular do marido j era um tormento constante para ela. Pouco depois de ter a certeza de que estava grvida, Betinho revelou de maneira to 
intempestiva a sua verdadeira atividade! Lucimar quase enlouquecia de pensar naquilo. Foi ento que resolveu denunci-lo  Polcia; era para o bem dele e de todos. 
Voltaria para casa recuperado e seu filho no seria o filho de um marginal, um contraventor, um bicheiro.
Mas isto foi muito tempo depois.
Naquela tarde, depois que Betinho saiu do bar, prometendo voltar s 7 horas para apanh-la, meditou muito no que estava fazendo, examinou a situao sob todos os 
prismas e chegou  concluso de que no havia mal nenhum em aceitar o seu convite para um passeio, um jantar ou algo assim. No estava certa das intenes do rapaz, 
mas tinha confiana em si mesma. Ela sabia o que queria.
De resto, sempre soube. Aos 12 anos, quando viera morar no Rio, j pensava com mais cabea do que qualquer das moas mais velhas que conheceu na grande cidade. Conseqncia 
dos alicerces de uma educao que lhe impunha o Tio Pedro, o irmo de sua me que queria ser padre e estudava no seminrio de Mariana. Todos diziam que ele era um 
santo e Lucimar queria ser como ele, que a ensinara a ler, a escrever, incutira-lhe o amor  justia e  firmeza de carter. Muito criana ainda, ela aprendera a 
no tergiversar, o resto, a vida difcil no ambiente hostil lhe ensinou, transformando-a numa mulher intransigente, escondida naquela moa simples e de aparncia 
dcil.
O pavor, o quase pnico que sentiu, ao sair do bar e encontrar Betinho na esquina! Mil vezes, naquela tarde, dissera a si mesma: "veja bem o que voc vai fazer", 
mil vezes se explicara. E quando se aproximou dele, a naturalidade com que lhe segurou no brao e disse:
- Vamos. . .
.. . aterrou-a. Mas Betinho nesse tempo, pelo menos para ela, no era ainda o bandido que ela mesma apontara  Polcia e que fugira da priso e agora rondava a casa, 
para mat-la. Nesse tempo ele era o rapaz que segurou seu brao e foi caminhando pela Praa Mau, perguntando se ela queria ir a um cinema.

5

BOCO aproximou-se mais uma vez da cadeira onde Mixaim mal se continha sentado:
-        Voc fez tudo sozinho, Mixaim. Voc esperou que Betinho sasse de casa, entrou l e quis pegar a moa  fora, ela gritou e voc matou-a. Depois esperou
que escurecesse e jogou-a no matagal. Diga: no foi isso?
E Boco sacudiu o ombro de Mixaim, cujo corpo comeou a escorregar da cadeira para o cho. Um dos investigadores sustentou-o e colocou Mixaim sentado outra vez.
-        No adianta, Boco. - disse ele: - Est desmaiado novamente.
- Amarra o corpo na cadeira e vamos descansar um pouco. Quando ns voltarmos ele confessa o que a gente quiser.
Boco deu a ordem, apanhou o palet que estava pendurado num cabide no canto da sala e foi saindo. Atravessou um longo corredor mal iluminado e abriu outra porta,
do outro lado. O barulho que vinha da sala de espera do comissrio invadiu seus ouvidos. Boco passou tambm por essa sala, onde um monte de pessoas se amontoava,
umas sentadas nos bancos dos cantos, outras em p, aos grupos, conversando, contando casos, explicando coisas. Eram pessoas envolvidas em processos, testemunhas
de ocorrncias policiais, investigadores de folga, reprteres, etc.
Boco no olhou para ningum. Atravessou a sala e entrou no gabinete do comissrio Agostini sem bater. Fechou a porta atrs de si e o barulho quase que sumiu por
completo. Agostini estava no telefone, com ar preocupado.
- Mas sem dvida alguma, seu Generoso - dizia ele balanando a cabea, como se o aparelho pudesse ser testemunha de que ele concordava com a pessoa que estava do
outro lado da linha. Boco percebeu logo que Agostini falava com o banqueiro Generoso. Quando o comissrio levantou a cabea para ele, esticou o lbio inferior e
tomou um ar preocupado tambm, a demonstrar que j sabia com quem Agostini falava.
- Claro que estamos investigando... estas coisas so assim mesmo... Sim, li... todos os jornais. Os reprteres no me largam... O senhor manda... J deve ter confessado
sim. Pois no. O senhor ser informado. Um abrao.
Desligou o telefone e perguntou a Boco:
- Como , o cara deu o servio?
- Ainda no.
- Mas como? - perguntou o comissrio, alteando a voz, mas logo olhando para a porta e baixando o tom, ao lembrar-se que os reprteres estavam do outro lado da parede.
Passou a falar mais baixo, mas sem esconder a preocupao que a informao de Boco lhe causara:
- Eu sei de fonte limpa que esse tal de Mixaim estava na curra. Obrigue esse merda a falar, homem. Voc no acabou de ouvir o Generoso reclamando? - e apontou para
o telefone. - Os jornais esto berrando, falando em corrupo na polcia. le est uma fera, j mandou o advogado tirar Betinho daqui. Quer a confisso do crioulo
hoje, agora... est entendendo? Agora - e batia com os ns dos dedos na mesa, desabafando para cima do subalterno toda a raiva contida durante o pito que o bicheiro
lhe passara.
E, com a voz sufocada pela torrente de palavras que dissera, deu a ordem:
- Baixem o cacete no crioulo que ele fala.
- No momento no adianta, chefe. No momento ele no fala nada.
- Hem?
- Ele est desacordado.
- Hem? O qu? - Agostini esbugalhava os olhos como querendo ver para crer: - Desacordado? Mas ele  a nossa salvao e voc quer mat-lo? Eu quero que voc me consiga
uma confisso e no um cadver... Voc... voc... - Agostini engolia os argumentos, roxo de apoplexia.
- Calma, chefe - falou Boco, serenamente: - O negro no morre. Apenas est descansando um pouquinho. Ns vamos voltar dentro de alguns minutos para l e ele j
est to afinado que confessa at que foi ele quem matou Kennedy.
- Voc sabe, ao menos, o que est me dizendo? - Agostini pareceu mais calmo.
- Hum-hum - assentiu Boco e, caminhando para a porta: - To certo que o senhor j pode dar uma colher-de-ch a esses fofoqueiros. Diga-lhes que a Polcia j prendeu
o culpado e espera a sua confisso do crime da... Como  mesmo que a imprensa apelidou essa curra?
- A moa do matagal.
- Isto... diga que a Polcia resolver ainda hoje o crime da... da moa do matagal.
Botou a mo na maaneta da porta e perguntou:
-        T?
O comissrio concordou. Boco abriu a porta e disse, para os reprteres da ante-sala:
-        Senhores, o Comissrio Agostini tem uma boa informao a lhes dar.
Um monte de reprteres e fotgrafos se precipitou em direo  porta, entrando por ela, enquanto Boco tomava o sentido contrrio, para voltar  sala de interrogatrio.
-        Quem  o assassino?
- Prenderam o criminoso?
- Quem  ele?
As perguntas choveram sobre o comissrio Agostini que acabara de adotar um ar complacente para atender os representantes da imprensa.
- Por favor, senhores. Um de cada vez - Agostini sentado na borda de sua mesa, acendeu um charuto e aguardou um silncio relativo para falar:
- Os senhores sabem que a Polcia no dorme. Ontem  tardinha prendemos um cidado que estava bbado e fazendo arruaa num caf da Rua Carolina Machado. J tnhamos
informaes seguras de que esse cidado estava envolvido no assassnio da Sra. Lucimar Barroso.
- Ele est envolvido ou  o criminoso? - perguntou um reprter magricela, de rosto espinhento.
- Provavelmente  o criminoso. Fizemos diligncias no local do crime e chegamos  concluso de que o criminoso era um s.
- Mas nas primeiras diligncias a Polcia concluiu que deviam ser uns dois ou trs, pelo menos.
Todos os outros reprteres concordaram com a observao feita pelo secretrio da pgina policial de um matutino de grande circulao e, por isso mesmo, considerado
ali naquela rpida e indisciplinada assemblia, como figura importante.
O comissrio olhou para ele quase com raiva:
- A Polcia tem direito de tirar quantas concluses quiser at chegar  verdade, meu velho.
- Quem  esse suspeito no 1? - voltou a perguntar o de cara espinhenta.
- Ainda no posso revelar seu nome para no prejudicar as diligncias. No momento oportuno os senhores tero permisso para v-lo, se quiserem. Agora  impossvel,
ele est sendo interrogado.
-        Est sendo interrogado ou espancado?
A pergunta viera de um mulato magrela como o espinhento. S que um pouco mais alto e com jeito de gozador. Agostini ficou ofendido:
- O senhor respeite minha autoridade. Eu posso prend-lo por desrespeito e posso process-lo por calnia. Nesta delegacia nunca usamos de recursos ilcitos para
obter uma confisso.
- Ele est brincando, doutor - disse algum e Agostini agarrou-se logo  desculpa, para encerrar a entrevista.
- Estou certo que a maioria dos senhores sabe que eu no admito espancamentos, pois j me conhecem bem... E agora, por favor, meus amigos, me deixem trabalhar que
eu estou cheio de servio. Podem publicar isto por minha conta: dentro de 24 horas a Polcia resolver o caso da moa do matagal.
Comentando baixinho, resmungando dvidas, os reporteres e fotgrafos foram saindo do gabinete do comissrio Agostini.

6

LUCIMAR, com as mos sobre os lbios, para reprimir um grito, de olhos arregalados, viu Mixaim arrombar a porta e, com o impulso que dera contra ela, entrar aos
trambolhes pela cozinha, quase caindo ajoelhado junto dela.
- A senhora est louca, D. Lucimar? Quem quer matar a senhora?
- Betinho - disse ela num sussurro: - Ele veio para me matar.
Mixaim botou a mo sobre o seu ombro, para ganhar sua confiana, como um campeiro que alisa o cavalo antes de lhe deitar o cabresto sobre o lombo.
-        Como "qui" a senhora pode pensar isso dele? Betinho fugiu, vai ter de se esconder... se arrisca vindo aqui para se despedir. .. e a senhora - Mixaim olhou
em volta, como a buscar argumentos para levar Lucimar at ao matagal.
Era a sua misso. Seu Generoso mandara que ele levasse D. Lucimar at ao matagal. Farah e Abel iriam curr-la, ele tambm poderia se aproveitar. Seu Generoso permitira,
com toda aquela raiva que estava de D. Lucimar, dissera a ele, Mixaim, que se aproveitasse bastante:
-        Faam o que quiserem com ela. Mas no esqueam de dizer que fui eu que mandei. Que  pra essa puta nunca mais se meter com meus homens.

O banqueiro Generoso ficara uma fera quando soubera que Betinho - um dos seus melhores homens - estava preso. Estavam todos na sua principal "fortaleza" de Madureira,
iniciando a corretagem de apostas, quando Abel chegou com a novidade:
-        Betinho foi preso pela turma da ronda do comissrio Agostini.
-        O qu???
Generoso no acreditava que Agostini tivesse peito para prender Betinho. Telefonou pessoalmente para o comissrio e, ao ouvir o que Agostini lhe contou, ficou mais
furioso ainda:
-        Escuta, Agostini: eu lhe pago para que proteja meus homens ou  para voc prend-los e tirar onda de honesto para essa corja da imprensa? - a pergunta escapara
de sua boca com voz sibilina, denotando a raiva que mal conseguia conter.
Agostini procurou acalm-lo:
-        Sinto muito, mas eu no poderia fazer outra coisa. A mulher dele esteve aqui na minha sala, na frente de vrias testemunhas, e dedodurou ele... foi logo
dizendo que o marido era bicheiro. Trouxe vrias listas de bicho que confessou ter tirado do bolso dele. ..
-        Mas como. ..
-        As listas, felizmente, eu j dei sumio nelas. Mas ele eu tive de deter para averiguaes.
- Essa vagabunda! - foi tudo que conseguiu dizer Generoso.
- Vamos ver o que se pode fazer. De qualquer maneira ele vai ter de ficar aqui uns dias.
-        Quanto tempo?
-        Alguns dias, eu creio... Mande seu advogado telefonar para minha casa. D-se um jeito.
Generoso bateu o telefone com dio. Chamou Mixaim porque sabia que o crioulo conhecia a mulher de Betinho e ia muitas vezes em sua casa. Ele mesmo j se servira
de Mixaim para mandar recados a Betinho. Chamou Abel e Farah - dois dos seus homens nos quais podia confiar - e foi logo explicando.
-        Betinho foi trado pela mulher.
Os trs se entreolharam.
-        Ela foi pessoalmente  delegacia acus-lo de contraventor. Essa prostituta  um perigo para ns todos e precisamos dar uma lio nela. Mas uma lio firme,
que  pra ela no esquecer nunca mais.
Pelo seu rosto passou como que um vislumbre de luz. Alguma coisa passara pelo seu pensamento e se refletia em seu rosto. Olhou para Farah:
-        Turco, voc ainda tem aquela navalha?

Como naquela tarde em que conhecera Betinho, Lucimar passara a manh toda pensando na atitude que ia tomar. Eram quase 11 horas quando ele chegou bbado, cambaleante,
com o palet debaixo do brao, a gravata de lao aberto, e cuspindo para os lados, como fazia sempre que abusava do lcool. Deu um pontap na porta e entrou.
Lucimar estava sentada  mesa redonda que ficava no centro da sala, com um tacho de barro no colo, descascando batatas. O susto que tomou com a entrada intempestiva
do marido, quase a fez saltar da cadeira, derrubando o tacho. Ficou parada, olhando para ele.
Betinho atirou o palet sobre uma cadeira e cuspiu no assoalho:
- Que ? Estou bbado sim, e da?
- Eu no disse nada - respondeu Lucimar.
-        No disse, mas pensou. Para mim  a mesma coisa - e tornou a cuspir.
Lucimar colocou o tacho em cima da mesa e levantou-se. Sua inteno era ir buscar um pano na cozinha para limpar o cho cuspido. Betinho, no entanto, deu-lhe um
empurro que a fez cair sentada outra vez na cadeira:
-        Eu fao o que eu quero, est ouvindo? Se eu quiser beber eu bebo, se eu quiser trepar com outra eu trepo. Morou? Voc j me encheu, t bem? - e ia cuspir
outra vez, quando Lucimar respondeu:
-        Ao menos pare de cuspir no cho.
Betinho olhou-a surpreso e com raiva:
-        Quer que eu te cuspa na cara? Quer? - e fez meno de dar-lhe uma bofetada.
Lucimar desviou a cabea e a mo dele passou de raspo pelo seu nariz. O impulso do brao desequilibrou-o e ele cambaleou de novo, mas aprumou-se a tempo e, j de
costas para ela, caminhou em direo ao quarto, rindo o riso fcil dos embriagados.
Lucimar ouviu o ranger da cama, quando ele deixou-se cair sobre ela. Sabia o que ia acontecer; o que vinha acontecendo h tempos. Ele dormia algumas horas (s vezes
no dormia nem uma hora), levantaria de mau-humor. Os melhores dias eram aqueles em que ele se levantava sem nem olhar para ela e saa logo para se encontrar com
os outros bicheiros .
Ela apanhou o palet que ele deixara sobre a cadeira e revistou-o. Tirou algumas cdulas amassadas de um dinheiro sujo e velho, colocou no bolso do avental. Continuou
procurando e encontrou algumas listas de bicho, num dos bolsos de dentro.
Examinou-as com cuidado, depois foi at ao quarto e colocou o palet sobre as costas de uma cadeira. Olhou mais uma vez para Betinho e percebeu que ele j dormia
a sono solto. Colocou um pano na cabea e as listas de bicho na bolsa. Saiu sem fazer barulho.
S conseguiu ser atendida depois de j estar sentada naquela sala h uma hora. Um guarda fez-lhe sinal. Ela levantou-se e entrou na sala do comissrio Agostini.
-        Em que posso servi-la, minha senhora? - quis ele saber apontando-lhe uma cadeira, delicadamente.
Era para o bem de Betinho. Tinha certeza de que agindo assim iria regener-lo. Mesmo com uma poro de pessoas ali, algumas inclusive parecendo interessadas na sua
presena, tomou flego e disse:
- Vim fazer uma denncia. Meu marido  bicheiro.

7

MIXAIM ESTAVA sentado na ponta da cadeira, com os braos apoiados nas coxas, o corpo vergado para a frente e a cabea baixa. O suor que escorria de seu rosto, misturava-se
ao sangue que brotava dos ferimentos e, em sulcos brilhantes ora mais ora menos iluminados pela lmpada que pendia do teto e balanava perto dele, desciam at ao
queixo e pingavam no cho. A porta da sala de interrogatrio se abriu e Boco entrou, acompanhado de um dos investigadores. O que ficara ali, tomando conta de Mixaim,
olhou para os recm-chegados, mas o negro nem se mexeu, mantendo a posio a que a estafa o obrigara.
- Pronto! - exclamou Boco - aqui est seu depoimento e a confisso. Basta assinar.
Como se tivesse combinado os movimentos, um dos investigadores suspendeu a lmpada, o outro levantou a cabea de Mixaim, que teve um leve sobressalto, e Boco colocou
o papel  sua frente, sob a luz.
Mixaim correu os olhos pelas primeiras linhas e j avidamente percorreu as do meio. Antes mesmo de ler o final do depoimento o pnico voltou ao seu rosto inchado:
-        No foi isso que eu contei! Eu no estava sozinho! Abel e Farah estavam l... Eu no planejei nada. Foi seu Generoso que.. .
Seu protesto foi cortado pela ponderao de Boco:
- Quer ficar morando aqui pra sempre, metendo Generoso nisto? Ou prefere que ele te ajude?
Uma esperana pareceu animar Mixaim:
- Seu Generoso j sabe que eu fui preso?
- Claro que sabe. J deve estar providenciando advogado - a voz de Boco era contida, o policial procurava ser persuasivo: - Mas se voc se considerar culpado, 
claro. Ou voc acha que ele te ajuda se voc acusar ele?
- Mas no foi assim como est ai... No foi.
- J no interessa mais saber como foi, seu burro. Interessa a melhor maneira deles poderem te ajudar. Tu no compreende isto no?
-        Seu Generoso falou pra eu assinar? - Lgico.
Mixaim apanhou a caneta que um dos investigadores lhe estendeu. Sua mo tremia e seus olhos piscavam para fixar a vista. Uma outra cadeira foi colocada  sua frente
e o papel estendido nela. Mixaim vergou mais o corpo e assinou vagarosamente, com sua letra rebuscada de bicheiro, com sua caligrafia de semi-alfabetizado.
-        A barra t limpa a no corredor - disse Boco, enquanto examinava a assinatura, com ares de entendido: - Levem o acusado  enfermaria.
Os dois investigadores - um de cada lado - levantaram Mixaim, cujas pernas bambas no queriam sustentar o corpo. Cambaleou e ia caindo. Os investigadores fizeram
mais fora e conseguiram suster seu corpo. Um deles olhou para Boco.
-        Tem ningum no. Pode arrastar.
Os investigadores esperaram que Boco abrisse a porta e foram arrastando Mixaim sala afora. Ao transporem a porta ele levantou um pouco a cabea para dizer num sussurro,
quase num gemido:
- No foi assim no. No foi!

Mixaim conseguira ficar at jovial. Enquanto Lucimar olhava para ele de olhos arregalados, encolhida num canto da cozinha, apanhou displicentemente uma banana do
cacho que estava num prato, no centro da mesa, descascou-a e comeu, enquanto falava:
-        Eu conheo ele, D. Lucimar. Se a senhora no for l fora, ele vem aqui e a sim, a senhora pode se considerar culpada da priso dele.
-        Ele no est zangado?
-        Zangado? Se ele tivesse zangado no vinha se despedir da senhora, uai!
Lucimar ficou pensativa um instante e ele se aproveitou de sua indeciso. Colocou a casca da banana na mesa, caminhou at  porta e disse:
-        Passe, dona... Eu dou um jeito de fechar isso.
Lucimar rodeou o quintalzinho e saiu pela picada em direo ao matagal, sentindo a guarda que Mixaim exercia sobre seus movimentos. Caminhava devagar, com um pressentimento
a frear-lhe os passos.
-        Mais depressa; ns num tem muito tempo no...  logo ali...
Lucimar comeou a caminhar no meio do matagal e estancou de repente, certa de que fora enganada. Sentiu o empurro que Mixaim lhe deu e perdeu o equilbrio, mas
uma mo forte tapou-lhe a boca antes que pudesse gritar. Ela ainda teve tempo de reconhecer Abel e sentir que havia uma terceira pessoa por perto, mas jogaram um
monte de terra em seus olhos e no pde ver mais nada. Um leno era fortemente atado  sua boca e o grito que tentou dar, quando a mo de Abel escorregou por seus
lbios para ser substituda pelo pano, transformou-se num abafado gemido.
Lucimar no via, mas sentia. Mesmo debatendo-se com todas as suas foras no pde impedir que um deles lhe arrancasse o vestido, enquanto os outros a seguravam como
garras possantes e invencveis.
- Tire a calcinha tambm - disse o desconhecido. E a mo implacvel que acabava de arrancar seu soutien, enterrou as unhas dolorosamente em seus quadris para puxar
suas calas. Lucimar tentou cruzar as pernas para impedir que as calas descessem, mas um dos lados se rompeu e a mo correu para o outro lado, puxando com tanta
fora que ela sentiu os pedaos dilacerados da fazenda correrem entre suas coxas deixando-a completamente nua.
- Quem "qui" vai primeiro? - perguntou Mixaim, e antes que ela compreendesse a pergunta que ele fizera, sentiu um corpo vido estender-se sobre a sua nudez.
Ento era isso? E Lucimar debateu-se o quanto pde, sentindo pedras e gravetos do cho irregular arranharem suas costas at que um violento soco, muito mais violento
que os tapas de Betinho, tirou-lhe momentaneamente os sentidos.
Quando comeou a perceber que as foras lhe voltavam, percebeu tambm que Mixaim se servia de seu corpo como um porco, resfolegando sobre seu rostq e terminando
por dar um gemido de gozo que repercutiu dolorosamente em suas entranhas.
-        Pronto... agora deixa eu sangrar essa vaca.
Lucimar identificou a voz do terceiro homem que a currava, notou que Mixaim se levantava e que ningum a segurava. Fingiu que continuava desacordada e, quando pressentiu
que Mixaim se levantara, deu um pulo com todas as foras que conseguiu reunir, ajoelhando-se no cho e abrindo os olhos arranhados pela terra. Viu e reconheceu Farah
no terceiro homem, que caminhava para ela com uma navalha aberta. Alucinada de dor e dio reconheceu tambm o objeto a pouca distncia, o revlver que um deles devia
ter tirado da cintura para melhor se servir dela. Pulou em sua direo ao mesmo tempo em que a navalha de Farah luzia na semi-escurido.
Caiu de bruos com a mo perto da arma, mas seu esforo fora intil; dois tiros soaram e ela sentiu como que duas chicotadas nas costas. Sua cabea foi repousando
lentamente sobre o brao direito estendido no cho e um calor bom comeou a envolver esse brao. Um calor que contrastava agradavelmente com o frio que sua nudez
provocava, um calor que ela no percebia, mas era provocado pelo sangue abundante que escorria do imenso corte aberto pela navalha em seu rosto.
Lucimar notou que um deles apanhava o revlver ao seu lado e se juntou aos outros dois. E l iam os trs correndo l longe... graas a Deus. .. graas a Deus...
graas a...

8

BENEDITO DA CONCEIO, vulgo Mixaim - dizia o Comissrio Agostini aos reprteres amontoados em torno de sua mesa, enquanto os flashs iluminavam o seu rosto.
- Ouvi dizer que ele foi preso por acaso - disse um dos reprteres.
- No foi bem assim - contestou Agostini - ele j era o nosso suspeito nmero um, quando foi preso numa arruaa, num botequim da Rua Carolina Machado. Interrogado
pelo detetive Martins, que  um dos meus melhores homens e que eu tinha escalado para as diligncias...
-  o Boco, n? - perguntou outro reprter.
- Ele mesmo.  um dos meus melhores homens. O interrogatrio nem precisou ser muito longo. O suspeito contou tudo. Cometeu o crime porque queria se vingar de um
ex-parceiro de bicho, um tal de Betinho, que era o marido da vitima.
- Mas esse Betinho no est preso?
- Estava preso para averiguaes. A princpio julgamos que ele fosse o criminoso. Segundo os vizinhos o casal brigava muito. Ele podia perfeitamente ter assassinado
a mulher, jogado no matagal e criado todas aquelas pistas falsas, para baratinar a Polcia.
Agostini deu todas as informaes que os reprteres pediram e esperou que eles fossem embora para chamar Boco. Mal o detetive entrou na sua sala, perguntou se Betinho
j tinha sido libertado e, ante a resposta afirmativa, pegou o telefone e ligou para Generoso:
- Quem deseja falar com ele? - perguntou a vez do outro lado.
- Diga-lhe que  Agostini.
- Um momento!
Generoso, refestelado numa poltrona do seu escritrio, estava rodeado de vrios capangas. Pegou o fone, virou a chave de ligao que isolava o aparelho das outras
extenses e atendeu. Falou muito mais tranqilamente com Agostini do que da ltima vez. S se irritou quando o comissrio perguntou se seu advogado ia se interessar
por Mixaim:
-        O qu? - berrou incontinenti: - De maneira nenhuma. Bota esse crioulo em cana pro resto da vida, pra deixar de ser safado.
Mas logo mudou de entonao, ouvindo o que o outro dizia:
-        Pode deixar que eu mando providenciar.
Desligou o telefone e, virando-se para Betinho, que estava sentado num sof ao lado de Abel, falou com ar paternal:
- Betinho, o corpo da moa continua no Instituto Mdico Legal. No foi reclamado por ningum - e tirando um molho de chaves do bolso, jogou-o na direo de Betinho,
ordenando:
- Pegue o carro e v l.
Betinho pegou as chaves no ar.
-        Identifique-se como o marido da morta - props Generoso - faa a coisa com jeito. Quero um enterro de primeira.
Sorriu com sinceridade e concluiu:
-        Ela merece!

A Desquitada da Tijuca

1

ESSE GORDUCHO vai encostar a sua barriga nojenta em mim durante a viagem toda - pensou Marta, tentando mais uma vez conseguir um pequeno espao entre a sua bem torneada 
anca e a barriga do passageiro gordo que viajava ao seu lado, em p, no nibus. O homem olhava-a de olhos vidrados, inclementes e pedintes, um incmodo olhar que 
Marta, com o que lhe restava de senso de humor, mentalmente classificou de "olhar de badejo de geladeira".
- Um pouco mais  frente, por favor - gritou o trocador, quando o nibus parou e mais um lote de passageiros entrou naquele pequeno espao onde parecia no caber 
mais ningum.
O nibus ps-se novamente em movimento e o solavanco da partida atirou os passageiros uns contra os outros. Marta foi involuntariamente de encontro  barriga do 
gordo, que abriu-se num sorriso obsceno. Ela virou o rosto contrariada e seu olhar cruzou com o do homem suarento que estava em p entre dois bancos prximos, tendo 
 sua frente uma velhota baixotinha, carregada de embrulhos. O homem piscou para ela, sem a menor cerimnia. Marta baixou os olhos resignadamente e esperou a prxima 
parada, onde - felizmente - deveria saltar.
O nibus manobrou pela Praa Saens Pena e parou rente  calada, derramando um monte de pessoas, entre as quais Marta e o homem suarento, que a seguiu alguns metros, 
dizendo-lhe gracinhas e fazendo propostas que mereciam como resposta - no mnimo - um sonoro e bem aplicado bofeto. Marta parou diante dos cartazes de um dos muitos 
cinemas da praa e o homem ficou indeciso entre parar ao seu lado ou seguir o seu caminho sem chamar a ateno. Acabou optando pela segunda atitude, j que o jeito 
dela era de quem ia arremessar-lhe a bolsa na cara.
Livre de seu perseguidor, que parou na esquina seguinte e ainda a observava, enquanto passava um leno pela testa, Marta caminhou mais alguns passos e entrou no 
grande edifcio  sua esquerda. Soubera por Gilberto que ali, no stimo andar, aceitavam inscries para senhoras e senhoritas entre 18 e 30 anos, que desejassem 
ser recepcionistas na grande feira industrial que o governo do Estado programara para dali a alguns meses.
Marta Ferreira, 27 anos, uma filha de 9, um pequeno apartamento de fundos numa rua transversal da Tijuca, um ex-marido, uma vida chata.
Lanou-se do elevador pelo corredor do edifcio e logo deu com o balco de informaes onde um funcionrio acabara de atender a uma mocinha. Esta afastou-se do balco 
ao mesmo tempo em que Marta se aproximava.
- Boa-tarde.
- Boa-tarde, minha senhora.
- Por favor...  aqui que se faz inscries para...
-        Para recepcionista da Feira Industrial - interrompeu o funcionrio, solcito: -  aqui mesmo, minha senhora.
A primeira providncia  o preenchimento de uma ficha.  a senhora mesma a candidata?
-        Sou sim.
-        Perfeitamente - concordou o funcionrio, apanhando uma ficha e colocando-a sobre o balco, disposto a preench-la: - Seu nome, por favor.
- Marta Ferreira.
- Residncia?
- Rua Dona Delfina, 19 - apartamento 302.
-        Aqui mesmo na Tijuca, no? - perguntou ele enquanto escrevia.
-  sim...
- Tem telefone?
- 58-1153.
- Sua idade, por favor.
- 27 anos.
- Brasileira?... do Rio?
- Sim.
- Estado civil?
- Desquitada.
O funcionrio parou de escrever e levantou os olhos, despindo-a vagarosamente.
-         s? - perguntou Marta, visivelmente incomodada.
-         sim, beleza - respondeu o funcionrio, com um sorriso meloso a escorrer pelos cantos dos lbios.
Marta virou as costas para retirar-se mas - sbito - mudou de idia. Virou-se novamente para o balco, apanhou a ficha num gesto rpido e disps-se a caminhar no 
rumo dos elevadores.
-        Hei... - exclamou o homem: - Deixa a fichinha aqui.
Marta virou-se de novo: - V  merda... e caminhou resoluta, enquanto picava a ficha em pedacinhos.
Na verdade no chegara a pronunciar o palavro; apenas um movimento de lbios, mas j se arrependia do que dissera (ou quase dissera). Fora um extravasamento, uma 
ao impulsiva, causada por semanas e semanas de provocaes, sentindo a necessidade de se impor a si mesma e se impor aos olhos dos outros, mas em troca recebendo 
apenas galanteios fteis, propostas imorais e o mesquinho desrespeito pela sua situao de mulher desquitada.
Saiu do edifcio fazendo fora para no chorar e a claridade da praa deixou-a um pouco tonta. No caminhara ainda dois passos na calada, quando sentiu um vulto 
se aproximar e algum pegar o seu brao.
- Como ? Fz a inscrio?
- Gilberto! Que susto voc ia me dando.
- Que cara  essa?
Marta tentou disfarar, tentou sorrir, mas Gilberto j percebendo a sua perturbao: - O que foi que houve?
- No houve nada. Ou por outra, houve o de sempre.. O funcionrio que me atendeu, quando eu disse que era desquitada, comeou logo a se fazer de assanhado; eu j 
no agento mais isso. Larguei tudo e vim embora...
- Calma, companheira. .. Voc est queimando leo demais. Vamos at ali tomar um sorvete e baixar essa temperatura.
Marta foi caminhando ao lado do amigo e vizinho em direo ao Caf Palheta, enquanto dizia que no podia demorar. Duas amigas prometeram visit-la antes do jantar. 
Gilberto, porm, caminhava resoluto explicando que passara ali justamente porque ela dissera que iria inscrever-se quela hora. Sua inteno era comemorar a possibilidade 
dela ser aceita como recepcionista da feira industrial com um sorvete monstro, um bruto sorveto. Se tinha entrado areia nos planos dela, que no estragasse os seus. 
Tomariam o sorveto de qualquer maneira e pronto.
Quando Gilberto pediu o complicado sorvete ao garom, Marta j ria Je sua explicao ao rapaz que acabou concordando em trazer dois sorvetes "com tudo que se bota 
em sorvete".
- E agora - disse Gilberto, fazendo-se mais srio: - Gonta l que vexames so esses que a pudica jovem tem sofrido dos trogloditas do asfalto.
- Seu bom-humor simplifica as coisas, Gilberto... mas a verdade  que  difcil a uma mulher desquitada manter a dignidade nesta cidade onde cada homem parece ser 
um amante de planto. Por que ser que os homens pensam que toda mulher desquitada est doida para ir pra cama com o primeiro que a convida?
- Talvez porque o desquite lhes d a impresso de que a mulher ficou sem dono.
- ... talvez seja isso. Mas eu no vejo por que uma mulher tenha necessariamente de ter um dono.
- Voc se sente feliz sozinha?
- Eu no sou sozinha. Eu tenho minha filha.
- Ora, Marta.. .
-        Sim, entendo o que voc quer dizer. Mas quando eu me separei de Haroldo no foi por querer ficar sozinha. Foi por no poder mais ficar com ele, voc entende?
-        Claro...
-        Claro? No sei se est claro, Gilberto. . . Meu ex-marido foi o primeiro a no acreditar nisso - Marta sorri com mal disfarado amargor. - Era um pssimo 
marido, mas nunca desconfiou disso, eu acho... Quando nos desquitamos as coisas se transformavam de dia para dia. Hoje ele queria o desquite, concordava com meus 
planos... no dia seguinte me ofendia com perguntas idiotas, perguntando qual era o homem que estava por trs daquilo tudo. Voc  meu vizinho, Gilberto. Vizinho 
e velho amigo da famlia, sabe melhor do que ningum que no havia homem nenhum - novo sorriso de Marta. - Ele era o nico homem que eu no queria que pensasse assim...
-        Por qu?
- Ento voc no v? Todos os homens se acham no direito de me tentar porque me consideram sem homem... Aquele que era o meu homem desquitou-se de mim convencido 
de que eu tinha outro homem.
- E voc acha que se tivesse outro homem os homens em sua volta sossegariam seus respectivos periquitos?
Marta desta vez riu com gosto: - Sei l... acho que sim. Veja o caso do meu chefe, na repartio: enquanto eu fui casada parecia at que eu no existia para ele. 
Agora, todas as tardes eu tenho de inventar uma desculpa porque o velhote quer me trazer em casa no carro dele.
-        Ele est querendo a sua promoo.
-         o que dizem minhas colegas, todas unnimes em achar que eu devo ceder. Isto, pelo menos, serviria para apagar o fogo dos colegas.
Marta ficou por um momento pensativa, remexendo com a colher o sorvete que mal provara, depois deu um suspiro e pareceu acordar:
- Chi... falar em colegas, duas delas vo jantar comigo. Precisamos ir embora.
- Voc nem tocou no sorveto - observou Gilberto, apontando o sorvete de Marta com a sua colher. - Coma ao menos a cereja - e apanhou a cereja com a prpria colher, 
colocando-a na boca de Marta...

2

Eu ADORO azeitonas! - exclamou Estelinha, colocando uma azeitona na boca a falar, enquanto mastigava.
Estelinha, uma das colegas de Marta que jantava com ela, em seu pequeno apartamento. Magrinha, feiosa, ligeiramente maledicente mas com boas intenes, no fundo. 
Um certo rancor contra a humanidade, experincias amorosas fracassadas, todas movidas pelo seu natural espevitamento diante dos homens, amiga inseparvel de Alade, 
que vivia com J. Pereira Gomes, negociante em secos e molhados, grande comerciante e sonegador de produtos alimentcios, que lhe dava vida mansa, slida ajuda material 
e uma indubitvel satisfao na cama, a julgar pelos reticentes suspiros que fazia questo de salpicar no ambiente, sempre que se referia a ele. Pereira Gomes era 
casado, vrios filhos em idade universitria e tinha dias certos para satisfazer a exuberante Alade.
- Azeitonas me engordam, mas o Gomes vive mandando latas e mais latas de azeitonas l pra casa - disse esta, com certa inveja da magreza de Estelinha.
- Vai ver ele te quer gordinha - atalhou a outra, enquanto cortava a carne que tinha no prato.
Sentindo que a conversa ia descambar mais uma vez para o nico assunto que as duas amigas debatiam com ela - homens - Marta disse para a filha, que estava muito 
quieta,  mesa:
-        Filhinha, voc j acabou. Pode ir ver televiso.
A garota, que achava aquelas duas chatssimas, levantou-se aliviada e com um discreto "d licena", correu para a sala contgua para ligar a televiso, cujo som 
pouco depois se misturava  conversa das trs.
Alade, vendo a menina sair, esperou que ela sumisse atrs da porta e, fazendo um sinal de cabea em direo  ela, comentou com Marta:
- Breve voc h de transferir todos os seus problemas para ela.
-  a vida - concordou Marta.
- A vida no  s isso no - garantiu Estelinha, cruzando os talheres - Voc precisa deixar de ser boba, Marta. Na flor da idade, metida aqui dentro como uma condenada. 
Credo! - e benzeu-se.
- Gente querendo tir-la daqui  que no falta - Alade fez um ar de mistrio, que logo se desfez: - Ainda hoje o chefe insistiu de novo em saber coisas a seu respeito. 
Ele est taradinho por voc...
- T na cara - confirmou Estelinha: - Ele est babando e boba  voc de no se aproveitar. Dizem que, no tempo em que le era chefe do Departamento de Pessoal, teve 
um caso com uma das funcionrias. At apartamento deu a ela - e, virando-se para Alade: - Lembra-se, queridinha. .. era uma ruivinha que depois casou com um tenente. 
Na ocasio todo mundo sabia do caso.
- At promovida aquela sirigaita foi.
- Sirigaita ou no, soube aproveitar. . .
Da outra sala uma voz de locutor anunciava pela televiso: Aproveite os bons momentos da vida, fazendo do Talco Jasmim a delcia do seu banho.
Sentada na cabeceira da mesa, entre as duas amigas, Marta parecia assistir a uma partida de tnis, virando a cabea ora para uma, ora para outra, enquanto elas tentavam 
catequiz-la para as suas teses a respeito de homem.
-        Voc pensa que o Gomes tem iluses a meu respeito? Pois sim (a msica da televiso fazia fundo s suas palavras)... e Alade continuou classificando o Gomes 
na ordem das coisas: - Ele no pode se queixar de mim. Me d de um tudo,  verdade. Sempre me ajudou muito, mas se no fosse assim j teria levado um fora. Eu soube 
me defender e Estelinha  testemunha de que eu trabalho s para poder manter minha independncia em relao a ele...
-        Lgico - reforou a outra.
- A vida de hoje  diferente, Marta... Eu hem? At mesmo essa coisa de ficar mal vista acabou.
- Se acabou... a ruivinha do chefe era at bajulada pelos outros funcionrios. Tudo que queriam com ele, pediam a ela para arranjar. E ela nunca se fez de rogada.
Quem no tem marido caa com marido dos outros. ..
Agora era a melosa voz de uma garota-propaganda que o alto-falante da televiso enviava para a sala de jantar: Pea a ele, que ele lhe d, minha amiga.  uma geladeira 
fabulosa. E logo um jingle que falava em "maridinho  o maior" deu seqncia  fala da locutora.
-        Ah... - exclamou Estelinha, dando um pulinho de alegria por se ter lembrado: - Sabe quem tambm vive a dizer que est apaixonado por voc? O Jorge...
- Que Jorge?
- Olha a desentendida...
- Jorge Freire - ajudou Alade.
- O que confere as faturas do interior. . . No  possvel que voc ainda no tenha reparado nos olhares dele...
- Claro que j reparei, mas ele perde o tempo dele. Ele tem a cara de sagi - e Marta riu.
- Mas  um timo rapaz.
- Pelo menos  trabalhador.
-        Isto mesmo. No sei o que voc est espetando, querida... S na repartio h dois para escolher...
Outra vez a voz do locutor: Com um a senhora j est se habilitando mas com dois a senhora dobra as suas chances de ganhar este maravilhoso carro.
Elas no pareciam ouvir o som que vinha da outra sala, agora invadida por uma marcha marcial que anunciava o telejornal. O prefixo do programa de notcias tomou 
conta da sala, enquanto Marta juntava os pratos para lev-los  cozinha. Estelinha, que ajudava a empilhar a loua, props?
- Eu te ajudo a fazer o caf.
- No precisa. J est pronto. 
Alade ainda insistia:
- Eu, se fosse voc, ficava de olho nele.
- E agora, voc... est de olho no mundo - anunciou uma voz cuidadosamente empostada.
- Abaixa essa televiso, minha filha - gritou Marta, encaminhando-se para a porta da pequena cozinha onde entrou, seguida de Estelinha. As duas comearam a depositar 
os pratos e copos sobre a pia e Estelinha, tomando um ar confidente, segredou  outra:
- O Jorge jura que voc deve ter um amor secreto e por isso no d bola pra ningum.

3

MARTA BATIA uma carta na mquina de escrever, alheia ao burburinho da repartio e nem percebeu quando o telefone tocou, numa mesa prxima. Uma das moas atendeu
e gritou para ela:
-        Marta,  pra voc!
Meia espantada ela levantou os olhos ao ouvir seu nome.
-         pra voc repetiu a colega, mostrando-lhe o fone que ainda tinha na mo. Em seguida depositou-o sobre a mesa e voltou para o seu lugar.
Marta levantou-se e sentiu que o barulho comum s reparties, barulhos de mquinas de escrever e calcular, vozes, passos, etc. diminuiu consideravelmente. Seria 
impresso sua ou era sempre assim? O telefone tocava raramente para ela, mas a impresso que tinha era a de que, sempre que isso acontecia, os colegas ficavam em 
suspense, como a querer adivinhar quem era. Nessas ocasies ela se detestava por deixar transparecer sua confuso. Nem sequer olhou em volta com medo de encontrar 
o olhar de algum fixo em seus movimentos, como a espreit-la. Viu quando a colega que atendera o telefone, ao passar pela mesa de Estelinha, que a interrogava com 
o olhar, disse baixinho:
-         voz de homem.
Marta atendeu o mais discretamente que pde. Afinal no era nem um conhecido seu. Apenas um funcionrio de uma outra seco, pedindo uma informao. Foi com andar 
muito mais firme e decidido que voltou at sua mesa, apanhou uma pasta e voltou ao telefone. Retirou um papel da pasta j com coragem bastante para examinar o ambiente 
em torno e notar a decepo estampada em vrios rostos. Leu ao telefone algo que o funcionrio lhe perguntara e desligou o aparelho, voltando para seu lugar. Antes 
de recomear a bater  mquina, notou que junto  mesa de Jorge Freire, Dilermano conversava. Nem Jorge nem ele tomavam o cuidado de no deixar perceber que o assunto 
era ela.
-        O telefone tem tocado mais para ela, ultimamente.
- S bobo, rapaz - reagiu Jorge  insinuao do outro: - Voc no viu que era assunto de trabalho?
- Vai me enganar que voc acredita que ela  uma santa?
- Tomara que no, porque as minhas intenes com ela so as piores possveis.
- Isso, velhinho, insista, embora eu ainda ache que aquilo  muito fub pro seu angu.
- Chi... l vem o homem! - exclamou Jorge, vendo o chefe se aproximar de sua mesa. Dilermano fez-se mais insignificante do que realmente era. Como que curvou-se 
na sua submisso de puxa-saco, sorriu para o chefe e apressou-se a retornar ao seu lugar. Jorge baixou a cabea e recomeou o seu trabalho de separar as faturas 
para cobrana no interior.
O chefe parou perto de sua mesa, sem nada dizer. Apenas um leve ar de reprovao deixava marcado um risco nos cantos dos lbios. Rodou em torno, imponente, como 
um galo majestoso a tomar conta da criao, num imenso galinheiro. Sempre de palet, que no tirava nunca, sua gravata bem posta e uma elegncia forada, que o ventre 
proeminente prejudicava. Era desses homens de higiene exagerada, de unhas feitas, onde o verniz transparente brilhava desagradavelmente. As tmporas grisalhas, os 
cabelos penteadssimos e um perfume de gua-de-colnia nacional que evolava de sua figura, o chefe dava-se uns toques de importncia superior ao seu cargo e ele 
talvez achasse que assim era, mas jamais seria capaz de admitir tal coisa.
Toda a repartio parecia voltada para o trabalho. O galo majestoso pareceu satisfeito em ver as galinhas ciscando no terreiro. Passeou ainda um pouco a sua importncia 
pelo corredor entre as mesas e encaminhou-se para o outro lado. O galo ia fazer a corte  sua franga favorita.
-        Como , D. Marta, muito servio? - ele parou ao lado de Marta, no mesmo momento em que Dilermano olhava para trs, em direo  mesa de Jorge, para ter 
a certeza de que o outro estava tambm atento ao namoro do chefe. Com um lpis preso fortemente aos dentes e um olhar furioso, Jorge no fazia outra coisa seno 
observar a cena.
Sem parar de bater  mquina ("se eu ficar batendo, ele talvez v embora" - pensava ela) Marta, levantou o rosto e respondeu:
- Hoje o movimento no foi to grande. O contador mandou saber novamente o nmero do memorando que o senhor enviou anteontem. Eu acho que eles perderam a cpia.
- Deixe que eu providencio isso, D. Marta. Lembre-se do que eu lhe disse. A senhora j  uma excelente funcionria, no precisa se preocupar com a tarefa dos outros.
Marta no respondeu. Tirou o papel da mquina e fingiu que conferia o que estava escrito. O chefe abriu mais o seu sorriso:
- De mais a mais, se o movimento hoje no est grande, a senhora sair na hora normal e vai me dar o prazer de lev-la em casa.
- Muito obrigada, mas saindo daqui eu no vou para casa. Tenho de fazer umas compras para minha filha.
-        Sozinha?
- Com ela. Vou apanh-la na porta do colgio.
- Neste caso eu a levo l.
-  a duas esquinas daqui. O senhor no precisa se preocupar.
Marta usou aquela frmula que as mulheres sabem dosar para no serem nem impertinentes, nem agradecidas. Para um homem como o chefe, a situao, dali para a frente, 
ficaria insuportvel, no somente pela maneira como ela pediu para que ele no se preocupasse, num tom de quem encerrava o assunto, como tambm porque o chefe sabia 
- mesmo parecendo no se preocupar muito com isso - que toda a repartio estava com a ateno voltada para sua conversa com Marta.
-        Voc sabe que pode dispor de mim - disse ao afastar-se para o seu gabinete particular, ousando um tratamento mais intimo propositadamente. Assim - acreditava 
ele - ela notaria o seu pesar em no poder continuar a conversa.

4

MARTA SALTOU do nibus junto com Estelinha. As duas caminharam at  esquina e enquanto a amiga falava ainda do embevecimento do chefe, que observara muito bem enquanto 
os dois conversaram na repartio, ela deixava o pensamento num ponto vago, a que j se acostumara, sempre que o assunto no lhe agradava. Respondia uma ou outra 
pergunta que lhe fizessem, nessas ocasies, com a preciso de quem estava atenta...
-        Quer dizer que ele quis te trazer em casa outra vez, hem?
- Hum... - fez Marta, desta vez deixando-se trair.
- O chefe, u. .. Voc mesma no me disse?
-        Ah sim, claro.
- Puxa, mas a desculpa que voc deu, dizendo que ia buscar a menina e entrou no nibus comigo nas bochechas dele.
- Que bem me importa, Estelinha. Ele que se dane - Marta parou em frente ao prdio onde a amiga morava, no mesmo quarteiro do dela e no deixou que o assunto prosseguisse. 
Beijou-a numa das faces e disse:
-        At amanh.
Estelinha ia dizer ainda qualquer coisa, mas resolveu em contrrio. Recebeu o beijo, devolveu-o e, virando-se para entrar no prdio, disse apenas:
-        Tchau!
Marta foi andando pela calada. Um rapaz passou por ela e virou-se para examin-la melhor, seguindo em sentido contrrio. Ela entrou no seu prdio, subiu os trs 
degraus da portaria e entrou no elevador.
No via Gilberto desde a tarde em que tomara o sorvete em sua companhia, no Caf Palheta. Surpreendia-se agora ao notar que no dera pela sua falta e preocupou-se 
ao admitir que no ouvira qualquer som no seu apartamento, nos ltimos dias. Mas quando saiu do elevador, no andar em que ambos moravam, deu com Gilberto no corredor, 
com uma xcara vazia na mo, bem em frente  porta de seu apartamento.
-        Ol! - exclamou ele, alegre: - Ia bater  porta de minha bela vizinha, na esperana de merecer um pouco de acar. Minha dispensa  de uma ineficincia 
brbara.
Marta sorriu  presena amiga:
- Pois no. Toda a minha usina de acar est  sua disposio. - E, enquanto abria a porta, perguntou: - Onde voc tem andado que sumiu do convvio dos bons?
Os dois entraram pela pbrta aberta por Marta e, enquanto ela colocava a bolsa num aparador, Gilberto sentava-se largamente num sof:
- Estive em Cabo Frio - respondeu, entregando a xcara vazia a Marta, que se encaminhou para a cozinha, sempre conversando:
- Hum, muito bem... muito elegante. O distinto vai passar o vero fora, nesta temporada?
-        Quem sou eu, minha filha... Pobre no passa vero. Pobre v o vero passar.
A risada de Marta, da cozinha, ressoou na sala. E Gilberto prosseguiu:
-        Um amigo rico, cheio dos terrenos naquelas bandas, vai fazer um loteamento e eu vou ver se apanho uns tico-ticos na corretagem...
Maria j retornava com a xcara cheia e Gilberto, parando de falar, olhou em volta e quis saber: -- Hei... cad a minha namorada?
-        Terezinha? Foi passar uns dias com o pai - e entregando a xcara cheia ao amigo, no deixou que ele se levantasse logo: - Espera a, conte alguns episdios 
do seu gr-fino fim-de-semana.
Gilberto ficou pensativo alguns segundos, para logo atalhar:
- Sabe, Marta, depois daquela nossa conversa, eu andei pensando muito no seu caso.
- Que caso?
- Nos seus amantes de planto. Ainda so muitos?
- Oh isso? - e Marta no pde disfarar a onda de angstia que lhe assomou ao rosto: - Voc sabe? s vezes eu chego a pensar que uma mulher se acostuma  falta de 
respeito. Agora mesmo, da repartio at aqui, Estelinha veio no nibus desfiando as vantagens que eu teria com os homens que ela acha bons para meus amantes.
- Ah..., mas  preciso mais de um?
- Acho que o ideal alheio em relao  mulher desquitada parte do princpio de que quanto mais amantes, melhor.
- Mas aquela sua teoria talvez no esteja errada. Aquilo de que, basta a mulher arranjar um homem que os outros passam a respeit-la mais... Eu pensei muito nisso, 
como disse, e acho que posso resolver o seu caso, arranjando um homem rico pra voc... Calma, deixa eu explicar... Ns vamos inventar, entendeu... Esse camarada 
no vai existir, mas voc vai cultiv-lo at com cinismo, se for preciso. Voc. . .
- Voc ficou maluco, Gilberto? - interrompeu Marta.
- No comeo eu me fiz a mesma pergunta, mas depois o plano foi crescendo e a coisa foi ficando vivel. Deixa eu explicar: voc vai comear a ser assediada por um 
homem chamado, digamos, Prado. Anderson Prado, que um nome meio complicado ajuda na autenticidade do tipo... e depois, tem muito Prado rico em So Paulo. Claro, 
que o sujeito  um industrial paulista...
-        Mas homem, vamos com calma. ..
Gilberto, empolgado pela sua explicao, colocou a xcara na mesinha ao lado do div e tomou uma posio mais cmoda, diante da amiga que continuava perplexa:
- Bem, a idia inicial  criarmos um sujeito para seu amante. Um homem rico, poderoso, cheio de banca e meio misterioso, que isto se justifica pelo carter do personagem. 
Um tipo assim no pode estar se expondo muito como seu amante. Ele tem de ser casado, para justificar tambm qualquer ausncia...
- Anderson Prado! No existe uma fbrica de salsicha com este nome?
- Se existir a gente muda. Hamilton Prado tambm fica bacana. Parece nome de senador da UDN.
O entusiasmo de Gilberto s encontrava ressonncia no humor de Marta, que comeava a se divertir com aqueles planos. Gilberto percebeu que no estava sendo levado 
a srio e protestou:
- Voc pensa que eu estou brincando, Marta?
- E voc no est?
- Mas lgico que no. Hamilton Prado ser o homem capaz de lhe proteger contra o desrespeito dos outros. Talvez seja difcil para voc, no comeo, admitir diante 
de todos que tem um amante rico. Mas se voc se capacitar de que est agindo assim em defesa prpria, j tem justificativa bastante para continuar essa farsa.
- No sei se teria estmago para tanto.
- Ora, minha flor... voc acabou de dizer que uma mulher desquitada est prestes a se acostumar  falta de respeito. E no tenha dvida quanto a isso. Essa Estelinha, 
por exemplo, no fundo ela est interessada em lhe prostituir, mas com a melhor das intenes.
Marta admitiu com um suspiro que ele tinha razo. Antes irritava-se diante da insistncia das amigas em lhe arranjarem um homem, agora j aceitava com naturalidade 
a constncia do assunto, sempre puxado por Estelinha, Alade e outras pessoas que gozavam da sua intimidade; uma intimidade social, posto que Marta, principalmente 
depois que se separara do marido, aprendera a negar sua intimidade espiritual ao prximo.
Isto Gilberto percebera logo, como agora percebia que sua idia ganhava certa validade no ntimo de Marta:
- Pensa bem no que eu estou, dizendo - aconselhou ele: - Um homem em sua vida, para a sua vida sem homens. Um senhor rico e poderoso, que lhe presenteia e atende 
em tudo.
- Voc no vai me dizer que contratou um ator para o papel.
- A  que est.- Anderson Prado...
- Hamilton - corrigiu ela.
-        Hamilton Prado vai ser criado pela imaginao dos outros. Voc sabe que- eu sou teso, mas tenho amigos ricos. Posso perfeitamente arranjar um carro de luxo, 
com chofer de luvas, para ir lhe buscar na repartio, Voc receber telefonemas dbios, ganhar presentes fictcios, deixar sempre uma interrogao no ar, quando 
falar no seu amante.
Marta ficou pensativa um momento, depois - com um brilho novo no olhar, encarou Gilberto e disse:
-        J estou comeando a gostar de Hamilton Prado.


5

Uma Mercedes Benz rodava pelo asfalto macio da Avenida Presidente Vargas. Marta, confortavelmente instalada no banco traseiro, ainda se sentia surpreendida pela 
rapidez com que Gilberto pusera o plano dos dois em ao. Descera para o trabalho e  porta do prdio encontrara-o a conversar com aquele elegante motorista, fardado 
de azul-marinho, de quepe e luvas pretas, luvas que calou logo depois de sentar-se  direo do carro, para lev-la  repartio.
- Conhece aqui o meu amigo Lilico? - perguntou Gilberto a ela, mal Marta pusera o p na calada da rua.
Lilico tirou o qupi e apertou sorridente a mo dela, enquanto Gilberto explicava:
-        Ele vai levar voc  repartio. E amanh, em vez de levar, vai buscar.
Antes que Marta esboasse qualquer reao, Gilberto calou-a com um gesto e prosseguiu falando:
- Eu j expliquei a ele o nosso plano para vender as aes ao Dr. Almeida (e, piscando um olho para sua atnita, vizinha). Expliquei tudinho, que voc vai se fingir 
de moa muito rica, para que o Dr. Almeida pense que, comprando as aes est ajudando os pobres, o que no deixa de ser verdade, pois ns somos mesmo pobres e vamos 
ganhar uma boa comisso nessa venda.
- Dar uma ajuda ao Gilberto - disse Lilico, enquanto Gilberto ria com satisfao - s me d prazer, dona, Ns somos amigos de infncia.
- Fomos na infncia, somos agora, e tudo faz crer que seremos tambm quando ficarmos dois velhos borocoxs.
- Mas Gilberto eu... - tentou Marta, outra vez interrompida por ele.
- J est tudo resolvido. Entre no carro que Lilico leva - e empurrando Marta em direo ao carro, enquanto o motorista abria a porta - trate de impressionar o nosso 
pato.
- Pato??? - interrogou Marta, virando-se para trs.
- O Dr. Almeida.
- Ah sim
... e l ia ela agora, sentada e recostada no macio estofamento do carro, rumo ao seu modesto emprego, enquanto Lilico esclarecia detalhes  sua simples pergunta: 
- De quem  esta carruagem?
O carro pertencia ao General Pessoa, cujo filho fora colega de Gilberto e fora atravs desse filho que Gilberto arrumara o emprego para Lilico. Naquela manh o General 
fora a So Paulo, por isso o carro estava em disponibilidade, mas apanhar Marta  sada da repartio seria mais fcil do que levar;
- Ele nunca precisa do carro  tarde? - perguntou Marta.
- Quase nunca.  tarde ele vai sempre para um apartamento que ele tem na Avenida Atlntica e me d ordem para circular por longe, com medo de que a patroa veja o 
carro por perto e descubra onde  o apartamento.
-        U..., mas o apartamento no  dele?
-  dele, mas no  dela.  l que ele se encontra com essas desajustadas que ele arranja por a... Ambos riram e Marta observou:
- V l se voc vai se complicar com o General por minha causa.
- No h perigo. Ele geralmente fica l entre 5 e 7 da tarde. D tempo para ir lhe buscar, quando for preciso.
- Entre 5 e 7, hem? - repetiu Marta, balanando a cabea.
-        Pois . .. eu acho que ele no fica mais porque tambm j no  mais aquele - e Lilico abriu-se numa gargalhada contagiante, para logo fazer-se srio, enquanto 
olhava para o passeio, do outro lado da rua: - Bom. .. deixa eu ficar com cara de chofer, que ns estamos chegando ao lugar onde o Gilberto pediu que eu lhe deixasse.
O carro manobrou at  beira da calada, parou pomposamente e Lilico saltou para rodear pela frente e vir abrir a porta para Marta. Tirou o quepe e colocou-o sobre 
o brao esquerdo, abrindo a porta com a mo direita, numa mesura elegante, que chamou a ateno dos transeuntes. Marta desembarcou com um discreto "obrigada", que 
Lilico respondeu com uma no menos discreta piscadela e, enquanto ela entrava no edifcio da repartio, ele retomava a direo do carro e afastava-se acelerando 
o motor s para chamar mais a ateno dos que pararam para admirar o Mercedes.
Dilermano e Jorge tinham acabado de sair do caf e estavam filando as notcias sobre futebol no Jornal dos Sports pendurado na banca da esquina. Os dois tinham presenciado 
a chegada de Marta e mesmo depois que ela j sumira de suas vistas, permaneciam boquiabertos. O primeiro a falar foi Dilermano. Tirou o palito que tinha entre os 
dentes e perguntou, catucando Jorge com o cotovelo:
-        Voc viu o que eu vi ou eu no vi o que vi e estou imaginando que vi?
-        Vi - limitou-se a responder o outro.
-        Jorge, meu velho... pelo jeito voc no vai comer nem a ameixa daquele pudim.
Jorge no respondeu. Sua contrariedade era evidente. Respirou fundo e olhou com raiva em direo  entrada do prdio, por onde acabara de passar Marta. Dilermano 
no iria desperdiar to boa oportunidade para desenvolver a sua tese de que Marta era mulher demais para o colega.
- Uma mulher bem administrada vale mais que uma parquia, velhinho. Nossa coleguinha no  boba. Aquilo  carro de sujeito que tem mais renda que o Maracan em dia 
de Fla x Flu.
E como se tivessem combinado, os dois comearam a caminhar juntos e calados em direo  entrada do prdio.

6

DURANTE UNS QUINZE dias Gilberto fora perfeito naquilo que le chamava de "a cobertura do Dr. Hamilton Prado". Telefonava diariamente para a repartio e tinha sempre 
o cuidado de "anunciar-se" antes:
- Por favor - dizia le  pessoa que atendia o telefone, fosse quem fosse - a D. Marta pode atender? Diga-lhe que  o Dr. Prado, por favor.
Mais de uma vez Marta fora surpreendida com vistosos embrulhos cuidadosamente amarrados com laos de fita, trazidos  repartio por boys da companhia de investimentos 
onde Gilberto trabalhava. E Marta teve de refrear o riso quando chegou o primeiro presente, acompanhado de um carto onde reconheceu a caligrafia do vizinho. Gilberto 
escrevera: "Minha cara senhora, rasgue este carto em pedacinhos, aps ler acintosamente o que est escrito. E por favor, no abra o embrulho pois dentro dele esto 
apenas os meus chinelos, que a senhora far o obsquio de devolver quando chegar em casa. Seu admirador profundo: Hamilton Prado".
Agora fazia mais de uma semana que Gilberto estava fora do Rio, metido no negcio de terrenos em Cabo Frio, mas nem por isso relaxara "a cobertura do Dr. Hamilton 
Prado". Convencera uma parenta que tinha a voz da mais neutra das secretrias a telefonar periodicamente para a redao, perguntando invariavelmente:
-        D. Marta est?
E quando o funcionrio que atendia perguntava quem queria falar com ela, esta pergunta era indefectvel, tais eram os cochichos e bisbilhotices dos colegas em relao 
ao romance que Marta vivia com o importante personagem, a falsa secretria lascava:
-        Diga-lhe, por obsquio, que  do escritrio do Dr. Prado.
Quando Marta estava em sua mesa de trabalho, vinha atender e procurava ser natural ao telefone, para um rpido dilogo sempre sussurrado, como recomendara Gilberto. 
Se, por acaso, ela estivesse fora da repartio, por contingncias do servio, ao voltar encontrava os recados mais estranhos: "o Dr. Prado est almoando no Bife 
de Ouro e aguarda uma chamada de D. Marta at s 2 e meia"; ou ento "o Dr. Hamilton Prado pede a D. Marta que telefone para o Jquei Clube at s 4", ou ainda "o 
Dr. Prado pede desculpas a D. Marta, mas recebeu um chamado urgente do Ministro da Fazenda e no poder mandar o carro busc-la".
Lilico tambm desempenhava o seu papel a contento e, com regularidade cronomtrica, parava todas as tardes o carro  porta da repartio e quando Marta aparecia, 
muito digno, saltava e corria a abrir a porta com um sorriso subserviente. Depois iam devagar, conversando, porque Marta gostava de ouvir de Lilico os casos da infncia 
de Gilberto, suas travessuras, aventuras, desventuras, que o motorista tambm gostava de contar sem nunca se fazer de rogado.
Apenas uma vez Lilico no levara Marta at em casa e ela aguardava impaciente a volta de Gilberto de Cabo Frio para contar-lhe o ocorrido. Tinha certeza de que Gilberto 
daria gargalhadas.
Lilico, quando Marta desceu aps o expediente, abriu a porta correndo, voltou ao volante a toda pressa e arrancou com o carro numa velocidade inusitada. Ela estranhou 
a pressa, mas no teve tempo de perguntar nada. Na primeira transversal Lilico dobrou e encostou o carro na calada para, com ar preocupado, pedir desculpas:
- Voc vai me perdoar, nega. .. Mas hoje eu s pude fazer a figurao. No d tempo de levar voc na Tijuca.
- Por qu? indagou Marta, j preparando-se para saltar do carro: - O General hoje no foi ao apartamento?
- Foi... mas  que ele hoje foi com duas desajustadas. E quando le vai com duas ao mesmo tempo, ele no agenta at s 7.
Nessa tarde, para no ser surpreendida pelos colegas numa fila de nibus, depois de sair em to reluzente limousine, Marta tomou um txi.

7

MARTA, aqui esto as faturas que a senhora precisa para juntar quele relatrio.
Parecia incrvel que aquele rapaz de atitude respeitosa, que acabara de entregar uns papis a Marta e voltava para sua mesa com ar submisso fosse o mesmo Jorge Freire 
que, h menos de um ms aborreceu-a com seus olhares lnguidos e sorrisos impertinentes, o mesmo Jorge Freire que olhava para suas pernas sem procurar disfarar 
- pelo contrrio at - sempre que ela as cruzava distraidamente e sua saia subia um pouco acima dos joelhos.
A transformao dera-se em fases distintas e perfeitamente bvias. Quando Marta chegou pela primeira vez  repartio, levada por Lilico, a atitude de Jorge fora 
de estupefao e logo de desprezo. Seus cochichos com Dilermano no passaram despercebidos  Marta e os olhares raivosos que, de vez em quando atirava contra ela, 
eram assustadores. Mas isto no durou muito; a importncia do suposto amante da colega acabou por impor-se  sua mediocridade. Jorge tornou-se primeiro respeitador 
e agora era, alm de respeitador, servial.
Marta sorria interiormente com essa metamorfose, embora o que mais lhe espantasse fosse a transformao do chefe. Ele j tivera oportunidade de ver Marta sair  
tarde no carro do general Pessoa, mas muito antes disso, mudara o tratamento para com ela. Sem dvida alguns dos que faziam-se bajuladores para gozar de sua intimidade, 
j tinham ido contar coisas sobre o amante de Marta. Mesmo fechado dentro do seu gabinete o chefe soube que havia um milionrio paulista, industrial de altos negcios,
homem de grande influncia poltica, enfim o poderoso Dr. Hamilton Prado, na vida de Marta.
No princpio fingiu no tomar conhecimento e continuou com o mesmo jogo de antes. Julgava-se um conhecedor do mundo, o chefe de Marta. Acreditou que um homem to
importante no demoraria muito a perder tempo com uma simples funcionria pblica, ainda que - no seria ele a negar - mulher das mais apetitosas. Aquilo era caso
para uma semana, no mximo, e convinha manter suas pretenses. As semanas foram passando e os clculos do chefe se esfarinharam contra as paredes do impondervel.
Era preciso curvar-se ante os fatos. O Dr. Hamilton Prado era um homem de influncia extraordinria, segundo ouvira dizer. Marta mostrara-se sempre rebelde aos seus
rodeios. Vamos que ela se amofinasse com aquilo e fizesse alguma referncia s suas pretenses para com ela ao Dr. Prado? O homem podia ser vingativo; tinha poderes
para boicotar altas administraes, ao sabor de seus interesses, o que no poderia ento contra um simples chefe de departamento? No, em absoluto, no desdenhava
de sua prpria posio. Chegara ao posto com muitos sacrifcios e, por isso mesmo, no iria expor sua posio a uma intriga de amantes. De jeito nenhum. Pelo contrrio
- pensando bem.
Ele no era o chefe de Marta? Ento por que no usufruir dessa condio? Perdia a mulher,  certo, mas ganharia o conhecimento de um homem que poderia lhe valer
muito para futuras promoes.
Marta quase estragara tudo quando o chefe, depois de muitas insinuaes, chamou-a em seu gabinete e, aps uma ordem de servio, que ela, percebeu suprflua, muniu-se
de um ar bonacho e disse que, na vspera, estivera numa recepo onde fora muito elogiado o nome do Dr. Prado.
-        Como??? - estranhou Marta, numa interrogao onde quase revelou seu espanto pelos elogios a uma pessoa que ela sabia fictcia.
O chefe, porm, no percebeu assim. Achou que talvez ela estivesse encabulada de entrar no assunto. Mas lembrou-se que os dois andavam abertamente pelas boates de
Copacabana e insistiu: (Ainda desta vez fora coisa de Gilberto, que pedira a um cronista mundano conhecido seu, que desse uma nota em sua coluna, dizendo que o Dr.
Hamilton Prado tinha ido ver o show do Copa acompanhado pela deslumbrante Sra. Marta Ferreira.)
-        Sim, D. Marta. Ouvi belos elogios ao Dr. Prado, os quais eu endosso plenamente. Ele  realmente um grande progressista, um evoludo. No sei se a senhora
j teve oportunidade de citar meu nome em conversa com o Dr. Prado...
-        Bem eu...
- Sim, claro... ele no deve se lembrar de mim. Fomos apresentados rapidamente, no hipdromo da Gvea, durante um Grande Prmio. Eu fiquei muito impressionado com
a sua personalidade. Ele  um carter muito autntico, homem muito empreendedor.
- Eu tenho certeza que o Dr. Prado... que Hamilton deve se recordar desse encontro, mas na verdade, nunca falamos disso no senhor ~- e Marta apressou-se a deixar
o gabinete do chefe, mais abalada com o prprio caradurismo do que divertida com a situao que ela mesma criara.


8

GILBERTO PASSOU dois dias no Rio. Depois de tanto tempo, veio num fim-de-semana. Na verdade, no fazia tanto tempo assim, mas para Marta - cuja maior alegria era
estar com o amigo, coisa que ela ainda no se dera conta - os quinze dias que passou fora correram lentamente. Gilberto chegou alegre, querendo saber os resultados
do plano que haviam engendrado. Apareceu de surpresa na porta do apartamento de Marta, carregando um monte de embrulhos:
-        Oba! - exclamou por trs dos embrulhos, quando ela abriu a porta.
-        Gilberto! - gritou Marta, sem esconder a surpresa.
Terezinha correu l de dentro, a rever o amigo que, no meio daqueles pacotes, descobriu um especial, que entregou  menina, com uma jocosa dedicatria verbal:
-        A minha bela namorada Terezinha, oferece o seu Prncipe encantado. Gilberto, cada vez mais apaixonado.
A menina ruborizava sempre que era chamada de namorada e depois de abraar o amigo, afastou-se para abrir o embrulho, deixando os dois na sala, conversando. Marta
contou o sucesso do plano, os cochichos das colegas, os olhares invejosos de algumas e se deteve principalmente em detalhes, quando explicou a mudana de atitude
do chefe.
- Gilberto, o velho  to cretino, que j est insinuando uma intimidade com o meu Hamilton, para tirar proveito de to importante conhecimento.
- No duvido nada - concordou Gilberto. E passou a explicar que aqueles embrulhos eram todos de caixas de perfumes franceses. Caixas vazias, naturalmente, pois -
se estivessem cheias - ali haveria mais de um milho em mercadorias.
- Mas onde voc arranjou isso, rapaz? - quis saber Marta, a rir dos cuidados dele.
- Coisa do Mozinha. O Mozinha  um cupincha meu, que fazia uns contrabandozinhos na Praa Mau. Me apareceu no escritrio todo cheio de ataduras e pontos falsos.
Parecia que tinha brigado a tapa com uma ona. O Mozinha  gozado; quando eu perguntei o que era aquilo, le foi sincero: "Isso foi um safado de um guarda da Alfndega
que quis endireitar o Brasil pra cima de mim". Parece que o Mozinha ficou desgostoso com os problemas do contrabando e arranjou uma boa colocao em Madureira...
agora  bicheiro.
-        E essas caixas vazias so todas do Mozinha?
-        Eram. Agora so suas. Voc deve deixar num lugar bem  mostra para que as fofoqueiras vejam como voc recebe perfume francs do seu. . . do seu protetor.
Marta comeou a apanhar os embrulhos e ele, antecipando-se a ela, apanhou um dos pacotes e disse:
-        E para que as fofoqueiras no digam que voc recebe perfume francs, mas cheira  gua-de-colnia nacional, aqui est uma pequena contribuio deste seu
cmplice.
Marta apanhou o pacote e comeou a desfaz-lo nervosamente. Depois de rasgar o papel comum, por baixo havia outro papel, este colorido, igual aos que geralmente
se usa para embrulhar presentes. Marta rasgou-o tambm e deu com a caixa.
-        Hum... Cabochard. Este  o fino.
Mas ainda havia um papel celofane a rasgar. Marta rasgou-o e abriu a caixa onde, envolto em veludo vermelho, um ridculo frasco de perfume aparecia. Ela levantou-o
no ar e examinou-o com um olho s, fingindo estar em dificuldade para ver o que havia dentro do frasco.
E estavam ambos a rir do minsculo presente, quando Teresinha entrou como um raio pela sala a gritar:
-        Giba... que bacana... adorei a boneca - e atirou-se no pescoo de Gilberto, beijando-o.
Marta, que observava os dois, disse ento:
-        Mame tambm ganhou um presente.
-        Foi Me??? Ento por que voc tambm no beija ele?
Foi bastante embaraada que Marta disse  filha que fosse mudar de roupa para o jantar.

Nesses dois dias que passara no Rio, Gilberto levara me e filha ao banho de mar, na Barra da Tijuca. Viera com a camioneta da companhia e dera belos passeios com
elas. Marta recordava agora, passado uma semana, a conversa que tivera com ele na praia, enquanto Terezinha brincava na beira da gua. Os primeiros sintomas do que
ele previu, comeavam a preocup-la.
Lembrava-se bem quando ele lhe dissera:
-        No tenha dvida. Pode ser que entre as suas amigas haja alguma que esteja sendo sincera com voc, achando que voc realmente  muito moa, que deve procurar
se divertir, cultivar admiradores, enfim, essas baboseiras... pode ser; mas agora, que voc deixou entrever a existncia de um homem em sua vida, elas vo comear
a achar justamente o contrrio. Que voc  leviana, que voc devia ser mais discreta e antes mesmo que voc perceba, as mesmas pessoas que vinham com a conversa
de que voc precisava se livrar da condio de mulher desquitada o que, para essas pessoas,  sinnimo de mulher abandonada, vo reprovar sua atitude atual.
Marta, na ocasio, ouvia o que le dizia, deixando escorrer entre os dedos um punhado de areia e a preocupao de ento voltava agora, de forma mais contundente,
depois de ter surpreendido a conversa entre Estelinha e Alade, no banheiro da repartio, e depois de ter ouvido da filha o recado daquela briixa velha, me da
melhor amiga de Terezinha.
A conversa entre aquelas que pareciam ser suas melhores amigas no trabalho no chegara a ser surpresa para Marta. Duro fora ouvir e ter de ficar calada.
Estava se pintando a um canto do largo banheiro de senhoras da repartio, quando elas entraram conversando. Era um banheiro em forma de "L" e, na posio em que
estava, no podia ser vista pelas duas. A princpio no percebeu que falavam dela; elas estavam sempre falando de algum e com tal constncia que Marta muitas vezes
se ausentava da conversa e comeava a pensar em outras coisas, enquanto as duas falavam. Naquele momento porm, passava batom nos lbios quando percebeu que era
o centro da conversa.
-        Se voc mora perto dela, por que  que ela no leva voc no carro do amante? - perguntava Alade.
Marta j vinha sustentando a sua falsa situao a tanto tempo que a palavra "amante" colocava-a imediatamente de sobreaviso. Parou de pintar os lbios e ficou escutando,
a torcer intimamente para que no fosse ela o centro da conversa.
Mas isto era pedir demais quando s tratava de Alade e Estelinha.
-        Por qu? - perguntava Alade. E insistia: - Ser que ela tem medo de que voc roube o homem dela?
Esta hiptese pareceu alegrar Estelinha, que nunca tomara o homem de ningum e, provavelmente, jamais tomaria:
- Me disseram que os dois tiveram uma briga feia, numa boate de Copacabana e que ele levantou-se da mesa e saiu. Ela teve de tomar um txi para voltar para casa.
- Naturalmente  porque ela tem outros.
- Ora... na certa. Voc acha que ela ia agentar aquele velho sozinho?
- Ele tem o burro do dinheiro - observou Alade, e dando uma risada: - O velho d a bola e ela  que rebola.
- Eu sempre achei que Marta era santinha demais - ponderou Estelinha, muito mais preocupada em ser maldizente do que em achar graa da maliciosa observao de Alade.
Da para a frente Marta no ouviu mais, encostada aos ladrilhos frios da parede do banheiro, subitamente envergonhada consigo mesma, sentindo-se culpada da maldade
alheia, que ela mesmo fomentava, pedindo a Deus que as duas no a vissem ali e este sentimento sim - admitia ela agora - era o que mais a horrorizava.
Deitada em sua cama ela recordava esse angustioso momento de sua tarde e o momento no lhe parecia to lamentvel quanto o que lhe ocorrera havia apenas meia hora.
Indo ao quarto da filha para dar-lhe o costumeiro beijo de boa-noite, encontrara Terezinha chorando. Insistiu em saber qual o motivo do choro e ela, depois de muita
insistncia, explicou entre soluos que a me de Cristina - a melhor amiga da filha - proibira .as duas de voltarem juntas do colgio "porque a me de Terezinha
no presta".
E agora era ela, Marta, quem deixava as lgrimas correrem quentes, grossas e abundantes pelo seu rosto, molhando o travesseiro.

9

UM TELEGRAMA de Gilberto, assinando-se Hamilton Prado, o que demonstrava seu propsito de conservar o bom-humor em relao ao plano, ao contrrio de Marta que sentiu-se 
primeiro amedrontada com o rumo que tomavam os acontecimentos e agora estava presa de uma melancolia que abatia o seu nimo para enfrentar a dureza do cotidiano, 
informava que seu trabalho fora do Rio terminara e que, no dia seguinte, estaria de volta definitivamente, foi o primeiro alento de Marta, depois de todos aqueles 
dias em que se deixou, pouco a pouco, envolver pelo desnimo.
No dia seguinte voltou do trabalho num velho txi, que sacolejou do Centro  Tijuca, pelas esburacadas ruas da Zona Norte. Dispensara os favores do alegre Lilico 
desde os primeiros resultados negativos do seu "caso" com o industrial rico. Desde ento procurou sair da repartio ora mais cedo, ora mais tarde, para evitar dilogos 
com as colegas que fugissem aos assuntos do trabalho. Esta atitude - Marta tinha certeza - s poderia provocar novos comentrios e no duvidava nada que Estelinha, 
e todas as outras, estivessem a murmurar que ela, de repente, resolveu se fazer de sonsa para tapar o sol com a peneira. Mas pouco lhe importava o que pensassem 
dali por diante em relao a ela, o que era preciso - e este era o drama em que se debatia no desespero de se sentir culpada - era salvaguardar Terezinha dos comentrios 
desabonadores  sua pessoa. Telefonara para Haroldo e dera uma desculpa qualquer sobre a necessidade de permanecer fora de casa mais tempo, durante o perodo em 
que se dedicava a determinada tarefa que lhe haviam dado no trabalho, e pedira que o ex-marido ficasse com a filha alguns dias. O pai adorava Terezinha e recebeu 
o pedido com alegria. Ela, no entanto, sofria na solido do seu pequeno apartamento da Rua Dona Delfina, alimentando a sua vontade somente com a certeza de que a 
ausncia da filha era o primeiro passo para apagar na impresso do prximo a sua recente leviandade.
Foi com este estado de esprito que Gilberto encontrou-a, ao regressar ao Rio, naquela noite. Sentada na poltrona de sua sala, em frente ao amigo que fumava tranqilo 
 sua frente, espichado no sof, Marta chorou todo um leno, assuando o seu narizinho vermelho de quando em vez, contando desde os comentrios desairosos que ouvira 
at  injustia que a me de Cristina fizera com Terezinha.
Quando calou-se, Gilberto acendeu um novo cigarro, mantendo o ar risonho e despreocupado que conservou durante toda a narrativa. Marta no compreendia o alheamento 
de quem, afinal de contas, tramara aquele plano idiota, de resultados to lamentveis. E mais surpreendida ficou quando Gilberto, depois de soprar o fsforo e coloc-lo 
no cinzeiro, perguntou-lhe tranqilamente:
- Mas o que  que voc esperava disso tudo? - e como  no obtivesse resposta, fez um gesto no ar, como se quisesse apagar no rosto de Marta o espanto que nele se 
estampava: - No mundo de hoje nada se faz impunemente, meu bem.
At para respirar a gente paga e a vida  to cheia de... (Gilberto pareceu no encontrar o termo certo, mas logo prosseguiu)... to cheia de incongruncias, digamos 
assim, que quem nada faz paga um tributo maior ainda. Cobra que no se arrasta no apanha sapo, Marta.
Ela abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas pareceu desanimar a meio caminho da fala e nada respondeu, limitando-se a - mais uma vez - assuar o nariz no lencinho 
ridiculamente pequeno que amassava entre as mos trmulas.
- Voc no podia esperar que lhe atirassem ptalas de rosas por ter arranjado um amante - insistiu Gilberto, falando num tom quase paternal, o que irritou Marta.
- Voc esquece - falou ela, finalmente - que foi voc quem inventou toda essa esparrela em que ca, Gilberto?
- Eu estava procurando encontrar uma soluo para um problema latente.
- Se o problema latente, como diz voc, era o meu sossego, fique sabendo que o seu plano era uma droga.
- A  que est, meu bem. . . (Gilberto falava carinhosamente e levantou-se, tentando puxar Marta para o sof, mas ela permaneceu sentada, recusando o convite mudo 
com visvel contrariedade). Ser que voc ainda no comeou a compreender? - perguntou ele de p,  frente dela: - O plano era meu, confesso, e voc o aceitou porque 
vivia as contrariedades de seus primeiros meses de mulher desquitada. Mas no era um plano para o seu sossego. Era um plano para o MEU sossego, a minha segurana, 
a minha tranqilidade.
Marta levantou os olhos cheios de espanto: - Como assim?
-        Venha c, meu bem. Sente-se ao meu lado, aqui neste sof e oua o que eu tenho a lhe explicar e o perdo que eu tenho a lhe pedir.
Desta vez Marta deixou-se levar e acomodou-se no sof, sentando-se sobre as pernas, numa posio em que ficava meio de lado em relao ao mvel, mas praticamente 
de frente para Gilberto, que pegou o lencinho com dois dedos e depois de levant-lo no ar, atirou-o sobre a mesinha, pedindo:
-        Deixa esse lencinho pra l, que chorar no adianta o lado de ningum, e oua.
Sentou-se e falou:
-        Marta, quando estreitamos uma velha amizade eu lhe encontrei apavorada com a vida... Espera - pediu, notando que ela ia interferir.
Marta cruzou os braos e esperou:
-        Este  o termo, minha querida. Voc estava apavorada com a sua situao de mulher sem homem e assediada pelos drculas do sexo.
Marta no pde deixar de sorrir  comparao.
- Agora eu vejo que esse pavor era to grande que no lhe deixava perceber mais nada.
- Mais nada???
- Eu, por exemplo. Ento voc no nota que eu lhe adoro, sua boboca? Quando voc me disse que a mudana do seu estado civil nunca iria influir na sua honestidade 
diante dos homens... e voc mesma explicou que no via nisso nenhum sectarismo, pelo contrrio at, admitia a existncia futura de um homem. ..
- Claro...
- ...eu j tinha por voc o mesmo amor que tenho agora, meu bem. Mas como dizer isto naquela poca? Eu seria apenas mais um draculazinho na sua coleo. ..
- Oh meu querido - e Marta fz meno de apanhar o leno, esticando o brao para a mesa...
- Agora no precisamos mais de lgrimas - atalhou Gilberto impedindo-a.
- Oh meu querido - repetiu Marta - eu devia estar uma chata. Toda mulher exageradamente honesta  uma chata. Voc devia ter feito alguma coisa.
- Foi o que eu fiz, u? J que eu no podia dizer o que eu sentia; j que eu no podia nem tomar conta de voc, inventei a esse nossa amizade... Eu sou o Dr. Hamilton 
Prado, meu amor. Voc entende? De certa forma voc no pode negar que o Dr. Prado funcionou. Voc mestria me falava do respeito que le imps aos morceges...
- Oh meu amor - exclamou Marta, interrompendo Gilberto e atirando-se nos seus braos, para uma srie de pequenos beijos desordenados e felizes, atirados ao rosto 
do rapaz. De repente ela parou de beijar e, afastando um pouco o rosto sem deixar a cintura de Gilberto, falou num tom de gaiatice to comum s mulheres, em seus 
momentos de felicidade:
-        Mas neguinho, voc devia prever meus aborrecimentos todos.
Gilberto sorriu: - Por isso eu lhe disse que precisava de um perdo. Acredito que era o nico ponto fraco do Dr. Prado: deixar que os outros falassem mal de voc. 
Mas, coitado do Dr. Prado, ele teve uma morte so estpida...
-        Morreu como um passarinho - admitiu Marta, a rir.
-        E o mundo  assim mesmo... a mesma facilidade que usou para nos ajudar a criar o Dr. Prado, ele usar para fazer esquecer o falecido.
Nessa mesma noite em que ningum velava o Dr. Prado, Marta dormiu no mesmo prdio onde morava, no mesmo andar at. Mas, no apartamento ao lado.
Marta - como ela mesma admitiu - no era assim to sectria.

A Desinibida do Graja

1

QUANDO MARLENE foi morar na Avenida Jlio Furtado (Graja - Guanabara - Brasil) no houve homem das redondezas que no botasse os olhos nela. At mesmo o Pe. Ponciano,
que no morava no bairro, mas ia s quartas e sextas dar aulas de latim ao filho do sndico do prdio em frente, pois o rapaz tinha pendores para o seminrio mas 
era fracote nos segredos da chamada lngua mater; at mesmo o Pe. Ponciano - repito - ficava meio perturbado ao ver Marlene, to apetitosa ela era.
Marlene, alis Marlene Cardoso, 26 anos, loura, saudvel e bela, era moa moderna, talvez moderna demais para o bairro do Graja, conforme mais tarde se ver. Era 
carioca e sempre morara na Zona Sul. Primeiro Botafogo e depois o Leme, eram os bairros onde residiu por longos anos. No Leme passara os ltimos dez anos, num apartamento 
muito confortvel, que dividia com uma amiga. Essa casou, o aluguel aumentou e Marlene, sem poder fazer frente s despesas, resolveu ir para o Graja, lugar pelo 
qual tinha simpatias: sua me nascera e passara a infncia ali e morrera suspirando pela volta  quietude e ao bucolismo do bairro de origem.
A resoluo para a mudana, Marlene a tomou num instante. Ela era assim mesmo: decidida, exuberante e desinibida. No se metia com a vida de ningum, mas tambm
no admitia palpites na sua. Era pessoa muito socivel, mas quando vinham lhe dar conselhos suprfluos ou criticar suas atitudes, ela se transformava numa ferinha.
(E se vai no diminutivo  porque Marlene, mesmo zangada continuava bela.) Isto se provar mais tarde.
Por enquanto fiquemos nisto: Marlene resolveu mudar-se para o Graja levando o que era seu e, se no era muito, tambm no era pouco. Ela tinha alguns mveis, um
guarda-roupa razovel e, no mais, o curso ginasial, um fsico muito bonito e certo talento para representar, tanto assim que seu ideal era tornar-se uma estrela
de cinema. J tinha feito algumas pontinhas em alguns filmes e conhecia todo o pessoal que mexia com cinema. Da o no incomodar-se muito com a troca de bairro.
Realmente, morando no Leme, estava ali pertinho do restaurante La Fiorentina, onde os artistas e tcnicos, diretores e produtores de cinema nacional costumam cear. 
As mocinhas com pretenses s lides cinematogrficas tambm costumam freqentar o lugar, para serem vistas e no ficarem esquecidas. Marlene no pecisava mais disso. 
J era amiga de todos e - decidida como era - em menos de um ms conseguiu a transferncia de seu telefone. Se algum diretor precisasse dos seus servios, na certa 
a chamaria no Graja.
Ah sim... entre os pertences de Marlene no se deve esquecer o carro. Um Volkswagen azul que ela ganhou no concurso A Garota da Praia, promovido por uma fbrica 
de maios. Pois justamente tudo comeou a. Marlene era muito conhecida na praia do Leme, que freqentava muito e era pertinho de seu antigo apartamento, Nesse tempo, 
todas as manhs, ela ia tomar banho de mar, levando uma barraca de gomos coloridos, uma esteira em que se deitava untada de leo para queimar seu cobiado corpo. 
J nessa poca os homens olhavam muito para ela, ali estendida e semi-adormecida, com rdio transistor ligado, ouvindo um programa chamado Voc pede e ns atendemos.
Marlene no pedia nada, mas todos a atendiam. Os rapazes da praia vinham conversar, ofereciam sorvetes, refrigerantes e convites para cinemas e jantares. At que 
apareceu um moreninho meio afeminado, que trabalhava em publicidade e estava catando candidatas para o concurso. Ele conversou um pouco com ela e depois perguntou:
- Por que voc no se inscreve no concurso?
- Que concurso?
-        A Garota da Praia - disse ele. E explicou que o primeiro prmio era um carro, o segundo uma viagem a Buenos Aires com acompanhante, etc., etc. Da para 
a frente ele no parou de falar mais. Disse onde se fazia a inscrio, falou na possibilidade dela vencer o concurso e tanto a animou que Marlene concordou em se 
inscrever.
Marlene ganhou o primeiro prmio e, conseqentemente, o carro. O desfile final foi no Maracanzinho e a rapaziada do Leme compareceu com uma torcida organizada que 
deve ter influenciado no nimo do jri, tal os berreiros que promovia cada vez que Marlene passeava com seu andar elegante pela passarela, nas provas de seleo. 
No Rio h duas espcies de espetculos que arrastam multides para as arquibancadas dos estdios: futebol e desfile de mulher bonita. Em nenhum lugar do mundo um 
concurso de beleza consegue uma platia to grande e to entusiasmada. O pblico sada com ensurdecedora alegria cada gol de seu clube no Maracan e cada escolha 
de "miss" no Maracanzinho. Na noite em que Marlene foi eleita A Garota da Praia a platia delirou e estremeceu todo o estdio, pois os rapazes do Leme, com a sua 
torcida, acabaram por captar as simpatias gerais para a sua candidata.
Ela ganhou o carro e um convite para fazer cinema. No seu primeiro filme fez um papel muito insignificante, mas no segundo at falava um bocadinho, coisa que no 
chegou a marcar a sua presena no elenco, mas que serviu para a sua deciso de se dedicar  carreira. Por tudo isso: porque j era conhecida no meio artstico, porque 
tinha carro e podia estar em qualquer ponto da cidade quando bem entendesse, porque tinha um telefone onde seria facilmente encontrada e porque era um pouco sentimental 
em relao ao bairro, foi que Marlene mudou-se para o Graja. E quando Marlene foi morar ali na Avenida Jlio Furtado, num apartamento trreo de um edifcio onde 
o aluguel no era caro, no houve homem das redondezas que no botasse os olhos nela.

2

SEU EUGNIO tinha uma teoria muito interessante sobre essa coisa de espiar mulher e era essa teoria que ele expunha ao seu amigo e vizinho Arnaldo, poucos dias depois 
de Marlene ter ido morar no apartamento 101 do prdio em frente. Seu Eugnio morava no segundo andar e Arnaldo no trreo, ficando - por isso - estes dois condminos 
muito mais a par do que se passava na rua e na vizinhana do que os outros moradores do prdio. Da terem sido eles - seu Eugnio e Arnaldo - os dois primeiros a 
darem pela presena daquela moa realmente muito bonita, que tinha ide morar no prdio em frente.
Isto, pelo menos, era o que eles imaginavam, enquanto conversavam na sala do apartamento de seu Eugnio, que Arnaldo freqentava com certa assiduidade, pois mantinha 
um namoro mais ou menos platnico com a cunhada de seu Eugnio - Mariana. Seu Eugnio vivia no apartamento de frente do segundo andar (eram dois apartamentos por 
andar, no prdio em que eles moravam) com sua mulher e a cunhada. Mariana era solteirona e mais para magra, mas a mulher de seu Eugnio - D. Esperana - era gordssima. 
Gordssima, tinha buo e era ciumenta. Muito mais ciumenta do que gorda.
No entanto, numa rpida pesquisa, poderamos verificar
que Mariana teria muito mais razes para ser ciumenta do
que D. Esperana, pois seu Eugnio era um homem discreto
e com fama de sossegado, enquanto Arnaldo, que era vivo
e sem filhos, costumava, na calada da noite, arrastar mulatas
para o seu convvio, coisa que fazia com muito cuidado, mas
que j fora motivo de muito mexerico na vizinhana. E a
tal ponto que deixara de ser novidade e j era assunto morto
na boca dos outros. Talvez aqueles dois senhores que estavam ali na sala, conversando, tivessem famas opostas por
ser o dono da casa vigiado pela poderosa D. Esperana, enquanto que o visitante era livre e desimpedido, em que pese
o seu caso com Mariana. Mas esta, coitada, seria a ltima a
saber.        
O fato  que, estavam os dois conversando, quando Arnaldo perguntou:
- J viste que espetculo de garota est morando a em frente?
- No - mentiu seu Eugnio, que j estivera examinando a beleza de Marlene, atravs da persiana do quarto, na tarde da vspera, quando D. Esperana sara para entrar 
na fila da carne e Mariana fora  reunio semanal das Filhas de Maria.
- Pois vale a pena ver - acrescentou Arnaldo, dando um suspiro marotssimo: - Ela mora no apartamento de baixo e tem um carrinho azul. Costuma sair pouco depois 
do almoo. Usa cada decote brbaro. E que pernas, seu Eugnio, que pernas!
Seu Eugnio concordava interiormente. Eram, realmente, pernas magnficas, mas achou mais prudente no ratificar essa verdade diante do entusiasmo do amigo. Pelo 
contrrio, foi a que seu Eugnio comeou a expor sua teoria sobre olhar mulher. Acendeu um cigarro e ponderou:
- Pelo que vejo voc no faz outra coisa seno espiar a moa.
- Bem... voc sabe, eu tenho pouco o que fazer. Estou aposentado.
- Aposentado? - estranhou seu Eugnio.
- Aposentado no servio pblico, bem entendido - e Arnaldo deu uma piscadinha como a dizer que, para mulher, ainda estava em plena atividade.
- Pois meu velho... - comeou a doutrinar seu Eugnio, falando pausadamente: - ...eu sou da opinio que mulher que a gente no pode apanhar, o melhor  fingir que 
no v. Desde rapazote que eu tenho esta opinio e me dou muito bem com ela. Me lembro que quando ramos garotos e minha famlia morava num casaro ali na Rua Borba 
do Mato... onde hoje tem aquele mercadinho... meu irmo Eurico e outros garotos da vizinhana, descobriram que a filha do Gen. Souza tomava banho de janela aberta. 
O general morava ao lado, na casa d esquina. Do terrao dos fundos, protegidos pela folhagem das rvores do nosso quintal, eles todos os dias iam espiar a moa 
no banho. Pois seu Arnaldo, eu nunca fui. E sabe por qu? Porque eu sabia que aquilo no era fub pro meu bico. Pra que  que eu ia espiar a moa pelada e depois 
ficar imaginando coisas que no iam acontecer e que s iam me atormentar? No, Arnaldo... mulher a gente s deve olhar quando tem possibilidades de apanhar.
Seu Eugnio calou-se e ficou recordando a beleza da filha do general, hoje casada com um coronel. Arnaldo, ao contrrio, pareceu no dar maior importncia aos conselhos 
do outro. Manteve-se alguns minutos sentado na poltrona, fumando o seu cigarro barato e depois levantou-se para amass-lo no cinzeiro. Aproveitou que estava em p 
e foi at  janela, olhar o prdio em frente, a ver se via Marlene.
Nesse justo momento a nova vizinha encostava o carro no meio-fio e abria a porta para saltar:
-        L est ela - berrou Arnaldo, com a voz embargada pela emoo.
Seu Eugnio obedeceu ao instinto e deu um pulo da cadeira para debruar-se ao lado de Arnaldo, na janela. Marlene colocou as pernas para fora do carro e esfregou 
as coxas no assento, no esforo de levantar-se para sair. O vestido encolheu-se contra o forro do assento e sua saia subiu um palmo acima dos joelhos, o bastante 
para Arnaldo murmurar de olhos vidrados l pra baixo:
-        Nossa Senhora! Como  boa!
O santo nome da Virgem Maria, invocado na exclamao do vivo, no deve ser levado a conta de heresia. Apenas Arnaldo era mineiro e ainda conservava um pouco do 
sotaque e dos maneirismos coloquiais empregados no Estado de Minas.
Quanto a seu Eugnio, que era carioca e nascera ali mesmo no Graja, no tal casaro da Rua Borda do Mato, anteriormente citado, disse apenas:
- Se !        
E Marlene j dera a volta no carro e dirigia-se para a portaria do edifcio, um pouco chateada com a espionagem daqueles dois homens na janela em frente, que percebera 
ao sair do carro, quando - dentro do apartamento - ouviu-se o barulho de chave abrindo a fechadura. Eram D. Esperana e Mariana que voltavam das compras.
Seu Eugnio deu um pulo e caiu sentado na cadeira de balano; Arnaldo, como um raio, voltou para a poltrona, e Marlene - ao cruzar a portaria olhou para trs, certa 
de que aqueles dois bobocas continuavam a espion-la. A janela, porm, estava vazia.

3

MARLENE, olhando para a janela do segundo andar do prdio em frente, verificou que j estava vazia, mas se levantasse os olhos mais um pouco, at  janela do quinto 
andar, por exemplo, na certa teria percebido a brilhar contra a luz do sol as lentes de um binculo. Quem estava por trs do binculo talvez ela no conseguisse 
ver, pois as pesadas cortinas da sala obrigavam o cmodo a conservar-se sempre numa penumbra muito condizente com o gosto da sombria D. Leovigilda, a mulher do sndico.
Mas, por favor, no vos precipiteis. O Sr. Leocdio, marido de D. Leovigilda - e o casal era to leonino que ambos prestavam, no incio de seus nomes de batismo, 
uma singela homenagem ao rei dos animais - era um homem ntegro e de uma honestidade tamanha que - temos certeza - se fosse o tesoureiro da Liga dos Cegos, haveria 
de resentar o balano anual da instituio em alfabeto Braille. No era, portanto, o Sr. Leocdio que estava por trs do binculo. Quem tinha acabado de observar 
a entrada de Marlene e quase deixara o binculo se espatifar janela abaixo, quando metade de suas coxas ficaram de fora, ao descer do carro, era Ismaelzinho, filho 
do casal, o mesmo que tinha pendores para seminarista e tomava aulas de latim com o Pe. Ponciano.
Aquela no era a primeira vez que o demnio tentara Ismaelzinho para o pecado da luxria. No. Para falar a verdade, Ismaelzinho foi o primeiro morador da redondeza 
a reparar nos encantos de Marlene e a se deixar fascinar por eles, coisa que nunca lhe ocorrera antes. At ali Ismaelzinho tinha sido um filho enfadonhamente correto 
e que s dera alegrias aos pais.
Era magrinho e plido, de nariz adunco e pele ebrnea, que contrastava com o rosado doentio das faces, um rosado provocado pela abundante plantao de espinhas que 
a puberdade cultivava no seu rosto. Fora sempre um garoto tmido e bom aluno, completando o curso primrio e o ginasial com D primeiro da turma, coisa que muito 
orgulhava os dois Leo a ponto do Sr. Leocdio - de natural to seguro em questes de dinheiro - ter-lhe comprado, quando le terminou sua vida colegial, a coleo 
completa do Tesouro da Juventude. Pagamento  vista.
Agora, a presena de Marlene perturbava sensivelmente Ismaelzinho.
Embora fizesse disso um segredo que o apavorava, D. Leovigilda j havia percebido a mudana do filho e, por mais de uma vez, pegara-o em flagrante, olhando de binculo 
atravs da janela. Aquilo intrigou-a bastante e, da ltima vez em que o entrevira pela porta do corredor entretido com o binculo, fora disfaradamente para a janela 
do quarto e descobrira o motivo l em baixo, na calada, discutindo com um vassoureiro a compra de um espanador.
D. Leovigilda apertara os olhos rancorosamente e sua descoberta deixou-a com tanto dio, que sua reao foi uma palavra apenas, que pronunciou baixinho, entredentes:
-        Vaca!
Este episdio ocorrera j fazia uma semana e a correta senhora ficara to preocupada com ele que aquilo no lhe saa do pensamento. Conversara at com suas amigas 
do segundo andar - Esperana e Mariana - sobre a moa metida a moderna que estava morando no edifcio fronteirio:
- Vocs j viram a sirigaita que est morando a em frente?
- Sirigaitssima! - ajuntou D. Esperana, que tambm j tinha reparado em Marlene e no se agradara absolutamente nada da presena daquela mulher to bonita morando 
bem em frente  sua janela.
- Deve ser uma dessas prostitutas sustentadas por um "coronel" - aventurou D. Leovigilda.
- Ora. Pois se tem at automvel! - observou D. Esperana.
- No - interveio Mariana, que na sua timidez, o mximo que conseguia era invejar a beleza de Marlene: - O carro ela ganhou num concurso de beleza.
- Como  que voc sabe? - estranhou D. Esperana, coadjuvada pelas rugas na testa de D. Leovigilda.
-        Foi o porteiro do prdio que me contou, seu Joo. 
(Seu Joo - anote-se - alm de porteiro do prdio de Marlene, fazia a faxina semanal em vrios apartamentos daquele quarteiro da Avenida Jlio Furtado).
-        Ela  de fato muito bonita. Trabalha no cinema, mas o carro ela ganhou num concurso de maios.
As outras duas se entreolharam e D. Esperana falou primeiro:
-        Esses concursos de beleza!  tudo pornografia,  o que .
A conversa terminou a, porque D. Leovigilda tinha de subir para determinar o jantar e agora estava justamente nesta providncia, como fazia todas as tardes, quando 
o Pe. Ponciano, que acabara de dar aula a Ismaelzinho chamou-a na porta da cozinha:
-        Senhora, eu gostaria de falar-lhe um instante.
-        Pois no, Padre - e veio para a sala, sentar-se numa das cadeiras que rodeavam a mesa onde a famlia fazia as refeies e onde o padre dava as aulas a Ismaelzinho. 
Este j recolhera os livros e se retirara para o seu quarto, onde antes passava grande parte do dia, estudando, lendo, e onde agora permanecia to pouco tempo, tendo 
D. Leovigilda j descoberto porque o quarto de Ismaelzinho tinha janela para a rea interna e dali le no podia ver aquela desencaminhadora de menores.
Pe. Ponciano tomou um ar grave, pigarreou discretamente e abordou o assunto:
-        Tenho notado que o nosso Ismael anda muito nervoso, minha senhora.
-        Eu tambm, padre. Isto vem me preocupando h dias.
-        No esperava outra coisa de me to zelosa. Mas acontece que precisamos descobrir...
O padre interroupeu a frase a meio, vendo o Sr. Leo-cdio que entrava e se dirigia a uma gaveta onde guardava as contas do condomnio. Trazia os papis de algumas 
despesas e queria registrar no livro-caixa. Ele tambm se surpreendeu com a presena da mulher e do padre, conversando com ar to formal.
D. Leovigilda quebrou o rpido silncio que se fez:
- Foi bom voc chegar, Leo. Estamos conversando sobre um assunto muito srio.
- Mas Pe. Ponciano - ponderou imediatamente Leocdio: - O senhor aumentou o preo das aulas no faz nem um ms.
- No se trata disso - cortou D. Leovigilda contrariada. - Trata-se de Ismaelzinho.
-        Mesada?
- Que mesada, homem. O Pe. Ponciano estava aqui a me dizer que Ismaelzinho anda esquisito. Faa o favor de repetir suas palavras, padre.
- Bem - tornou a falar Pe. Ponciano: - Eu estava aqui a dizer para sua senhora que o rapaz deve ter algum problema. Ultimamente ele anda muito nervoso, muito desatento 
s aulas. Deve haver um motivo para isto.
- Eu sei o motivo - declarou solenemente a inquebrantvel senhora. E nem diminuiu o tom de voz para dizer: - Mulher!
- Mulher??? - o padre arregalou os olhos.
- Mulher??? - repetiu seu Leocdio, boquiaberto.
- Mas minha senhora... um futuro seminarista. O rapaz tem dotes sacerdotais e...
- Tenho certeza de que nem sequer falou com ela - voltou a interromper: Ismaelzinho sempre foi um rapaz corretssimo e nunca se meteu com mulheres. Ele est obcecado 
por uma viso.
- Mas que diabo de viso  esta - bradou Leocdio, esquecendo-se da presena do padre e citando o capeta com a maior intimidade.
Enquanto o piedoso sacerdote se benzia, D. Leovigilda se levantou e comandou as aes:
-        Venham e vejam.
Caminhou at  janela e puxando a cortina, mostrou o binculo que Ismaelzinho, para no ter de responder perguntas embaraosas ao atravessar a sala portando aquele 
objeto de nenhuma finalidade domstica ou didtica, escondera ali.
- Meu binculo - disse o Sr. Leocdio.
- Sim, o seu binculo - concordou a mulher, abaixando-se e apanhando o binculo: - Ele botou esta porcaria aqui para ver aquela pecadora mais de perto - e dizendo 
isto olhou pela janela e apontou l para baixo.
Coincidncia ou no, o fato  que Marlene estava debruada na varandinha de seu apartamento, tomando a fresca.
-        Veja - disse a senhora: - l est ela - e entregou o binculo ao padre que, imediatamente, assestou-o na direo da varanda de Marlene e comeou a graduar 
as lentes. Ela estava com um decote muito condescendente.
- Mas quem  aquela mulher? - perguntou o sndico, com toda a sinceridade, por ser talvez o nico homem das proximidades que ainda no notara a presena de Marlene 
naquele apartamento.
-        Uma vagabunda qualquer,  isto - soltou a mulher, iniciando uma torrente de palavras acusatrias  vizinha que mal conhecia: - uma dessas sem vergonhas 
que trabalham no cinema, uma despudorada que sai para a praia de Copacabana quase nua, que sai daqui, do Graja, com as pernas de fora e atravessa a cidade assim, 
para ir se exibir nua pr'aquelas bandas. Onde j se viu uma coisa dessas aqui, numa zona residencial...
- Mas o que  que o Ismaelzinho tem com ela? - queria saber o Sr. Leocdio.
- Nada. Graas a Deus... mas est babado por ela... est sendo tentado pela pecadora. Esta mulher precisa ser expulsa da - e, com esta sentena, D. Leovigilda encerrou 
o laudo acusatrio.
Durante todo esse tempo, o padre continuara firme, olhando pelo binculo. Ela notou a demora e falou, com voz de censura:
-        Pe. Ponciano!
O sacerdote baixou rapidamente binculo embaraado. E foi ai que Ismaelzinho, atrado pelas palavras duras que sua me dizia e ele, l do banheiro e no conseguia 
entender, entrou na sala. Vendo os trs prximos  janela e o padre com o binculo na mo, sentiu uma tonteira irresistvel e caiu duro no cho. Desmaiou.

4

MEU DEUS, ele quebrou a cabea - berrou D. Leovigilda, quando viu Ismaelzinho cair no tapete e dar com a cabea na beira da mesa, abrindo um talho na testa.
A confuso que se formou foi geral, com todos correndo ao mesmo tempo para socorrer o rapaz, inclusive a empregada, que veio l de dentro atrada pelos gritos da 
patroa. A tudo isto Marlene, l em baixo, do outro lado da rua, estava alheia. Calmamente ela se retirava da janela, porque trs sujeitos metidos a engraadinhos, 
tinham parado na calada, perto da sua varanda e lhe dirigiam piadinhas sem a menor graa; pelo menos do ponto de vista dela, j que o trio se divertia bastante 
vendo a contrariedade da moa diante do seu humor grosseiro.
Positivamente ela no estava gostando da vizinhana. No por causa de galanteios bobocas, que a isto ela estava acostumada e em qualquer bairro  a mesma coisa, 
mas por causa do olhar hostil das mulheres, do olhar pido dos homens. A isto Marlene no estava acostumada.
A princpio divertira-se com aqueles homens que, das suas respectivas janelas, olhavam-na insistentemente. Uns eram to insistentes e permanentes nos seus postos 
de observao que lhe vinha um impulso moleque de lhes dar um adeuzinho. Pensou que, se assim fizesse, a surpresa seria to grande que a maioria se despencaria pela 
janela. Este pensamento tambm a divertiu, mas depois - quando as mulheres passaram a observ-la com ar de censura - comeou a achar chato.
Agora ela estava mais do que precavida contra os vizinhos, com os reiterados episdios que involuntariamente provocou. Houve o caso do senhor que morava no andar 
trreo de um dos prdios do outro lado da rua, que lhe mandara uma cesta de flores e ela entregara ao porteiro Joo para devolver. O homem assinara-se Arnaldo e 
soube depois, pelo mesmo Joo, que era um vivo assanhado. Houve o caso do cavalheiro que morava no edifcio ao lado, no segundo andar, onde uma janela devassava 
o seu quarto. Uma tarde estava tranqilamente mudando de roupa quando dera com ele na janela citada, sorrindo-lhe prazerosamente. Ficara contrariada e batera com 
as venezianas de sua janela no focinho do indiscreto. Dias depois deu-se o caso inverso: estava inadvertidamente de baby doll, deitada em sua cama a falar no telefone, 
quando deu de cara com uma senhora a espi-la do mesmo lugar onde estivera o cavalheiro. Mas a foi a senhora que lhe dirigira um muxoxo desdenhoso e batera a janela. 
Havia tambm o gorduchinho do 102. Rara era a vez em que Marlene saa ao corredor que ele no arranjasse tambm um pretexto para sair e lanar-lhe olhares cobiosos. 
E havia a cena desagradvel que se repetia sempre que Marlene saa para ir  praia. Quando ela aparecia na portaria de maio, coberta pela sua sada-de-praia, abraada 
 barraca e  esteirinha, imediatamente havia um silncio constrangedor na rua. Grupos se cutucavam, homens se viravam ostensivamente e parecia haver um aviso secreto 
que fazia surgir cabeas em dezenas de janelas. Ela fingia no tomar conhecimento de nada. Seguia seu caminho, entrava no carro estacionado no meio-fio, ligava o 
motor e ia embora. Mas tudo se repetiria, quando ela voltasse.
E tudo continuava mais ou menos nesse p, at que veio aquele domingo. Chovera a semana inteira, Marlene no fora  praia e no deixara o carro como fazia sempre, 
em frente ao posto de gasolina onde trabalhava um rapaz que o lavava para ela. O domingo era um dia cacete e montono, nuvens escondiam o sol e contribuam para 
o mormao reinante. Marlene, chateada por ter de passar o dia inteiro sem nada que fazer, foi at  varandinha do apartamento e olhou para o carro.
- "Como est sujo" - pensou. 
Sbito teve uma idia:
- "Vou lavar o coitadinho".
Voltou para o interior do apartamento e tirou o vestido. Pegou uma blusa e vestiu, enrolando as pontas e dando um n abaixo dos seios. Meteu um short amarelo, j 
muito batido, e foi  rea interna onde apanhou um balde, o pano-de-p e o pano-de-cho.
Pouco depois, sem se importar com um grupo de homens que lhe dirigiram os galanteios habituais, comeou a lavar o carro. E logo vrias cabeas surgiram nas janelas 
da vizinhana, para apreciar o espetculo.
No se passara nem um minuto do momento em que Marlene se aproximou do carro e j Arnaldo tocava a campainha no apartamento de seu Eugnio. Quem abriu a porta foi 
Mariana e, ao dar de frente com a sua ltima esperana para trocar de estado civil, baixou os olhos pdicamente e murmurou:
-        Ol, Arnaldo.
Arnaldo devolveu o ol e no escondendo seu nervosismo, quis saber:
-        Eugnio est?
No foi preciso resposta, o caro de seu Eugnio assomou  porta e Arnaldo pediu, disfarando o mais que pde a sua nsia:
-        Eu queria te falar uma coisa.
Seu Eugnio saiu e fechou a porta atrs de si, pouco se incomodando em deixar Mariana plantada pelo lado de dentro. Os dois deram alguns passos pelo corredor e Arnaldo 
depois de medir a distncia e ter a certeza de que no seria ouvido por mais ningum, segredou ao amigo:
-        Depressa. A boa ali de frente est nua na rua - e encaminhou-se para a escada, seguido de seu Eugnio que, incrdulo, perguntou:
-        Toda pelada?
-        Quase - ia informando Arnaldo, enquanto desciam
a escada com inusitada rapidez: - Est com um short infernal, lavando o carro.        
Esquecido de sua teoria sobre mulheres inacessveis, seu Eugnio seguiu o companheiro, tendo murmurado apenas:
- Oba!
Noutras alturas ou, mais precisamente, cinco andares mais acima, Ismaelzinho procurava nervosamente o binculo que D. Leovigilda escondera. Revirou o guarda-roupa 
da me sem o menor cuidado em manter a ordem dos guardados. Levantava caixas, atirava peas de vesturio para o ar e acabou encontrando o desejado binculo numa 
gaveta, por baixo das camisolas de D. Leovigilda. Apanhou-o sfrego e saiu correndo para a sala, escorregando no tapete e levando novo tombo, no mesmo lugar em que 
desmaiara dias antes. Desta vez, no entanto, nem sentiu o baque. Levantou-se depressa e meteu a cara na janela, com o binculo nos olhos e um esparadrapo na testa.
Tambm o homem do prdio ao lado do de Marlene e que costumava vigiar seu quarto, aproveitou que sua zelosa esposa estava na missa, e ficou de l grelando.
Marlene, inocente, tinha ido l dentro encher novamente o balde e estava de volta, quando D. Esperana, l do seu quarto, gritou para Mariana, na sala:
-        Mariana, quem tocou a campainha?
-        Foi Arnaldo. Queria falar em particular com Eugeninho.
No foi preciso mais nada. Logo D. Esperana surgiu na sala e trovejou: - Como?
Sim, era isto mesmo. O Arnaldo chegara e dissera que queria dizer uma coisa ao Eugeninho. Os dois saram e deviam ter ido l pra baixo, para o apartamento do Arnaldo. 
D. Esperana correu  janela e viu Marlene do outro lado, lavando o carro.
- Ns tambm vamos l pra baixo - anunciou resoluta, abrindo a porta e saindo, seguida pela tmida irm.




5

ARNALDO, no seu incontido desejo de espiar Marlene, nem se lembrou de fechar a porta do apartamento, por onde passou D. Esperana impvida e forte, sem ao menos
ponderar que estava entrando no apartamento de um vivo o que - na ordem das coisas - deve ser mais ou menos pecado igual ao de freqentar apartamento de solteiro. 
Isto deve ter pensado Mariana, que hesitou  entrada, mas acabou seguindo Esperana, prevendo as complicaes prestes a se desencadearem.
L em cima, no quinto andar, D. Leovigilda saa do banheiro enrolada numa toalha e entrava em seu quarto para se surpreender com a baguna reinante. Havia calcinhas 
ntimas no assoalho, suteres em cima da cama, caixas abertas sobre a sua penteadeira e todas as portas e gavetas dos mveis estavam escancaradas. De sada ela ia 
pensando que era ladro, mas ao ver suas camisolas revolvidas correu para a gaveta e deu pela falta do binculo. Num timo percebeu o que acontecera e correu assim 
mesmo, enrolada na toalha, para a sala de jantar.
Tambm D. Esperana corria, mas l no trreo, em direo ao mesmo cmodo, encontrando logo as respectivas bundas de Arnaldo e seu Eugnio voltadas para a parte de 
dentro, enquanto suas cabeas (ela no viu mas calculou) estavam debruadas para fora, admirando aquele espetculo de deboche, aquele exibicionismo despudorado.
- EUGNIO!!! - estrondou a gordssima senhora, surpreendendo a cachorrinha de Arnaldo, que dormia numa poltrona. A pobrezinha meteu o rabo entre as pernas e fugiu 
como um raio para a cozinha, enquanto seu Eugnio, surpreendido em flagrante, pulava para trs e dava com a nuca na guilhotina da janela.
- Bonito papel, seu deletrio. Ento o senhor tambm  um debochado, como esse stiro - e D. Esperana apontou para Arnaldo.
- Perdo, mas... - ia dizendo Arnaldo.
- Perdo  o raio que o parta. Um no deve nada ao outro...
- Voc est enganada, querida, eu estava justamente convencendo o Arnaldo de no espionar os vizinhos - tentou explicar seu Eugnio.
- E voc pensa que eu vou acreditar nesta baboseira? Voc pensa que eu sou uma imbecil qualquer?
- Ningum chamou a senhora de imbecil - ponderou Arnaldo.
- Cale-se - retrucou ela: - O senhor  o principal culpado... Trazendo meu marido que estava quieto em casa, para ver aquela prostituta...
- L isso  verdade - concordou seu Eugnio, fugindo  responsabilidade.
- A senhora no sabe o que est dizendo - disse Arnaldo.
- O qu? No seja prfido, seu Arnaldo. O senhor acha ento que todo mundo no conhece a sua ficha? No me obrigue a falar, ouviu? No me obrigue a falar.
- Eu no sei o que se pode falar a meu respeito. Eu sou um homem que no tenho de dar satisfao a ningum. Alm disso, eu sou vivo.
- Vivo e debochado. Todos, compreendeu... todos sabem as farras que o senhor faz aqui dentro com suas crioulas.
- Crioulas no. Caboclas - traiu-se Arnaldo, prejudicado pela raiva: - Eu nunca andei com crioulas.
Foi a que Mariana, at ento calada, a olhar de um lado para o outro, como se assistisse a uma partida de pingue-pongue, entrou na roda. Deu um gritinho e colocou 
as mos sobre os olhos, no querendo acreditar no que ouvira. Arnaldo segurou-a: - Perdo, Mariana, eu... Mariana abaixou os braos resoluta e lascou-lhe na cara: 
- Racista! - e saiu correndo rumo ao corredor, em demanda do quarto onde choraria com mais conforto o seu desgosto.
No quinto andar, D. Leovigilda tambm apanhara Ismaelzinho com a boca na botija:
- Largue esse binculo, pecador - tentou ela dizer com ares de ofendida pela heresia filial.
Mas Ismaelzinho limitou-se a virar o rosto e dizer:
- No chateia, Mame - e tornou ao binculo.
-        Oh... - exclamou sufocada.
Ismaelzinho nunca lhe falara assim. Era o poder diablico daquela mulher enviada pelo demnio que estava influenciando seu filho. Se ao menos Pe. Ponciano estivesse 
ali, mas era domingo e aos domingos o padre sumia. Voltou-se nos calcanhares para botar um vestido e sair em busca do marido. De maneira nenhuma permitiria que Ismaelzinho 
continuasse a conspurcar os olhos na viso do pecado.
No andar trreo, seu Eugnio e Arnaldo tinham se afastado da janela e quem ali se aboletava agora era a possante D. Esperana. Seu corpanzil mal dava para debruar 
no parapeito, mas ela se espremia na medida do possvel e berrava l pra fora:
-        Indecente! Sem-vergonha!
Marlene, distrada a passar o pano molhado pela capota do carro no percebeu de imediato que aqueles gritos eram para ela, mas quando D. Esperana gritou:
-        Lugar de vagabunda mostrar o umbigo  no teatro... Marlene sentiu o drama.
Mas ela no era de engolir desaforo calada. Quando comearam os mexericos dos passantes, na hora em que ela principiou a lavar o carro, bem que ela ponderou sobre 
as vantagens e desvantagens de estar sendo o ponto convergente de tantos olhares, mas chegou  concluso de que no estava fazendo nada demais e os outros que se 
ralassem. Esta concluso deixou-a predisposta a defender-se de qualquer ataque. Dai o ter revidado de estalo:
-        Meta-se com a sua vida, bruxa gorda - gritou Marlene.
Os rapazes das arquibancadas (e pareciam mesmo estar nas arquibancadas de um estdio, pois eram muitos, sentados nos degraus das portarias dos edifcios, no gradil 
das casas e alguns at no meio fio) caram na gargalhada o que apenas serviu para aumentar a raiva de D. Esperana.
-  porque esta terra no tem Polcia, por isso  que as vagabundas vm morar no lugar de gente decente - ela conseguira enfiar um brao pela janela e balanava 
as banhas ameaadoramente para Marlene:
- Saia da, vagabunda. Seno eu" vou te tirar - prosseguiu a mulher do apavorado seu Eugnio.
- Pois vem tirar que eu quero ver - respondeu Marlene, parando de esfregar e colocando as mos nos bem torneados quadris.
D. Esperana saiu da janela e virou-se para ir brigar na rua. Seu Eugnio tentou ficar na frente, para impedir a propagao do escndalo mas levou tamanha umbigada 
que foi obrigado a recuar.
Quem no recuou foi o Sr. Leocadio. Chamado por Leovigilda no apartamento 802, onde fora atender a reclamao do morador contra uma infiltrao na parede, o pai 
de Ismaelzinho desceu para o quinto andar disposto a exemplar o filho. O casal entrou na sala e l estava ele, no mesmo lugar, com o mesmo binculo, na mesma contemplao.
-        Veja - mostrou D. Leovigilda, colocando dramaticidade no gesto de apontar - l est o nosso filho hipnotizado pela pecadora.
Ismaelzinho, to entretido estava, que nem ouviu o libelo. De binculo estava e de binculo ficou. Indignado, o Sr. Leocdio partiu para ele e s ento o filho virou-se. 
O safano que o pai deu-lhe para tomar o binculo desequilibrou o rapaz que perdeu o binculo e o p de apoio, caindo pela janela afora.
- Meu Deus! - gritou Leovigilda.
- Meu Deus! - ecoou Leocdio.
E foi por Deus mesmo que Ismaelzinho conseguiu se agarrar nos ferros que sustentavam os trilhos da persiana e l ficou pendurado, mais plido do que nunca.



6

Sem SOMBRA de dvida os acontecimentos ali naquele trecho da Avenida Jlio Furtado estavam se desencadeando com uma certa coordenao. Por exemplo: as chamadas da
Radiopatrulha e do Corpo de Bombeiros foram feitas quase ao mesmo tempo. Os policiais tiveram intenso trabalho, os bombeiros praticamente nenhum, conforme se ver 
no decorrer desta narrativa.
Mariana, depois de chamar Arnaldo de racista e subir para o seu quarto (onde poderia chorar com mais conforto), usou realmente o seu cmodo particular para verter 
algumas lgrimas. Sua curiosidade pelas ocorrncias que se desencadeavam, causadas pela crise provocada pelo short de Marlene, era, porm, bem mais forte do que 
a sua capacidade para sentir-se infeliz. Por causa desse detalhe, Mariana, abandonou seu quarto e suas lgrimas, indo para a janela, ao ouvir os gritos de sua irm 
Esperana, vindos da rua. Correu para a janela e logo notou a possibilidade daquilo se transformar em conflito. Em pnico, ligou para a Radiopatrulha e pediu socorro.
Num dos edifcios em frente, no naquele em que residia Marlene, mas num outro ao lado, onde os moradores em grande maioria tambm postavam-se nas janelas para apreciar 
as cenas que se desenrolavam no asfalto, uma velhinha notou quando Ismaelzinho perdera o equilbrio e cara pelo parapeito, ficando pendurado pelo lado de fora. 
Essa velhinha ligou em seguida para o Corpo de Bombeiros, avisando que havia um homem pendurado no prdio em frente, prestes a se despencar, caso uma escada magirus 
no fosse enviada com a maior rapidez possvel.
O carro vermelho dos bombeiros estava ainda se preparando para partir quando Ismaelzinho foi salvo pelos esforos do pai e da empregada, uma robusta mulata. D. Leovigilda 
no ajudou nada, materialmente. Sua colaborao foi de mbito espiritual. Vendo o filho a debater-se na lisura da parede, como se fosse uma desajeitada lagartixa, 
correu para a sala de jantar e ajoelhou-se em frente a um quadro da Ceia do Senhor e ps-se a rezar com pungente fervor.
O Sr. Leocdio, mais prtico, segurou Ismaelzinho por um brao e berrou o quanto pde para que o filho se mantivesse calmo, que ele o puxaria de volta para dentro. 
Na verdade, no cumpriu a promessa, a no ser quando a empregada deu a sua mozinha. Ela agarrou o outro brao de Ismaelzinho e comandou as aes:
- Patro, quando eu gritar j, a gente puxa juntos - e gritou: j!
Puxaram de parceria e Ismaelzinho subiu o bastante para se agarrar como um nufrago que sente a possibilidade de salvar-se, no peitoril da janela. O resto foi fcil: 
o Sr. Leocdio agarrou-lhe os fundilhos das calas e alou-o sala adentro, para alvio geral.
Na rua, a imensa D. Esperana encontrava o primeiro obstculo. Ela sara para a rua e, no caminho, apanhara uma vassoura que Arnaldo esquecera num canto da sala. 
Apesar dos reiterados gritos de seu Eugnio:
-        Volte, mulher! O que  isso! Volte! Esperana, voc enlouqueceu?
... apesar - reafirmo - ela seguiu no caminho da rua, onde chegou bufando de dio:
-        Voc vai yer com quem se meteu, sua vagabunda! - gritou ela, para Marlene.
A adversria, vendo o volume do inimigo, a vassoura e seu ar decidido, empalideceu e recuou um pouco. Foi quando surgiu o primeiro obstculo.
Os rapazes que se haviam juntado ao redor para ver Marlene lavar o carro de short, como se atendessem a um lder invisvel, correram todos para proteger a moa e 
um, mais afoito, foi avisando:
-        A senhora no vai bater na moa no.
-        Saia da, seu moleque - berrou D. Esperana. Os outros protestaram em unssono:
-        No vai bater no! Volte para sua casa, megera, fera da Penha - foram algumas das expresses dirigidas a ela.
Por um momento D. Esperana mediu as hostes inimigas. Impotente ante os inesperados aliados da sem-vergonha, resolveu ir  forra no carro. Levantou a vassoura e 
deu tremenda vassourada num dos pra-lamas.
-        Meu carro - gemeu Marlene, que tinha um carinho todo especial para com o Volkswagen ganho no concurso.
A raiva levou-a  reao. Apanhou o balde que estava a seu alcance e atirou toda a gua na cara da outra. D. Esperana ps-se a tossir de sufocao e dio.
Quando seu Eugnio atravessou a rua, D. Esperana e Marlene j estavam engalfinhadas com a rapaziada em volta, querendo separar. Seu Eugnio no era um cago total. 
Longe disso; tinha um certo medo de D. Esperana, um misto de respeito e vontade de no se chatear, mas para brigar com homem, at ali - e j ia para os 50 anos 
- nunca dera pra trs. Enfiou o brao no rapaz mais prximo e agarrou-se com ele. Arnaldo, que vinha atrs e no tinha decidido ainda se fora em demanda da rea 
de atrito como simples espectador ou se fora solidrio com o amigo e vizinho, aderiu  segunda hiptese e ps-se a dar pontaps no rapaz que embo-
Iara com seu Eugnio. Os outros acharam que era covardia e um deles acertou um admirvel bofeto em Arnaldo. O vivo caiu  distncia, como um sapo, todo esparramado 
na calada. Sua fria foi tamanha que perdeu o instinto de conservao. Viu a seu lado a vassoura abandonada por D. Esperana e, de sapo, passou a helicptero. Segurou 
o cabo da vassoura com as duas mos e levantando aquela perigosa "hlice" acima da cabea, retornou  rea de atrito rodando-a furiosamente, espalhando gente pra 
todo lado.
Foi quando chegou a Radiopatrulha. Ou antes, no chegou a chegar. Pelo menos naquele instante. O carro do Corpo de Bombeiros corria pela Avenida Jlio Furtado em 
razovel velocidade, quando o carro da Radiopatrulha, dirigido com aquela prepotncia to peculiar aos policiais, entrou na mesma avenida. O motorista dos bombeiros 
tentou travar, mas era tarde demais: as duas viaturas se chocaram de lado e, ambos os motoristas, para evitar um choque maior, deram um golpe de direo, subindo 
os carros a calada e derrubando o muro de um terreno baldio, de onde saiu a correr espavorido e segurando as calas, um mendigo barbado. O que ele estava fazendo 
ali no  da nossa conta. Afinal ns todos, ainda que no seja em terreno baldio, fazemos a mesma coisa.
Policiais e bombeiros desceram das respectivas viaturas para examinar os danos causados e os possveis feridos. Felizmente os danos eram poucos e no havia feridos, 
mas a velhinha que chamara o Corpo de Bombeiros para salvar Ismaelzinho, estava num posto de observao que no permitia atentar para detalhes. Por isso, vendo o 
choque, ela foi ao telefone e ligou para o Touring Club pedindo um carro-reboque.
No quarteiro, a coisa estava feia. Arnaldo, de tanto rodar, sentiu enjo e vontade de vomitar. Largou a vassoura e encostou-se no carro, a suar frio, de mo na 
fronte.
Seu Eugnio era contido por uns dez, D. Esperana por uns cinco e Marlene era agora senhora absoluta da vassoura, que segurava com as duas mos, aguardando novas 
escaramuas. Os empurres e o vozerio continuavam e o Sr. Leocdio, que, depois de salvar Ismaelzinho, descera com toda a famlia e mais o seu revlver, achou de 
bom alvitre dar um tiro para cima, com inteno de espantar o povaru.
Espantou alguns circunstantes e enfureceu outros:
-        Tiro no! - berrou o mesmo rapaz corpulento que proibira D. Esperana de bater em Marlene com a vassoura: - Tiro no! - repetiu, encaminhando-se de dedo 
em riste para o Sr. Leocdio.
Os homens da Radiopatrulha, passado o susto, comentavam o acidente, quando ouviram o tiro. Deixaram o carro onde estava e saram correndo em direo ao outro quarteiro.
Quem tambm se impressionou com o tiro foi a velhinha que chamara os bombeiros e o carro-reboque. Ela saiu mais uma vez de sua janela e - prevendo feridos - ligou 
para o Pronto Socorro, pedindo uma ambulncia, para logo retificar:
-         melhor mandar duas. Tem muita gente machucada - dito o que, desligou e voltou calmamente para a janela.
Mas, voltando a Ismaelzinho, quem no estava entendendo mais nada era Marlene. Segurando a vassoura, ela olhava para ele e cismava:
-        "Por que ser que este rapazinho est aqui, me olhando com este olhar de hipnotizador de circo?"
COMO NO podia deixar de ser, foram todos parar na delegacia. Isto , todos no: os principais envolvidos na baderna. Marlene, na qualidade de piv do crime, D. 
Esperana, na qualidade de provocadora do conflito, e mais seu Eugnio, Arnaldo, o Sr. Leocdio, sua esposa Leovigilda, o rapaz forto que tentara proteger Marlene 
e mais uns dez outros, entre culpados e testemunhas. Ismaelzinho no foi arrolado nem como uma coisa nem como outra, mas Marlene lembra-se bem de que, na delegacia, 
em dado momento, deu com aquele mesmo rapaz de antes, novamente ao seu lado, olhando-a embevecido.
Foi um custo para os policiais conterem os nimos e s conseguiram pr fim ao entrevro, quando um deles voltou ao carro - j retirado de cima da calada pelos bombeiros 
- e pediu reforo. Esse reforo, inclusive, chegou na forma de um tintureiro (uma dessas camionetas fechadas da Polcia, especiais para o transporte de presos). 
Houve certa confuso  sua chegada, pois o tintureiro parou no local no mesmo momento em que as duas ambulncias tambm chegavam ali.
Na Delegacia, o comissrio de dia simpatizou sensivelmente com Marlene e foi muito gentil com ela, o mesmo no acontecendo em relao a D. Esperana, a quem chamou 
de culpada pela ocorrncia. Outro que levou um sabo em regra foi o Sr. Leocdio por ter dado o tiro para cima. Mas, de uma forma geral, a autoridade foi bastante 
benevolente, se levarmos em considerao as propores que o caso poderia ter tomado. Limitou-se o comissrio a dar conselhos, a dizer que, entre vizinhos civilizados, 
aquilo era um absurdo.
Quando D. Esperana, secundada por D. Leovigilda, insistiu que os trajes de Marlene atentavam contra o pudor, o zeloso policial defendeu uma tese muito interessante, 
segundo a qual o sentimento de pudor  muito relativo e se madama sentia o seu pudor ferido ao olhar para o short de Marlene, no devia mais faz-lo, uma vez que, 
assim procedendo, era madama que estava ofendendo o seu prprio pudor e no a moa que vestia o short, e o vestia sem imaginar que pudesse estar provocando nos outros 
tal sentimento. Dito o qu, sorriu para Marlene.
Terminada a explanao, o comissrio considerou que o melhor seria no registrar a queixa para evitar novas desavenas, ainda mais porque - ele tinha certeza - o 
incidente seria esquecido, para que todos pudessem viver naquele quarteiro de sua jurisdio em perfeita coexistncia pacfica. Era bem falante o comissrio, e 
conseguiu impor o seu ponto de vista sem provocar ressentimentos em qualquer das partes litigantes, nem mesmo em D. Esperana, j amaciada pelos desvelos de seu 
Eugnio, que desde o trmino da luta, no fazia outra coisa seno abra-la e cham-la carinhosamente de "minha Pep", apelido perdido no tempo, desde os primeiros 
anos de unio do casal. Parece que o fogo da luta reacendera em ambos um amor ainda vivo, mas que teimava em se fazer de omisso, talvez porque os dois tivessem se 
habituado ao ramerro do cotidiano. Quanto  outra parte - Marlene, esta no tinha mesmo do que se queixar. A deciso do comissrio era to somente um desejo de 
cativ-la, conforme ela logo percebeu.
Marlene era muito viva e percebia tudo. S no percebia por que diabo estava aquele rapazote magrela ali quase encostado a ela, como se quisesse cheir-la, olhando-a 
com olhos vidrados.

No dia seguinte a paz voltou a reinar naquele trecho da Avenida Jlio Furtado (Graja - Guanabara - Brasil), salvo um ou outro comentrio entre vizinhos, pois a 
baguna fora muito grande e era natural que provocasse ainda comentrios; afora isso, a paz era total e j no havia aquele clima de tenso que aumentara gradativamente, 
desde que Marlene fora morar ali.
Mesmo assim, Marlene resolveu se mudar. Os acontecimentos deixaram-na muito desgostosa, sara seu retrato nos jornais; isto lhe parecia uma propaganda negativa para 
sua carreira no cinema. No, ela no ficaria mais ali. J tinha combinado com uma amiga, ficar no seu apartamento no Catete, at que arranjasse outro para si. Um 
seu amigo, jornalista, aconselhara a mudana o mais breve possvel e naquela mesma segunda-feira ela tinha tudo assentado. Os mveis ficariam num guarda-mveis, 
o telefone seria retirado, ela nem voltaria para providenciar nada disso. Fez mala grande com as coisas que precisaria de momento e, discretamente, deixou o apartamento. 
O porteiro colocou a mala no carro e ela saiu sem ser notada por ningum, salvo pelo rapazinho magrela. Quando Marlene dobrou a esquina, deixando o bairro do Graja 
para sempre, l estava Ismaelzinho parado a contempl-la de olhar fixo e boca aberta.
At mesmo Mariana voltara s boas com Arnaldo. Depois de ver a irm entrar to resolutamente no apartamento do vivo, achou que ela tambm podia freqentar a casa 
dele e ento desceu com um bife cru para botar no olho roxo de Arnaldo. Ele ficou to agradecido, ela ficou to encantada com os agradecimentos dele, que esqueceram 
o bife do que se aproveitou a cachorrinha de Arnaldo para almoar.
Mas quem mais se beneficiou com tudo aquilo foi o casal Eugnio-Esperana. Suas ltimas horas foram vividas num mar de rosas e - quando chegou a hora do jantar e 
seu Eugnio chegara com fome - trocaram um beijo longo e ela falou:
-        Meu bem, vista o pijaminha e venha jantar, que eu preparei a sopa de camaro que voc adora.
Ah... a sopa de camaro. Seu Eugnio era tarado por ela. Tomou um banho rpido, vestiu o pijama e sentou  mesa, gritando para a cozinha.
- Pode tirar o jantar.
- J vai - gritou da cozinha a gorda mulher.
E seu Eugnio estava distrado, esperando, quando aconteceu o que ele jamais poderia prever. Seu queixo quase caiu, quando viu D. Esperana entrar na sala com a 
sopeira, vestindo um short igual ao de Marlene.
Igual em feitio, porque em tamanho era umas dez vezes maior.
